“É o amor que deve triunfar, não a guerra”, palavras de Leão XIV em Angola – Semanário da Diocese do Porto
“Ai daqueles que submetem as religiões e o próprio nome de Deus aos seus objetivos militares, económicos e políticos, arrastando o que é santo para o que há de mais sujo e tenebroso”, disse o Papa nos Camarões. A viagem do Papa a África foi um constante apelo à paz.
Por Rui Saraiva
No momento em que fechamos a edição de 22 de abril de Voz Portucalense, decorre ainda a viagem de Leão XIV a África, que dura até dia 23 de abril, com a última passagem na Guiné Equatorial. Referimos aqui as visitas de Papa Leão à Argélia, Camarões e Angola.
Que a ninguém falte o amor
Começamos pela visita ao país lusófono, destacando, em primeiro lugar, a recitação do Terço no Santuário de Mamã Muxima, a Mãe do coração, no domingo 19 de abril. Leão XIV presidiu à celebração e nas palavras que dirigiu aos milhares de fiéis assinalou a história daquele Santuário que acolhe há séculos a oração de tantos homens e mulheres.
“Encontramo-nos num Santuário onde, durante séculos, tantos homens e mulheres rezaram, quer em momentos de alegria, quer em circunstâncias tristes e muito dolorosas da história deste país. Aqui, há muito tempo, Mamã Muxima se empenha de forma discreta a manter vivo e pulsante o coração da Igreja, um coração feito de corações: os vossos e os de tantas pessoas que amam, rezam, festejam, choram”, disse o Papa.
O Santo Padre referiu Maria, Mãe de Jesus como “Mãe bondosa e modelo de santidade” sublinhando que nós, “tal como Maria”, também fomos feitos para o Céu.
“Tal como Maria, também nós fomos feitos para o Céu, e caminhamos com alegria para o Céu, olhando para Ela, Mãe bondosa e modelo de santidade, para levar a luz do Ressuscitado aos irmãos e irmãs que encontramos”, frisou o Papa.
E acrescentou: “Rezar o Terço, portanto, compromete-nos a amar cada pessoa com coração maternal, de forma concreta e generosa, e a dedicar-nos ao bem uns dos outros, especialmente dos mais pobres. Uma mãe ama os seus filhos e, por mais diferentes que sejam uns dos outros, ama-os a todos da mesma forma e com todo o coração. Também nós, perante a Mãe do coração, queremos prometer fazer o mesmo, empenhando-nos sem limites para que a ninguém falte o amor e, com ele, o necessário para viver com dignidade e ser feliz: para que quem tem fome tenha com que se alimentar, para que todos os doentes possam receber os cuidados necessários, para que às crianças seja garantida uma adequada instrução, para que os idosos vivam serenamente os anos da sua maturidade. Uma mãe pensa em todas estas coisas: Maria pensa em todas estas coisas e convida-nos também a nós a partilhar a sua solicitude”, salientou o Papa.
Para Leão XIV é o amor que terá a última palavra e não a violência e a guerra. “É o amor que deve triunfar, não a guerra”, declarou o Papa na conclusão da sua reflexão, porque “é isso que nos ensina o coração de Maria, o coração da Mãe de todos. Partamos, pois, deste Santuário como ‘anjos-mensageiros’ de vida, para levar a todos a carícia de Maria e a bênção de Deus”.
Superar as antigas divisões e curar a chaga da corrupção
Entretanto, de manhã na Missa em Luanda na Esplanada de Kilamba, o Papa foi recebido com grande alegria pela multidão. O Santo Padre, falando em português, afirmou celebrar aquela Eucaristia “com o coração cheio de gratidão”, em particular, pelo “festivo acolhimento”.
Partindo do Evangelho daquele Terceiro Domingo da Páscoa, que nos fala dos discípulos de Emaús, o Papa lembrou a história de Angola, assinalando que os protagonistas daquele episódio evangélico “arriscavam-se a ficar presos na dor e fechados à esperança”. Na memória da dor da longa guerra civil que assolou o país, Leão XIV declarou que Angola tem fome e sede de esperança, de paz e de fraternidade.
“Irmãos e irmãs, nesta primeira cena do Evangelho, vejo refletida a história de Angola, deste país belíssimo e ferido, que tem fome e sede de esperança, de paz e de fraternidade. Na verdade, ao longo do caminho, a conversa dos dois discípulos, que recordam com desânimo o que aconteceu ao seu Mestre, traz à memória a dor que marcou o vosso país: uma longa guerra civil com o seu rasto de inimizades e divisões, de recursos desperdiçados e de pobreza”, afirmou.
Quem permanece imerso na dor, pode perder a esperança, frisou o Santo Padre, mas Jesus “está vivo, ressuscitou e caminha ao nosso lado enquanto percorremos o caminho do sofrimento e da amargura”, disse o Papa assinalando que o Senhor ajuda os discípulos “a olhar para além da dor” e a “descobrir que não estão sozinhos”.
“O Senhor aproxima-se dos dois discípulos desiludidos e com pouca esperança e, fazendo-se companheiro de viagem, ajuda-os a juntar as peças daquela história, a olhar para além da dor, a descobrir que não estão sozinhos no caminho e que os espera um futuro, habitado ainda pelo Deus do amor”, disse Leão XIV.
O Papa na sua homilia Kilamba, alertou para o risco da mistura de elementos mágicos e de superstição nas formas de religiosidade tradicional. Apelou a todos para que permaneçam fiéis à Igreja e aos seus pastores.
“É necessário estar sempre atentos às formas de religiosidade tradicional, que certamente pertencem às raízes da vossa cultura, mas que, ao mesmo tempo, correm o risco de confundir e misturar elementos mágicos e supersticiosos que não ajudam no caminho espiritual. Permanecei fiéis ao que a Igreja ensina, confiai nos vossos pastores e mantende o olhar fixo em Jesus, que se revela especialmente na Palavra e na Eucaristia”, sublinhou o Papa.
Em particular, Leão XIV afirmou que Angola precisa da “presença de uma Igreja que saiba estar próxima no caminho e saiba ouvir o clamor dos seus filhos”, construindo espaços de fraternidade e paz.
“Angola precisa de bispos, sacerdotes, missionários, religiosas e religiosos, leigas e leigos que tenham no coração o desejo de partir a sua vida e doá-la uns aos outros, de se empenhar no amor e no perdão mútuos, de construir espaços de fraternidade e paz, de realizar gestos de compaixão e solidariedade para com quem mais precisa”, assinalou Leão XIV.
Na conclusão da sua homilia, o Santo Padre disse aos fiéis para não terem medo de “construir um país onde as antigas divisões sejam superadas para sempre, onde o ódio e a violência desapareçam, onde a chaga da corrupção seja curada por uma nova cultura de justiça e partilha”.
“Só assim será possível um futuro de esperança, sobretudo para os muitos jovens que a perderam”, disse o Papa.
Sinais credíveis de comunhão, diálogo e paz
No final da tarde de dia 13 de abril, o Papa Leão encontrou a comunidade católica da Argélia, na Basílica de Nossa Senhora de África, na capital Argel.
O Santo Padre evocou a história antiga daquele povo, herdeira de “testemunhas que deram a vida” e que remontam também aos primeiros séculos do cristianismo. Recordou Agostinho de Hipona.
“Nesta terra, ressoou a voz fervorosa de Agostinho de Hipona, precedida pelo testemunho da sua mãe, Santa Mónica, e de outros santos. A sua memória é um apelo luminoso para que sejamos, hoje, sinais credíveis de comunhão, diálogo e paz”, disse o Papa.
Leão XIV propôs uma reflexão sobre três aspetos da vida cristã: a oração, a caridade e a unidade.
O Santo Padre lembrou que “a oração une e humaniza, fortalece e purifica o coração, e a Igreja argelina, graças à oração, semeia humanidade, unidade, força e pureza à sua volta, alcançando lugares e contextos que só o Senhor conhece”.
O segundo aspeto referido pelo Papa, o da caridade, foi lembrado através do testemunho dos mártires, feito de amor pelos irmãos.
Disse Leão XIV: “Foi precisamente o amor pelos irmãos que animou o testemunho dos mártires que recordámos. Perante o ódio e a violência, permaneceram fiéis à caridade até ao sacrifício da vida, juntamente com tantos outros homens e mulheres, cristãos e muçulmanos. Fizeram-no sem pretensões e alarde, com a serenidade e firmeza de quem não presume nem se desespera, porque sabe em Quem depositou a sua confiança”.
Sobre o aspeto da unidade, o Papa refletiu sobre o compromisso de promover a paz, que está intimamente ligado ao valor da unidade.
Disse o Santo Padre: “Uma parte considerável do território deste país está ocupada pelo deserto, e no deserto não se sobrevive sozinho. As adversidades da natureza relativizam qualquer presunção de autossuficiência e recordam a todos que precisamos uns dos outros e que precisamos de Deus. É o reconhecimento da fragilidade que abre o coração ao apoio mútuo e à invocação d’Aquele que pode dar o que nenhum poder humano é capaz de garantir: a reconciliação profunda dos corações e, com ela, a verdadeira paz”.
E o Papa concluiu o seu discurso encorajando os católicos argelinos a serem uma comunidade de fé coesa e aberta, vivendo em oração, caridade e testemunho de unidade.
“A paz não é algo a inventar: é algo a acolher”
Na visita de Leão XIV aos Camarões, especial destaque para o encontro pela paz com a comunidade de Bamenda, na catedral de S. José, na quinta-feira 16 de abril.
O Santo Padre sublinhou a alegria de ali estar numa “terra tão atormentada”. “Toda a dor que se abateu sobre a vossa comunidade torna hoje ainda mais impactante a consciência de que Deus nunca nos abandonou! N’Ele, na sua paz, podemos sempre recomeçar!”, disse o Papa.
Recordemos que Bamenda, é uma região anglófona dilacerada pela violência, palco do confronto entre as forças armadas e grupos armados separatistas que atuam para combater o que consideram uma marginalização por parte do governo central francófono.
Neste encontro inter-religioso o Papa Leão XIV frisou a aproximação das comunidades cristãs e muçulmanas que perante a violência decidiram anunciar a paz, fundando um Movimento pela Paz.
Disse o Papa: “Agradeço-vos, porque – sim, é verdade! – estou aqui para anunciar a paz, mas constato de imediato que sois vós que a anunciais a mim e ao mundo inteiro. Na verdade, como um de vós recordou há pouco, a crise que abalou estes territórios dos Camarões aproximou mais do que nunca as comunidades cristãs e muçulmanas, a tal ponto que os vossos líderes religiosos se uniram e fundaram um Movimento pela Paz, através do qual procuram mediar entre as partes adversárias”.
Leão XIV aproveitou a ocasião para denunciar aqueles que submetem as religiões e o próprio nome de Deus a objetivos políticos e militares assinalando como gostaria que houvesse construtores da paz noutros lugares da terra.
Afirmou o Santo Padre: “Quanto gostaria que assim acontecesse em tantos lugares da terra! Bem-aventurados os construtores da paz! Porém, ai daqueles que submetem as religiões e o próprio nome de Deus aos seus objetivos militares, económicos e políticos, arrastando o que é santo para o que há de mais sujo e tenebroso. Sim, queridos irmãos e irmãs, vós que tendes fome e sede de justiça, vós, os pobres, os misericordiosos, os mansos e os puros de coração, vós que chorastes, vós sois a luz do mundo”.
Leão XIV encorajou todos a continuarem a valorizar aquilo que os aproxima e destacou, especialmente, as mulheres, leigas e religiosas, que cuidam os traumatizados pela violência.
Disse o Papa: “A este respeito, o meu agradecimento vai para todos aqueles – em particular para as mulheres, leigas e religiosas – que cuidam das pessoas traumatizadas pela violência. É um trabalho imenso, invisível, quotidiano e exposto a perigos”.
O Santo Padre aproveitou a ocasião para criticar os “senhores da guerra” que “fingem não ver que são necessários milhares de milhões de dólares para matar e devastar, mas não se encontram os recursos necessários para curar, educar e reerguer”
“Quem saqueia os recursos da vossa terra, geralmente investe grande parte dos lucros em armas, numa espiral de desestabilização e morte sem fim. É um mundo ao contrário, uma subversão da criação de Deus que toda a consciência honesta deve denunciar e repudiar”, disse o Papa.
E acrescentou: “O mundo é destruído por poucos dominadores e é mantido de pé por uma miríade de irmãos e irmãs solidários! São a descendência de Abraão, incontável como as estrelas do céu e os grãos de areia na praia do mar. Olhemo-nos nos olhos: somos já este povo imenso! A paz não é algo a inventar: é algo a acolher, acolhendo o próximo como irmão e como irmã. Ninguém escolhe os seus irmãos e irmãs: devemos apenas acolher-nos uns aos outros! Somos uma única família e habitamos a mesma casa, este maravilhoso planeta de que as culturas antigas cuidaram durante milénios”.
Leão XIV no final do seu discurso recordou o Papa Francisco que nos “exortou a caminhar juntos cada um na sua vocação, alargando as fronteiras das nossas comunidades”.
E concluiu dizendo: “É a revolução silenciosa da qual vós sois testemunhas! Como disse o Imã, agradeçamos a Deus por esta crise não ter degenerado numa guerra religiosa e por ainda estarmos a tentar amar-nos uns aos outros! Sigamos em frente sem nos cansarmos, com coragem e, acima de tudo, juntos, sempre juntos!”
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