A Europa dos campeões e o Portugal dos pequeninos

Na Europa, na última semana de agosto, à semelhança de todos os clubes participantes, o Sporting ficou a conhecer os oito adversários da fase liga que lhe saíram em sorte na maior competição de clubes no mundo, a UEFA Champions League.

Numa primeira impressão, não foi propriamente um sorteio simpático na perspetiva de se almejar repetir o feito da temporada passada com a qualificação direta nos oito primeiros classificados e com um apuramento diretamente garantido para os oitavos de final à frente de clubes como o Manchester City, o Real Madrid ou o bicampeão europeu PSG, para nomear alguns dos colossos em prova.

A campanha da anterior época pode ter alterado a medida das expectativas do universo leonino, atendendo que o Sporting terminou a fase de liga no sétimo lugar, com 16 pontos somados, com quatro vitórias em outros tantos jogos em Alvalade, num total de cinco vitórias, um empate e apenas duas derrotas. A equipa leonina demonstrou ser capaz de competir com a aristocracia europeia, sem recear ou entrar vencida pelo peso dos nomes.

Com o realismo que carateriza a identidade do clube, reconhece-se a dificuldade em repetir idêntica classificação, mas para a afirmação do projeto desportivo na Europa não se deve transformar dificuldades em impossibilidades, antes de a bola sequer mesmo começar a rolar. O Sporting irá defrontar Galatasaray, Lens, LASK, Shakhtar Donetsk, Manchester United, Roma, Barcelona e Manchester City e a ordem pelo qual apresento os adversários não é despicienda. É a sucessão cronológica dos jogos a disputar e, nessa parte, atrevo-me a dizer que a definição do calendário foi provavelmente mais simpática para os leões. Os primeiros quatro jogos constituem uma oportunidade que não convém ser desperdiçada, porque os últimos elevarão consideravelmente o grau de dificuldade. Chegar ao final da quarta jornada com oito a dez pontos não garantirá o apuramento com toda a certeza, mas permitirá encarar a segunda metade sem procurar milagres papais em Roma, ou a fazer contas de apuramento na worker bee de Manchester. Basta recordar que, na edição passada, nove pontos bastaram para ocupar o 24.º lugar e dezasseis garantiram o acesso direto aos oitavos de final.

As expectativas e as legítimas aspirações devem situar-se no grupo de equipas que acede ao play-off, uma classificação entre o nono e vigésimo quarto posto será o lugar natural e o objetivo mínimo a ser traçado para a consolidação do Sporting entre os maiores da Europa, tal como fora preconizado pelo fundador José Alvalade. Tudo o que vier por acréscimo será a confirmação da dimensão da transformação empreendida nos últimos anos e a materialização de um projeto para uma nova era de sucesso, colocando o Sporting onde sempre quis estar, mas nem sempre foi capaz.

Em Portugal, André Villas-Boas continua empenhado em fabricar inimigos imaginários no seu pequeno mundo, usando uma velha técnica de mobilização dos seus contra todos os outros.

No editorial Ode ao FC Porto, publicado na revista Dragões — o seu panfletário de trazer por casa —, começa por celebrar títulos e ambições, mas depressa converte a ode num inventário de invetivas sobre adversários, jornalistas, comentadores e, naturalmente, no seu alvo predileto, o presidente Frederico Varandas e o Sporting. Ao invés de glorificar os seus feitos, como parece indiciar o título do editorial, opta por rebaixar o nível atacando tudo e todos. Chega a ressuscitar a velha geografia moral de um norte virtuoso e sitiado por um sul centralizador, conspirador e protegido. É o conhecido mote contra tudo e contra todos, fórmula eficaz para cerrar fileiras, mas retrógrada e anacrónica num futebol que precisa de confiança e de atrair gerações não obrigadas a herdar guerras regionais, ou sequer gostos pelo campeonato nacional, num futebol cada vez mais global e acessível.

André Villas-Boas chegou à presidência do FC Porto fazendo questão de contrastar com o passado do seu predecessor, com um discurso sobre uma anunciada lufada de ar fresco para o futebol português, apresentando-se como alternativa geracional e de corte com as práticas institucionais de quem tantos anos ocupou a cadeira com que tanto sonhou sentar-se. Sucede que a lufada entrou no Dragão e só pode ter encontrado uma corrente de ar tão forte que rapidamente descampou, em face da preservação do receituário bafiento de cerco, da suspicácia permanente e do inimigo conveniente. É tanto mais incompreensível quanto o FC Porto acabou por sagrar-se campeão no passado ano com inegável mérito. Quem ganha não precisa de fabricar narrativas de perseguição para explicar o seu sucesso. A não ser que reconheça alguma fragilidade nas suas próprias capacidades e opte então por persistir em récipes que outrora foram permanentemente usados pelo seu antecessor com sucesso, mas de discutíveis maneiras.

O dislate chega ao ponto de sugerir aquilo que nenhum antigo árbitro ousou escrever ou dizer, argumentando que a uniformização de critérios da arbitragem permitiu ao Sporting beneficiar de golos mal anulados, só podendo estar a referir-se ao lance no Estrela da Amadora-Sporting da primeira jornada, finda a primeira parte. Ora, não houve um único ex-árbitro que analisasse esse lance e que considerasse como mal assinalada a falta cometida sobre Gonçalo Inácio. Só mesmo o propósito de condicionamento sobre a arbitragem, desde cedo e para o que resta do campeonato, pode levar alguém que já pisou os relvados como treinador a escrever semelhante despautério, convocando os ensaios sobre a cegueira quando, a julgar pelo que escreve, lhe faria bem mais falta a leitura dos ensaios sobre a lucidez — talvez não o faça por recear que a lucidez lhe desarrume a narrativa conveniente e seletiva.

Há ainda uma questão geracional que o presidente portista parece ignorar. O futebol moderno disputa o tempo e a atenção dos jovens com um universo quase infinito de entretenimento. As novas gerações não serão conquistadas por editoriais sobre cartilhas, guerras de coordenadas geográficas e ressentimentos que não devem ser herdados. Serão atraídas por estádios cheios, jogos competitivos, comunicação inteligente, acesso simples aos conteúdos e aos jogos, dirigentes credíveis e competições cuja integridade não seja diariamente posta em causa pelos próprios responsáveis que delas vivem.

O futebol português precisa de melhores dirigentes e de líderes com outra visão e outro discurso, capazes de atrair mais gente e as novas gerações, valorizando a competição e o futebol português. Não se pode proclamar que o campeonato está contaminado e estranhar que os mais novos não o queiram consumir.

Na Europa dos campeões, o Sporting tem de crescer para enfrentar os adversários. No Portugal dos pequeninos, Villas-Boas opta por encolher o futebol português para caber na sua exígua guerra.

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