Neste programa Artes, conversámos com Alda Barros a propósito da obra “Outros Silêncios”, o seu quarto livro de poesia depois de “A Flor Branca do Baobá” (2017), “Chuva de Prata” (2019) e “Something to Care About” (2026). Nascida no Pantufo, em São Tomé, em 1960, Alda Barros foi jornalista no período pós-independência ainda no seu país e depois foi para Angola, onde tirou Relações Internacionais e começou a trabalhar para a ONU. Seguiu-se uma carreira de 35 anos ao serviço das Nações Unidas, em que também trabalhou em missões na Guiné-Bissau, Timor-Leste, Burundi e República Democrática do Congo. A poesia sempre esteve presente, mas só começou a ser publicada nos últimos anos. Em “Outros Silêncios”, a autora volta a São Tomé, num livro atravessado pelas memórias, pelo desejo, pelo tempo e pela crença no potencial terapêutico do silêncio e da poesia.
RFI: Como nos poderia apresentar “Outros Silêncios”?
Alda Barros, Autora de “Outros Silêncios”: “Começaria por apresentar ‘Outros Silêncios’ falando da origem de ‘Outros Silêncios’, falando inicialmente da saúde mental, que é algo que às vezes nos passa despercebida porque temos ainda aquele mito de que ter um problema de saúde mental é ter um problema psiquiátrico e, então, há pessoas que escondem a doença ou o problema, não procuram ajuda, daí a razão de, nestes 35 anos no sistema, eu não poder dizer que passei ao lado, a saúde mental igualmente não passou ao lado de mim. Então, depois deste interregno, eu disse: ‘Não. Vou tentar pôr alguma coisa por escrito para dizer às pessoas que ter um problema de saúde mental não é estar maluca como às vezes se pensa, não se pode associar a psiquiatra’ – embora, por vezes, o psiquiatra seja uma vertente igualmente a contactar caso o psicólogo o recomende.”
Isso leva-nos ao título do livro, “Outros Silêncios”, e ao poema com o mesmo título. Esse poema fala em “sons silenciosos”, histórias não contadas, e dedica o livro “a todos aqueles que acreditam na cura através do silêncio”. Qual é o potencial poético do silêncio?
“O silêncio, para mim, é um medicamento e uma terapia porque há momentos em que a gente não quer ouvir vozes, não quer ouvir conselhos, mesmo que seja aquela voz amiga que sempre esteve presente, a gente diz: ‘Não, hoje quero estar sozinha. Quero pensar no que isto pode dar.’ E há muita gente que não só se retira do convívio dos familiares, mas também de outros meios, de pessoas conhecidas, porque nem todo o silêncio é de cura, mas aquele silêncio que a gente exige de nós próprios é para curar, é para fazermos uma terapia interna e dizer: ‘Deixa-me ver se eu consigo antes de pedir ajuda’.
O livro é habitado por tanta vida, tantos sons, sabores, paisagens… Não é o contrário do silêncio?
“É o silêncio que cada um se impõe. Quando digo que o silêncio cura, pode ser um silêncio como música de fundo. Aí, já não é o silêncio a 100%, é um silêncio que tem um complemento e este complemento é uma música, pode ser um som para se pensar melhor, para se saber o que fazer a seguir, que passos dar ou então apenas para não ouvir ninguém e não ouvir nada.”
É um complemento de poesia também?
“Também. A poesia está ali, implicitamente presente, a poesia faz parte deste silêncio. A gente não quer falar com ninguém, mas quer ler um livro de poesia, quer ler uma poesia, quer ver o que tal autor diz acerca do livro que escreveu. Eu posso dizer que quero o silêncio porque eu quero interiorizar os meus poemas ou um poema qualquer, desde que seja poesia. A poesia tem um peso que muita gente não valoriza ou não se dá conta do peso que tem.”
Há algum poema que gostasse de nos ler para curar, se calhar, algumas almas que estão a precisar de poesia e de silêncio? Um poema com um significado especial para si?
“Eu gostava de ler o poema “Choro de uma Criança”. Posso?”
Vamos a isso.
“Hoje haverá festa/ no mar de saudades/ alinhadas à noite esquecida / numa chávena de chá esquecida/ requentado por mãos distintas./ Com cheiro à liberdade/ entre o prazer demorado/ que se mistura aos soluços forçados/ e distintos./ Sorrisos vibrantes/ do tamanho do telhado de vidro/ abrindo as portas de memórias surdas/ reflectidas no vazio do teu corpo desigual./ Perdido no espelho do tempo/ mansinho como o choro de uma criança.”
Por que é que este poema é especialmente importante para si?
“Este poema é importante para mim porque eu associo o silêncio à liberdade. Eu, às vezes, digo que sou uma pessoa livre. Eu adoro a liberdade. E para ser livre, nós temos que saber valorizar essa liberdade, temos que conhecer os limites da nossa liberdade, porque normalmente a gente diz ‘a minha liberdade termina quando começa a tua’ ou vice-versa. Então, ser criança é ser livre. O espelho do tempo dá-nos liberdade, quando a gente olha para o tempo, olha para trás e diz: ‘O tempo se foi, passou, mas estamos aqui, continuamos livres. É um bocado isso.”
Fala em liberdade, em memória, no tempo. Tudo isso são temas que atravessam este livro?
“São todos temas que atravessam este livro que dão peso, que para mim e para muitos tem algum peso. Este livro tem uma história que, quem sabe, eu conte numa outra oportunidade.”
Qual é a história?
“Este livro tem uma grande história, na criação do livro, no esmiuçar de cada poema, no conteúdo dos mesmos e nas entrelinhas. Há toda uma história misturada que eu, por acaso, já pensei em dizer: ‘Qualquer dia eu pego num dos poemas e transformo o poema num livro, mas cada livro será uma história contada de forma diferente porque cada poema tem o seu peso, como eu há bocado acabei de dizer.”
É um peso biográfico? É o peso também da memória?
“Não, não é um peso biográfico. É o peso da memória. Sim, sim. É um peso, como quem diz, ele vai trazer outros pontos que não estão mencionados nestes poemas e que eu vou tentar separá-los para dizer às pessoas, por exemplo, o poema ‘O Choro de uma Criança’ é por isto, aquilo e aqueloutro e há a história de uma criança por trás. Está a ver?”
Abre o livro com a frase “Só é possível esquecer o passado quando conseguir(mos) adiar a sua existência!”, o que mais uma vez nos leva para o peso da memória. Por outro lado, também há muitas referências a São Tomé: Pico, Trindade, Baía de Ana Chaves… Talvez haja uma geografia afectiva nos poemas, como por exemplo em “Ilhas Santas”, em que São Tomé e Príncipe surge explicitamente no título. São Tomé e Príncipe também é um dos temas do livro?
“São Tomé é implicitamente um dos temas do livro, um dos impulsionadores do livro, portanto, dos sentimentos que conduziram a este resultado, porque eu sou de lá e não me de dissocio, nem quero me dissociar disso. Em todos os meus livros, o meu São Tomé e Príncipe está lá, presente, presente, presente. É a minha poesia. São Tomé e Príncipe é a minha poesia, de forma que eu não poderia de forma nenhuma concluir um livro de poesia sem falar da minha poesia, da poesia principal que é o meu país.”
A Alda é uma poetisa, uma mulher livre que viveu mundo fora. Nasceu em São Tomé e Príncipe, foi jornalista, estudou em Angola, passou décadas em missões da ONU em Angola, na Guiné-Bissau, Timor-Leste, Burundi e RDC. Há lugares onde viveu que também influenciaram e continuam a influenciar a sua poesia?
“Sim, necessariamente. Eu falo um bocado mais dos países e dos pontos em que eu trabalhei nas missões das Nações Unidas no meu primeiro livro ‘A Flor Branca do Baobá’. Sim, eu falo do Timor-Leste, eu falo da Guiné-Bissau – inclusivamente, até tenho um poema em crioulo da Guiné-Bissau. É muita coisa junta, muita lembrança, recordação, coisas boas que não poderiam, de forma alguma, ficar fora do conjunto destas memórias.”
Tendo estado em todos esses países, nomeadamente em países onde os direitos humanos são muitas vezes brutalmente violados, continua a escrever poesia. O que pode a poesia num mundo assim?
“Este mundo que eu vi, com que eu convivi e de onde eu bebi uma grande experiência de vida – e estou referindo-me aos direitos humanos e às violações dos mesmos – é um mundo diferente, não é um mundo qualquer, quero eu dizer. É um mundo que carece de mais poesia, mais poesia orientada. Tem que ser poesia orientada. Imagine alguém que sofre porque não foram respeitados os seus direitos. Como é que esta pessoa pode procurar sair do buraco em que o trauma a coloca? Porque qualquer sofrimento deixa traumas e eu ainda continuo a dizer que esta pessoa tem uma poesia para escrever, mas já não será a poesia que eu escrevo. Será uma poesia sofrida.”
A poesia pode ser uma resposta para os traumas?
“A poesia é uma resposta para se sair de um trauma. Ou para entrar. Depende da forma como a gente encara, descreve e vive esse trauma porque pode-se escrever uma poesia depois de um trauma e não se conseguir livrar do trauma. Então, aí já se tem que saber o que é que se quer depois de se escrever esta poesia relacionada ao trauma que se viveu. Porque não é fácil, nenhum dos lados é fácil discernir e separar o bom do mau. Tem que se ter uma grande habilidade para se ter esse jogo de cintura, porque é preciso um grande jogo de cintura.”
Trabalhou durante tantos anos em missões humanitárias difíceis e a poesia publicada surgiu apenas nos últimos anos. Como é que a poesia surgiu na sua vida? Que lugar é que acaba por ter na sua vida? E quando é que lhe pôde dar um espaço pleno para ela se exprimir?
“Eu fui uma das pupilas da matriarca são-tomense Alda Espírito Santo. A poesia começou muito cedo. Primeiro, a escrita em casa e depois veio acompanhar-me quando eu exerci as funções de jornalista. Tínhamos uma chefe que era a poetisa Alda Espírito Santo – cujo centenário acabou de ter lugar em São Tomé e Príncipe, numa conferência organizada pelo Ministério da Cultura e Educação de São Tomé e Príncipe, que decorreu de 2 a 6 de Julho em São Tomé, e da qual eu fiz parte. Portanto, esta coisa de poesia, letras, literatura em geral, é uma coisa que já vem de tenra idade. Depois, quando começo a trabalhar e encontro-me num ambiente de papéis, lapiseiras e uma chefe que gostava de poesia… Eu não tive como deixar isso para trás ou de lado. Nas minhas voltas pelas missões do sistema, sempre tive presente de que um dia haveria de pôr alguma coisa por escrito. E num belo dia comecei a escrever. Não contava conseguir publicar, não contava que alguma editora se interessasse, mas eu não desisto e, então, ao final do livro, eu disse: ‘Vou mandar para as editoras e vou ver quem responder primeiro’.”
Também escreve uma poesia muito sensual, como nos poemas “Devora-me”, “Inspira-te”, “Na penumbra da minha pele”, “O Piano”, “Amanhecer”, “Amor sem tréguas”, etc. É importante para si falar abertamente de desejo? É, de certa forma, uma potência de vida depois de tudo o que viu nas missões humanitárias?
“Este desejo foi praticamente a minha mochila. É algo que vem e vai. Há desejos em várias vertentes, de vários pesos. Não vou falar agora propriamente de cada um desses pesos ou de cada uma dessas vertentes, mas o desejo é uma coisa que está connosco, pelo menos comigo. Falo particularmente de mim. A gente vê-se numa situação difícil, por exemplo, sair do escritório e não poder chegar a casa, ter que voltar para trás, ter que esperar, depois daquele dia difícil, em que tu já acabas o dia à procura de um banho e da cama e, de repente, ouves que há recolher obrigatório, não te podes meter na rua. Então, este desejo não deixa de ser desejo, mas torna-se um ‘desejo não desejo’. Torna-se ansiedade, torna-se stress. É uma mistura de coisas que podem terminar num desejo bom, quando recebes a notícia: ‘Olha, agora está livre. Podem sair’. Ou quando ouves alguém que te diz: ‘Olha, não saias ainda’ e olhas para o relógio, é quase meia noite, olhas para o relógio, são duas da manhã e tu estás ali cansada, mas não podes chorar, tens que sorrir, tens desejo de chorar e não podes chorar, tens que sorrir porque as pessoas não podem entender que tu queres chorar ou que estás a chorar por dentro. É uma ginástica muito grande.”
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