Angola. Magnifica Humanitas, um desafio a colocar a pessoa humana no centro da era da IA

A primeira encíclica do Papa Leão XIV, “Magnifica Humanitas”, promulgada a 25 de maio de 2026 e assinada a 15 de maio, por ocasião do 135.º aniversário da Rerum Novarum, continua a suscitar reflexão nas comunidades eclesiais e entre os profissionais da comunicação em Angola, e desafiando a Igreja e a sociedade a colocar a pessoa humana no centro da era da inteligência artificial.

Por Anastácio Sasembele – Luanda, Angola

Dedicado à salvaguarda da dignidade da pessoa humana na era da inteligência artificial, o documento propõe uma leitura ética e espiritual das profundas transformações tecnológicas, apelando à defesa da justiça, da fraternidade e da centralidade do ser humano.

Para o Frei Silva António, da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos em Angola, a encíclica não deve ser entendida como um texto técnico sobre inteligência artificial, mas como uma profunda reflexão antropológica. Segundo o religioso capuchinho, o Papa Leão XIV coloca a pessoa humana no centro da discussão, retomando a tradição da Doutrina social da Igreja para responder aos desafios da revolução digital.

O Frade sublinha que, tal como Leão XIII identificou na Revolução Industrial uma questão humana e social, Leão XIV reconhece na inteligência artificial (IA) uma nova questão antropológica. Entre as preocupações levantadas estão o controlo do poder tecnológico, a proteção da liberdade, da consciência, do trabalho e dos povos mais vulneráveis.



Frei Silva António, Frades Menores Capuchinhos em Angola

Frei Silva António alerta ainda para os impactos muitas vezes invisíveis do desenvolvimento tecnológico, lembrando que a inteligência artificial depende de recursos naturais, infraestruturas e trabalho humano, podendo esconder situações de exploração laboral, degradação ambiental e novas formas de desigualdade e de colonialismo digital.

Por sua vez, a Irmã Elisabete Corazza, Missionária Paulina em Angola, considera a Magnifica Humanitas um grande presente para a Igreja e para a humanidade. Na sua perspetiva, a encíclica oferece um critério seguro para enfrentar as mudanças tecnológicas sem cair nem no entusiasmo ingénuo nem no pessimismo.

Ir. Elisabete Corazza, Missionária Paulina em Angola, num encontro com o Papa Leão XIV.

Ir. Elisabete Corazza, Missionária Paulina em Angola, num encontro com o Papa Leão XIV.

A religiosa destaca que o Papa integra a revolução digital no percurso da doutrina social da Igreja, desde a Rerum Novarum até à Fratelli tutti, reafirmando que o ser humano continua a ser o eixo, o caminho e a meta de todo o desenvolvimento.

Para a missionária, a inteligência artificial deve ser encarada com discernimento, reconhecendo o seu potencial como expressão da criatividade humana, mas sem permitir que substitua aquilo que é próprio da pessoa: a capacidade de pensar, criar, relacionar-se e agir com liberdade e responsabilidade.

"A Inteligência Artificial deve ser encarada com discernimento ...": Ir. Elisabete Corazza.

“A Inteligência Artificial deve ser encarada com discernimento …”: Ir. Elisabete Corazza.

“A salvaguarda da pessoa humana é o grande apelo desta encíclica”, afirma, acrescentando que a Igreja é chamada a acompanhar as transformações da história iluminando-as à luz do Evangelho e promovendo uma consciência crítica capaz de colocar a tecnologia ao serviço da vida, da dignidade e do bem comum.

As reflexões dos dois religiosos convergem na mesma mensagem: perante o avanço acelerado da inteligência artificial, o maior desafio não é apenas tecnológico, mas profundamente humano. A resposta proposta pela Magnifica Humanitas passa por garantir que o progresso permaneça sempre ao serviço da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus.

Oiça aqui a reportagem e partilhe

Crédito: Link de origem

- Advertisement -

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.