Aqui nascem os foguetões Ariane 6 que vão ser lançados da Guiana Francesa

Um técnico com um fato branco a fazer lembrar os usados pela polícia científica em locais de crime atarefa-se de volta de um cilindro gigante. Estamos num enorme hangar que é na realidade a principal fábrica do ArianeGroup. A 40 km a noroeste de Paris, Les Mureaux recebe o centro de desenvolvimento e montagem dos foguetões civis e de defesa da Europa. É aqui que ganha forma o estágio principal do Ariane 6, o único lançador europeu.

“Está a fazer o degreasing”, explica Arnaud Demay, project officer do Ariane 6, levantando a voz acima do barulho, referindo-se ao processo de remoção de óleos, graxas, impressões digitais e resíduos orgânicos, de forma a garantir a integridade estrutural e evitar explosões ao entrar em contacto com combustíveis criogénicos. E acrescenta: “este é um dos raros processos humanos que fazemos aqui, quase tudo o resto é automático.

Montagem do estágio principal do Ariane 6 em Les Mureaux.

Mas o que acontece exatamente em Les Mureaux? É nestas instalações que é fabricado e montado o estágio principal do foguetão Ariane 6, ou seja, a parte inferior do corpo central do lançamento europeu. Nos seus 30 metros cabem um tanque de oxigénio líquido e um tanque de hidrogénio líquido que vão alimentar o motor Vulcain 2.1. Este chega aqui vindo de Vernon, outra das instalações do ArianeGroup que vamos visitar de seguida.

O que pode surpreender à chegada a Les Mureaux é o facto de [quase] todos os edifícios serem relativamente baixos. Afinal estamos a falar do local onde é montada uma parte de um foguetão com mais de 30 metros. A explicação é simples: toda a montagem é feita na horizontal. Só quando as partes do Ariane 6 chegam a Kourou, na Guiana Francesa é que a montagem final é feita – também na horizontal. O foguetão só é colocado na vertical quando chega à rampa de lançamento. Esta é uma das alterações em relação à Ariane 5, toda montada na vertical, como ainda se percebe quando Demay, à saída do edifício que acaba de nos mostrar, aponta para outro, em frente, bem mais alto.

O foguetão só é colocado na vertical já na rampa de lançamento em Kouro, na Guiana Francesa.

De Les Mureaux saem 9 a 10 estágios principais por ano. “Mas podemos chegar aos 12”, garante Demay aos jornalistas que o seguem, respeitando as delimitações amarelas no chão.

A parte de baixo do foguetão viaja pelo rio Sena até ao porto de Le Havre, onde vai embarcar num navio Canopée, especialmente desenhado para o transporte do Ariane 6. Faz depois um desvio pela Alemanha, onde é carregado o estágio superior do foguetão, fabricado em Bremen. O navio efetua ainda outras paragens para garantir que quando chega à Guiana Francesa leva todas as parte do foguetão, cuja montagem final é feita em Kourou.

O navio Canopée foi especialmente desenhado para o transporte do Ariane 6.

Nascido em 2015, quando a francesa Airbus e a alemã Safran decidiram juntar as respetivas atividades relacionadas com lançadores espaciais e sistemas de propulsão, o ArianeGroup é um grupo industrial franco-alemão que constrói os foguetões, mas também mísseis, numa dupla missão civil e militar. Mas se o grupo é relativamente novo, a tecnologia e organizações que lhe deram origem têm mais de 60 anos de história, desde o foguetão Diamant, que em 1965 colocou o primeiro satélite francês em órbita, passando pelo Ariane 1, lançado em 1979.

É isso que Hervé Gilibert, chief technical officer do ArianeGroup, e Caroline Arnoux, business unit director da Ariane 6 no Arianespace, nos explicam logo à chegada a Les Mureaux. O encontro decorre numa sala cujas paredes em vidro deixam ver a fábrica lá em baixo. Mas é para um enorme círculo no chão que Hervé e Caroline chamam a atenção. É o diâmetro da Ariane 6: 5,4 metros.

Se se está a questionar qual a diferença entre ArianeGroup e Arianespace, a resposta é simples: o primeiro é quem desenvolve e constrói o produto; o segundo é quem vende o serviço de lançamento e conduz a missão para o cliente.

Projeto europeu, a Ariane 6 conta com o envolvimento de 13 países, dos quais Portugal não faz parte. Apesar de não ter sido pensado para voos tripulados e de não ser reutilizável, como o são os lançadores da americana Space X, o foguetão europeu já está a pensar no futuro e nos desafios para tentar não perder mais terreno para os EUA e a China.

A uma curta viagem de carro de Les Mureaux fica Vernon, onde o ArianeGroup concebe, integra e testa os seus motores criogénicos para lançadores, incluindo o Vulcain 2.1 e o Vinci, este usado no estágio superior do Ariane 6.

Motor Vulcain 2.1

“Aqui desenhamos os motores, produzimos, montamos, testamos e, depois, os motores são enviados para Les Mureaux ou para Bremen”, explica Emmanuel Viallon. Numa sala onde podemos ver vários motores, com as enormes formas cónicas das suas extensões do bocal a fazerem lembrar grandes sinos, o diretor das instalações de Vernon aponta para um Vulcain 2.1 e explica que o revestimento branco é a proteção térmica. É esta que protege o motor do calor libertado pelos propulsores na descolagem.

Do outro lado da sala estão os motores Vinci, que são usados no estágio superior. Permitindo o reacendimento, é este motor que vai levar a carga na última parte do percurso, até à órbita. “Como pode ser reacendido, também o usamos para desorbitar o estágio superior e evitar lixo espacial”, diz ainda Emmanuel Viallon.

Seguimos então para a zona da fábrica, onde se ergue um enorme braço metálico. Depois de montado, o motor é colocado nesta máquina que o balança em várias direções – de novo, um pouco como um sino a dar as badaladas. Dali, segue para a área de testes, onde confirmam, por exemplo, que não tem fugas, que resiste à vibração. É ligado e testado, antes de voltar à fábrica para ser afinado e exposto a mais testes, antes de ser colocada a proteção térmica.

Aqui em Vernon, o ArianeGroup está também a desenvolver o Prometheus, uma nova geração de motores para a próxima geração de lançadores europeus. A maior diferença entre o Prometheus e o Vulcain? O combustível. Além de oxigénio líquido, o Prometheus usa metano líquido, que é mais fácil de manusear e, garante Viallon, mais barato e melhor para o ambiente.

Montagem de um motor Prometheus.

Estes novos motores serão também reutilizáveis até seis vezes. E, segundo o ArianeGroup, cerca de 70% das suas componentes serão produzidas através de impressão 3D.

Neste momento, o Prometheus está a ser testado nos foguetões da Maiaspace, subsidiária do ArianeGroup, que espera fazer o primeiro lançamento em 2027.

Antes de serem colocados em qualquer lançador, estes motores têm de passar pela Área de Teste do ArianeGroup. É para lá que seguimos. Sem telemóveis e rodeados de alertas “proibido fumar”, olhamos para um edifício em altura, castanho e bege, cuja porta vermelha esconderia o motor Vulcain se este estivesse a ser testado. Nessas alturas, as operações são comandadas a partir do Posto de Controlo, um bunker que garante a segurança de todos. Sem podermos assistir a um teste verdadeiro, é numa espécie de pequeno auditório que assistimos a uns vídeos onde se destaca a enorme nuvem de água provocada pela libertação do hidrogénio líquido usado no motor e pela água usada para o arrefecer.

Em Les Mureaux e Vernon

O DN viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros de França

Crédito: Link de origem

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