Aos 30 anos, Manuel Duran Clemente era um homem inquieto demais aos olhos do regime. Vinha de uma família remediada, de pai beirão e mãe galega. Mas o casamento permitiu-lhe outro nível de vida, que incluía visitas frequentes a Paris e compras de livros censurados em Portugal. Amigos destacados, como Maria Teresa Horta, Maria João Seixas e Fernando Mascarenhas, fizeram-no entender as injustiças do mundo. Era politizado. Antifascista. De esquerda.
O embate de frente com o regime começou quando, oito anos depois de estar no Quadro Permanente do Exército, pediu para sair da carreira militar. Mas em plena guerra colonial o requerimento não foi aceite. Em tom de protesto, o jovem oficial foi assistir clandestinamente ao Congresso da Oposição Democrática, promovido em Aveiro, em abril de 73.
Na sacola, levou 30 cópias do requerimento, em papel selado, que distribuiu a quem lhe apeteceu. Só que um confronto com a PSP fez o exército dar de caras com os seus espíritos revolucionários. Como castigo, foi enviado para a Guiné-Bissau.
Capitão Duran Clemente, no ano em que foi destacado para a Guiné-Bissau Foto arquivo pessoal de Manuel Duran Clemente
Capitão Duran Clemente, no ano em que foi destacado para a Guiné-Bissau Foto arquivo pessoal de Manuel Duran Clemente
“Foi o azar deles”, congratula-se hoje o coronel, na cadeira predileta que tem na sala, onde compôs umas anotações para servirem de auxiliar à ténue memória dos 81 anos. As datas não lhe fogem. Saiu de Lisboa a 28 de julho e chegou a Bissau quando o mês terminava, em plena época das chuvas.
Chegou descontente. Apesar de um 2.º comandante de um batalhão de intendência -responsável por levar mantimentos e gasolina para o mato, não ter de pegar em armas -, Clemente tinha consciência de estar na frente de uma guerra cuja legitimidade questionava.
Começou a sentir o pulso aos outros capitães, pronto a dar-lhes notícia dos movimentos contra o regime que se faziam sentir em Lisboa: as lutas antifascistas, sem as quais, reforça, “também não tinha havido 25 de Abril”.
O embrião do Movimento dos Capitães
Ainda o capitão não se tinha acostumado ao mais rigoroso dos teatros de guerra, quando começou a sentir que a revolta estava ali instalada. A causa era um decreto-lei do governo, publicado semanas antes, que equiparava jovens milicianos com um curso de poucos meses a oficiais de carreira com instrução de cinco ou seis anos.
Foi uma tentativa do regime de “aliciar rapazes escolarizados que, no final de 73, rejeitavam completamente a participação na guerra e muitos desertavam”, explica o historiador José Lopes Cordeiro. A diretiva foi muito mal recebida pelos militares “que tinham dado o corpo ao manifesto durante 13 anos de guerra”. Mas a questão ia mais fundo. A reação puramente corporativa passara a ser também política.
Tudo começou em Bissau. Um grupo de capitães mais politizados decidiu juntar-se para aproveitar a boleia do descontentamento e alertar os outros do que corria mal nos aspetos políticos e sociais do país.
O núcleo dinamizador incluía os capitães Duran Clemente e Carlos de Matos Gomes, então 2.º comandante do Regimento de Comandos da Guiné. A primeira reunião deu-se a 17 de agosto de 73 na sala de jogos do Clube Militar, em Bissau, onde hoje está instalado o Hotel 24 de Setembro, no bairro de Santa Luzia. Mais de 30 responderam à chamada, entre eles Otelo Saraiva de Carvalho. No espaço de oito dias, realizaram-se outros três encontros, dos quais saiu a decisão de redigir uma carta de protesto, que mais tarde viria a ser endereçada ao Presidente da República, Américo Thomaz, e ao Presidente do Conselho, Marcello Caetano.
Carlos Matos Gomes, capitão de Abril Foto Rui Duarte Silva
Carlos Matos Gomes, capitão de Abril Foto Rui Duarte Silva
No grupo encarregado de escrever o texto estavam os capitães Duran Clemente, Carlos de Matos Gomes e Teixeira Branco, para além do recém-promovido a major Almeida Coimbra. O “ultimato” seria assinado por 46 capitães e cinco tenentes (dos 66 destacados na Guiné). Um ultraje, de uma grande indisciplina, numa época de rédea curta para manifestações coletivas.
“Isso causou o seu efeito”, conta o coronel Duran Clemente. Marcello Caetano ficou preocupado. E tinha razão, porque o movimento teve lastro, quer na “metrópole”, com 136 oficiais a assinarem um documento semelhante em Alcáçovas, Évora, quer depois em Angola e Moçambique.
Estava lançada a primeira pedrada no charco. E o momento era incontestável. Umas semanas antes, António de Spínola, então governador daquela colónia, tinha regressado a Portugal no fim da missão, apregoando que “a solução na Guiné era política e não militar”, enquanto Marcello Caetano resistia: “Prefiro um desastre militar a negociar seja com quem for”.
Mercado de Bandim, Bissau, Guiné-Bissau Foto Danilo Vaz
Mercado de Bandim, Bissau, Guiné-Bissau Foto Danilo Vaz
Enquanto isso, na Guiné, a 24 de setembro de 1973, o PAIGC declarava independência unilateral, com mais de 70 países a reconhecerem-na, depois de uma comitiva das Nações Unidas ter atestado que o movimento de guerrilha já estava no controlo de uma boa parte do território. Portugal permanecia indiferente.
Foi a Guiné-Bissau a desempenhar o papel de “detonador do processo”, nas palavras do coronel Matos Gomes, que além de capitão de Abril, se notabilizou enquanto historiador e escritor. Ele, que já tinha estado na guerra em Angola e Moçambique, como comando, pôde testemunhar como ali, pelo tempo histórico mas também pelas características do terreno, as coisas eram diferentes.
Mas não só de aspetos práticos se fez a diferença. “Há uma conceção teórica que sustentou toda a luta”, que, para Dautarin da Costa, sociólogo guineense, ultrapassou as barreiras sociais entre os dois lados da guerra.
Também ao exército colonial chegou a mensagem principal da teoria de Amílcar Cabral: “A nossa luta não é contra os brancos, não é contra os portugueses. É contra o sistema colonial português, que nos oprime aqui e que oprime os portugueses lá na terra deles”.
O antigo ministro da Educação da Guiné-Bissau, que tem estudado a luta de libertação do seu país, crê que, para os militares portugueses, a dada altura, impõs-se questionar a utilidade da guerra. “Falamos de um conjunto de jovens que saem de outro país, vêm para a Guiné e encontram jovens mais ou menos da mesma idade, altamente motivados para conquistar a sua libertação, altamente instruídos ideologicamente para construir esse processo e com argumentos que faziam sentido, inclusivamente ao próprio adversário.”
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