Um ataque de grupos armados contra a comuna de Kenscoff, localizada a leste de Porto Príncipe, na madrugada da segunda-feira (24/08), deixou pelo menos 47 mortos e 22 feridos no Haiti. Os números foram anunciados pelas Nações Unidas e podem aumentar.
O ataque ocorreu em diferentes pontos de Kenscoff, quando homens armados avançaram sobre a população, executando moradores e incendiando residências e veículos. Uma igreja utilizada para acolher pessoas que já haviam sido obrigadas a abandonar suas casas também foi atacada. Além das execuções, pessoas foram sequestradas e outras encontram-se desaparecidas.
O ataque é atribuído à coalização de gangues armadas Viv Ansanm, que busca expandir o controle sobre a área , considerada estratégica, destaca a Reuters, por se situar em regiões altas próximas à capital, permitindo o acesso a rotas que levam à Pétion-Ville, onde estão embaixadas, hotéis e a sede temporária do governo. É também uma região de ligação rodoviária com o sul do país.
Kenscoff vem sofrendo constantes ataques desde o início de 2025. Segundo a ONU, neste período, mais de 260 pessoas foram mortas e aproximadamente 3 mil moradores foram obrigados a se deslocar. Os ataques, geralmente, são acompanhados de assassinatos, sequestros, estupros, incêndios e roubo de animais.
‘País não será entregue a bandidos’, diz governo
O governo haitiano condenou o massacre e colocou as forças de segurança em alerta máximo, anunciando reforços policiais à região. “O Governo mantém-se firme. Não recuará, não fará concessões, não se renderá. Kenscoff não será abandonada. O Haiti não será entregue aos bandidos. A República prevalecerá”, declarou.
O Gabinete de Proteção ao Cidadão (OPC), por sua vez, pediu às autoridades haitianas, especialmente ao Conselho Superior da Polícia Nacional (CSPN), uma resposta rápida para restabelecer a segurança no município após o massacre. A instituição defendeu a identificação e responsabilização dos autores dos crimes e solicitou assistência urgente aos feridos e às famílias.

A Polícia Nacional do Haiti (PNH) chegou a enfrentar os grupos armados durante o ataque. O diretor-geral da corporação, Vladimir Paraison, esteve no local e conversou com os moradores que protestam contra a falta de segurança e exigem a saída do chefe local da polícia.
Governo envia reforços da Polícia Nacional do Haiti (foto) a Kenscoff após ataque de gangues
@citoyendidier / X
O Conselho Nacional Democrático (CND) do Haiti cobrou do primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé esclarecimentos sobre as providências tomadas após o massacre e anunciou que pretende encaminhar o caso ao Tribunal Penal Internacional (TPI). Segundo a entidade, a repetição e a dimensão dos ataques podem configurar crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
Já o Movimento Cidadão Nou Bouke, em texto divulgado no veículo Rezo Nódwes, culpou a incapacidade do governo, liderado por Alix Didier Fils-Aimé, “de garantir o direito mais fundamental: o direito à vida”.
“Este fracasso é também da responsabilidade das forças estrangeiras e das estratégias de segurança impostas ao país pela comunidade internacional ao longo dos anos. Porque, apesar da presença de forças estrangeiras, os massacres continuam”, afirma o texto.
Mais de 1,5 milhão de pessoas deslocadas
Entre os alvos atingidos durante ataque estavam propriedades de Jean William “Bill” Pape, médico haitiano conhecido internacionalmente pelo trabalho na área de saúde pública e à frente de uma organização que atende, entre outros pacientes, pessoas com HIV e tuberculose.
Estimativas citadas pela Associated Press apontam que as gangues controlam aproximadamente 70% de Porto Príncipe. A violência dos grupos já provocou o deslocamento de cerca de 1,5 milhão de pessoas neste ano.
Dados da ONU indicam que 2.310 pessoas morreram e 1.106 ficaram feridas no Haiti entre janeiro e maio de 2026. No mesmo período, foram registrados 99 sequestros e 699 casos de violência sexual, em meio ao avanço da violência promovida pelos grupos armados.
Além da crise de segurança, o Haiti enfrenta uma grave emergência humanitária. Segundo o Programa Mundial de Alimentos (WFP), 5,8 milhões de haitianos, cerca de 52% da população, enfrentam níveis de crise ou mais graves de insegurança alimentar. Desse total, mais de 1,8 milhão estavam em situação de emergência alimentar entre março e junho de 2026.
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