A corrida espacial chega à América Latina

GUAYAQUIL, Equador — Por que o Equador, dentre todos os lugares, seria um foco na nova corrida espacial da América Latina? Bem, a resposta está no nome do país.

Em uma tarde recente, Robert Aillón e seus colegas estavam sentados à mesa em um restaurante de uma rede de hotéis em Guayaquil, a capital comercial do Equador, demonstrando grande entusiasmo pelo projeto que propunham: um novo porto espacial privado para lançamentos verticais e recuperação horizontal de veículos em um dos três locais potenciais nas proximidades.

Alguns investidores estrangeiros encaram o Equador com cautela num momento em que grupos do crime organizado lutam pelo controle dos portos marítimos do país, importantes centros de trânsito de cocaína com destino à Europa e à Ásia. Mas para Aillón e seus sócios, a região de Guayaquil é estratégica por um motivo diferente: ela fica a apenas dois graus ao sul da linha imaginária que divide o mundo em dois hemisférios.

Lançamento do HANBIT-Nano, foguete comercial sul-coreano, terminou em falha no Centro de Lançamento de Alcântara Foto: Reprodução/YouTube/Innospace

O planeta gira à sua velocidade máxima no equador — 1.670 quilômetros por hora — tornando o lançamento de foguetes a partir dessas latitudes mais eficiente. Graças ao impulso rotacional, é necessário menos combustível para atingir a velocidade orbital, o que, por sua vez, significa que os foguetes podem transportar mais carga útil a um custo menor.

Comparado a muitos outros países que se situam diretamente na linha do Equador — uma lista que inclui Congo, Somália, Uganda e Indonésia, bem como Colômbia e Brasil — o Equador, com sua economia dolarizada e governo favorável aos negócios, parece atraente apesar de seus desafios de segurança.

“O que está por vir é grandioso”, entusiasmou-se Aillón, um equatoriano de 50 anos que trabalhou como executivo bancário em seu país e nos Estados Unidos antes de fundar sua empresa, a Leviathan Space Industries LLC. “Os portos espaciais são a pedra angular da competitividade futura.” Muitos concordam. Um relatório do Fórum Econômico Mundial e da McKinsey & Company projetou que a economia espacial global poderá atingir US$ 1,8 trilhão até 2035, um aumento em relação aos US$ 630 bilhões de 2023. A oferta pública inicial (IPO) da SpaceX, de Elon Musk, em junho, que arrecadou um valor recorde de US$ 75 bilhões, despertou ainda mais interesse no setor em todo o mundo. Musk afirmou que buscará futuros portos espaciais além dos Estados Unidos, com a América Latina como uma potencial beneficiária óbvia.

O espaço também se torna um palco cada vez mais importante na rivalidade estratégica entre a China e os Estados Unidos, com ambas as superpotências disputando aliados e regiões geográficas estratégicas na América Latina, como o Cone Sul, cujos céus limpos são ideais para o rastreamento de satélites. Enquanto isso, os governos latino-americanos estão determinados a não apenas serem um campo de batalha em uma nova Guerra Fria, mas também protagonistas fundamentais no crescimento e na governança da indústria espacial.

As ambições são literalmente de outro mundo. O objetivo declarado de Musk é estabelecer uma presença humana permanente além da Terra, garantindo assim a sobrevivência da espécie a longo prazo. Aillón usa uma linguagem semelhante em sua página no LinkedIn, chamando um porto espacial privado no Equador de um “primeiro passo” para viagens interplanetárias. Planos para instalações de lançamento também foram cogitados no Uruguai, na República Dominicana e no Peru. Para aqueles que ainda residem na Terra, a Argentina e o Brasil estão produzindo satélites com implicações práticas para o dia a dia das pessoas, como avaliar a qualidade das colheitas e ajudar os governos a gerenciar melhor os desastres naturais.

O lançador de foguetes Astros em ação na Operação Perseu

O lançador de foguetes Astros em ação em Resende (RJ), durante a na Operação Perseu, em 2024: equipamento pode receber os sistemas Atmos e PULS. Crédito: Estadão

No entanto, especialistas alertam para uma mentalidade de corrida do ouro, na qual alguns investidores podem estar superestimando a capacidade do setor privado de construir, por conta própria, uma indústria espacial na América Latina. Governos e empresas precisam primeiro enfrentar inúmeros desafios, incluindo instituições frágeis e infraestrutura limitada, afirmam.

“As oportunidades existem, sim, mas não surgirão automaticamente”, disse Laura Delgado López, pesquisadora sênior do Instituto Jack D. Gordon de Políticas Públicas da Universidade Internacional da Flórida. “Precisamos entender melhor os mecanismos que moldam o setor espacial.”

De fato, a questão que o setor espacial da América Latina enfrenta hoje é: o que é mera propaganda e o que está realmente ao nosso alcance?

Potencial comprovado

Certamente não é tudo especulação: a região já possui um histórico comprovado em termos de locais de lançamento. O Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) está localizado no litoral nordeste do Brasil, no estado do Maranhão. Criado em 1983, o CLA fica a apenas 2,3 graus ao sul da linha do Equador, em uma área com baixo tráfego aéreo e densidade populacional. O local é tão atrativo que autoridades americanas ficaram entusiasmadas em 2019 quando, após décadas de negociações, o então presidente Jair Bolsonaro assinou um acordo de salvaguardas tecnológicas que permite o uso de tecnologia americana no local.

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No entanto, mesmo Alcântara tem sido uma história de potencial frustrado. Após a explosão de um foguete em uma plataforma de lançamento da CLA em 2003, que matou 21 engenheiros e técnicos, observadores afirmam que o centro ficou subutilizado por muitos anos. A maioria dos lançamentos é suborbital, o que significa que atingem o espaço apenas brevemente, a cerca de 96 quilômetros acima do nível do mar, permitindo experimentos de microgravidade, estudos atmosféricos e o crescente setor do turismo espacial.

Alcântara teve seu primeiro lançamento comercial em dezembro de 2025, com um foguete da empresa sul-coreana Innospace que caiu menos de um minuto após a decolagem. A Innospace planeja realizar outro lançamento a partir do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) ainda este ano.

O outro importante centro de lançamento no continente fica a cerca de 2.000 quilômetros a leste, na Guiana Francesa, uma região ultramarina da França. Frequentemente chamado de Porto Espacial da Europa, o local iniciou suas operações em 1968 e é operado em conjunto pela Agência Espacial Europeia (ESA) e pelo Centro Nacional de Estudos Espaciais da França, lançando foguetes tanto governamentais quanto comerciais.

Centro espacial de Alcantara (CEA), no estado do Maranhão. A base de lançamento mais próxima da linha do equador Foto: Joedson Alves/Agencia Brasil

Nos últimos anos, muitos países da América Latina e do Caribe têm utilizado as instalações europeias para transportar seus satélites, o que ilustra a falta de alternativas totalmente viáveis ​​dentro da própria região.

Ainda assim, ninguém duvida das possibilidades de crescimento. A ESA prevê que o número de satélites em órbita da Terra aumentará de cerca de 10.000 atualmente para 100.000 até 2030. Muitos serão pequenos dispositivos implantados em constelações, como as que a SpaceX opera em órbita baixa da Terra sobre várias partes do mundo para fornecer serviços de internet, um mercado no qual a Amazon também está prestes a entrar.

Todo esse crescimento exigirá novos locais de lançamento, bem como novos participantes. O IPO da SpaceX foi considerado um marco no que alguns chamam de “novo espaço” — uma era em que os monopólios estatais estão sendo substituídos por empresas privadas que assumem grandes riscos, têm apoio financeiro e são orientadas para o lucro.

Mas as barreiras de entrada são altas. Aillón, CEO da Leviathan Space, citou o exemplo do Porto Espacial de SaxaVord, na costa escocesa, que, com um investimento inicial de US$ 57 milhões, deverá receber o lançamento de um foguete suborbital neste verão boreal. Para a iniciativa da Leviathan, Aillón afirmou que está tentando captar US$ 800 milhões a partir deste ano. A empresa já garantiu seu primeiro parceiro: a Blackstar Orbital, com sede na Flórida, que aposta em entrar no mercado de drones espaciais de carga ou vigilância.

Nem todos podem seguir o modelo da SpaceX, alertou Victoria Valdivia, pesquisadora global do Instituto Europeu de Política Espacial e membro da iniciativa COSPAR-EUROMOONMARS-LUNEX.

“Na América Latina, há uma tendência a falar sobre ‘novo espaço’ e economia espacial, particularmente entre muitas startups que parecem preencher a lacuna em uma área onde os Estados têm sido ineficientes”, disse Valdivia, que também é doutoranda no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Santiago do Chile.

“Como seus projetos são atraentes, eles recebem muita visibilidade, mas, como estão mais focados nos negócios do que nas regulamentações, esquecem que precisam de toda uma estrutura organizacional para operar”, disse Valdivia. Ela citou licenças ambientais, bem como considerações sobre voos e impostos, áreas em que as burocracias latino-americanas “não são exatamente ágeis”.

A rivalidade entre os EUA e a China

Ainda assim, a região possui outras vantagens naturais. Os satélites precisam ser monitorados e rastreados a partir do solo, mas apenas cerca de um terço da área terrestre da Terra fica ao sul do Equador. Isso torna o território sul-americano extremamente valioso, especialmente as áreas onde o céu costuma ser mais limpo.

De fato, certos locais são cobiçados por grandes potências que buscam maximizar seu alcance — o que o campo nascente da “astropolítica” entende como o conjunto de atividades e tecnologias que um Estado pode implantar no espaço para fins de guerra, desenvolvimento e prestígio.

Foguete sul-coreano sofre falha após lançamento em Alcântara, no Maranhão

Veículo da Innospace apresentou uma anomalia e não concluiu o voo; nave pode ter colidido com o solo e causado explosão. Crédito: INNOSPACE

Um relatório recente de uma comissão do Congresso dos EUA observou que a China construiu 11 instalações para comunicações via satélite e radiotelescópios na América Latina, incluindo na Argentina, Bolívia, Brasil e Venezuela, o que gerou preocupação entre as autoridades americanas sobre seu potencial de uso duplo, dada a doutrina explícita de Pequim que funde operações civis e militares.

Para bloquear novas iniciativas, o governo Trump — numa aplicação atualizada da Doutrina Monroe — está pressionando abertamente os países a não acolherem novas instalações chinesas relacionadas ao espaço. Nas montanhas da província argentina de San Juan, o radiotelescópio CESCO, que a China estava construindo, permanece inativo, tendo sido marginalizado pela pressão dos EUA.

No deserto do Atacama, no Chile, no topo do pico achatado do Cerro Ventarrones, alguns dos componentes que fariam parte de um observatório astronômico permanecem no local — um projeto cancelado pelas autoridades chilenas devido a questões legais, após os alertas de Washington sobre a ameaça que representava para a segurança dos ativos espaciais dos EUA.

As ambições da China continuam grandes. Seguindo os passos do Starlink de Musk, empresas chinesas buscam construir suas próprias constelações de satélites para fornecer serviços de comunicação sem fio — entre elas, Guo Wang, gerenciada pela estatal China Satellite Network Group, e Qianfan, desenvolvida pela Shanghai Spacesail Technologies Co. Ltd.

Segundo o site da União Internacional de Telecomunicações, diversas operadoras de satélite chinesas apresentaram pedidos na última semana de 2025 para implantar mais de 200 mil dispositivos nos próximos anos — um número astronômico que esbarra em gargalos no setor de lançamentos e já levou o gigante asiático a explorar a possibilidade de estabelecer um porto espacial equatorial na Malásia. Alguns analistas questionam se o próximo passo será na América do Sul.

Enfrentando os obstáculos

Entretanto, empresas e autoridades governamentais estão trabalhando para solucionar alguns dos gargalos que a indústria espacial enfrenta — e, com sorte, aproveitar o momento.

Em 2024, o Brasil promulgou uma lei de atividades espaciais que “proporcionaria maior segurança jurídica para os operadores de lançamento brasileiros” e, portanto, representou “um passo importante para futuros negócios com o CLA com outros lançadores estrangeiros, privados e governamentais”, segundo Bruno Martini, cientista aeroespacial da Universidade da Força Aérea Brasileira (UNIFA). Uma nova empresa estatal, a Empresa de Projetos Aeroespaciais do Brasil S.A. (ALADA), também iniciou suas operações em 2025 com o objetivo de fortalecer o programa espacial brasileiro, incluindo o uso comercial do CLA. O Brasil agora trabalha no desenvolvimento de seus próprios foguetes.

Apesar desse novo impulso, a falta de financiamento continua sendo um desafio. A Confederação Nacional da Indústria observou, em um relatório de 2025, que o orçamento nacional de US$ 47 milhões destinado ao setor espacial representou apenas 0,002% do PIB brasileiro em 2023 — o segundo menor nível de investimento entre os países do G-20.

Bem mais ao norte, na República Dominicana, o próprio presidente Luis Abinader anunciou, durante seu discurso anual ao Congresso em fevereiro, que seu país iniciaria a construção de um porto espacial — graças a um acordo com a empresa americana Launch on Demand (LOD Holding) envolvendo um investimento de US$ 600 milhões. “Vamos lançar um satélite ou um foguete ao espaço a partir de Pedernales — aguardem para ver”, declarou o presidente. A previsão é que esse marco seja alcançado em maio de 2028.

A LOD Holding é liderada por Burton Catledge, um coronel aposentado da Força Aérea dos EUA que anteriormente comandou o 45º Grupo de Operações da Força Aérea, 45ª Ala Espacial, apoiando inúmeros lançamentos de foguetes para gigantes da indústria como SpaceX, Blue Origin e Moon Express, e também trabalhou no Pentágono.

“As oportunidades existem, sim, mas não surgirão automaticamente”, disse Laura Delgado López, pesquisadora sênior do Instituto Jack D. Gordon de Políticas Públicas da Universidade Internacional da Flórida.

Em entrevista à AQ, Catledge explicou que o local na República Dominicana foi escolhido devido à sua relativa proximidade com o Equador (18 graus norte), acesso a mar aberto, baixa densidade populacional, ventos favoráveis ​​em grandes altitudes e disponibilidade de múltiplas trajetórias orbitais. Ele também mencionou a construção de um porto marítimo próximo — que possibilitará o transporte de grandes equipamentos espaciais — e a expansão de um aeroporto vizinho para o transporte de satélites, ambos projetos promovidos pelo governo.

“O presidente Abinader disse em uma reunião: ‘Burton, aqui está meu número de telefone. Se você tiver que esperar mais de 48 horas por alguma coisa, me ligue’… A partir daquele momento, todas as portas se abriram”, disse Catledge. Em maio, 528 acres de terras estatais foram adquiridos para esse fim, e um Memorando de Entendimento foi assinado com o Instituto Tecnológico de Santo Domingo (INTEC) para treinar estudantes de engenharia e áreas afins em disciplinas aeroespaciais altamente especializadas, lançando as bases para o desenvolvimento de uma economia espacial no país.

O projeto prevê quatro plataformas de lançamento — duas para foguetes pesados ​​e superpesados, uma para foguetes médios e uma para foguetes pequenos — que operarão de forma independente. O financiamento provém de investidores institucionais privados, e não de fundos públicos, afirmou Catledge.

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O CEO da Launch on Demand afirmou que o projeto também conta com apoio político do governo dos EUA, que está ansioso para expandir os locais de lançamento no Hemisfério Ocidental como parte de sua estratégia geopolítica com Pequim. Catledge disse ter visto um “compromisso tangível dos EUA de que eles não estão apenas dizendo que estão se voltando para o Hemisfério Ocidental — eles de fato estão”.

Questões de interesse nacional

Ao contrário dos empreendedores entusiastas do setor privado, o Peru optou por trilhar o caminho tradicional do “espaço” para tentar desenvolver um porto espacial, baseando-se em sua experiência na gestão de grandes projetos de infraestrutura em parceria com atores estrangeiros, apesar da persistente instabilidade política dos últimos anos.

Em novembro de 2024, a agência espacial do Peru, entidade vinculada ao Ministério da Defesa, assinou um Memorando de Entendimento com a NASA, que deu início à cooperação em estudos conjuntos de viabilidade de locais de lançamento, assistência técnica e planejamento de lançamentos futuros.

O Relatório de Investimentos Plurianuais sobre Parcerias Público-Privadas do Ministério da Defesa para o período de 2023 a 2026 estimou o custo do projeto em US$ 270 milhões e afirmou que seu objetivo seria facilitar lançamentos de foguetes para voos orbitais e suborbitais: “Aqueles que transportarão pessoas para outros continentes em menos tempo, sem completar uma órbita completa ao redor da Terra”.

O porto espacial seria localizado em uma base da Força Aérea Peruana — em Chiclayo, Arequipa ou Talara, sendo esta última a que gera mais discussões devido à sua localização a quatro graus ao sul do Equador. Delegações de especialistas espaciais dos EUA visitaram o Peru para discutir a vasta gama de considerações políticas, sociais, financeiras, econômicas e regulatórias que o país precisa levar em conta para que o projeto avance.

“Faz parte de uma iniciativa nacional através da qual o país pretende se tornar um polo de conectividade, dada a sua localização estratégica e a política de abertura e integração global. É também uma forma de compensar as fragilidades na infraestrutura”, explicou Clemente Rodríguez, pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos do Exército Peruano. Ele observou que o Peru inaugurou recentemente um importante porto no Pacífico, ampliou seu principal aeroporto em Lima e está considerando a construção de um corredor ferroviário para o Brasil.

Até mesmo o Congresso peruano superou suas divisões crônicas para aprovar, por ampla maioria, em março, o projeto de lei apresentado pela ex-presidente Dina Boluarte, que declara a criação de um porto espacial como questão de interesse nacional. A Lei 32571 autoriza o Ministério da Defesa a conduzir os estudos técnicos e jurídicos que determinarão a viabilidade do projeto.

Nos séculos passados, os povos que habitavam o continente americano contemplavam o Infinito para encontrar seus deuses, elaborar calendários complexos e orientar suas pirâmides. Hoje, embora ainda haja trabalho a ser feito para concretizar esses sonhos, os latino-americanos voltam a olhar para as estrelas.

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