A tecnologia deixou de ser deflacionista? – Observador

Historicamente, os avanços tecnológicos são uma das principais forças deflacionistas da economia, a par da globalização. No entanto, embora a tecnologia apresente uma tendência secular estruturalmente deflacionista, existem períodos excecionais de inflação tecnológica.

Atualmente, o avultado investimento em inteligência artificial está a inverter a tendência deflacionista de quase quatro décadas dos preços dos produtos tecnológicos importados pelos EUA, sobretudo computadores, periféricos e semicondutores, pressionando a capacidade produtiva deste hardware. Além disso, as empresas que investem somas avultadas em infraestruturas de IA aceitam custos mais elevados para garantir capacidade.

Entre 1990 e 2020, os preços de importação destes produtos caíram quase 80% e, entre 2006 e final de 2020, cerca de 33%, graças aos avanços tecnológicos e aos ganhos de eficiência na produção, mas mantiveram-se, desde então, próximos dos mínimos históricos e, desde o início de 2026, já subiram mais de 13%. Assim, a tecnologia, que durante muitos anos contribuiu para reduzir a inflação, poderá atualmente ser uma fonte inflacionista na maior economia do mundo, a par da subida do preço do petróleo desde o início da guerra no Médio Oriente, em 28 de fevereiro.

Desde 1990, os ganhos de produtividade, a globalização, a deslocalização da produção para a Ásia e a miniaturização tecnológica tornaram os computadores e os semicondutores uma das maiores forças deflacionistas da economia mundial. Todavia, a IA não está apenas a aumentar a procura por software. Está sobretudo a aumentar extraordinariamente a procura de hardware.

Cada centro de dados necessita de um número quase ilimitado de GPUs, CPUs, chips de memória HBM, servidores, sistemas de refrigeração, cabos, equipamentos de rede e componentes eletrónicos. Como a oferta destes equipamentos não consegue aumentar ao mesmo ritmo da procura, os preços sobem.

Ou seja, desde o início da década de 1990 a tecnologia ajudou a travar a inflação porque os preços dos equipamentos eletrónicos desciam continuamente. No entanto, embora os primeiros sinais tenham surgido nos últimos anos, esta tendência inverteu-se sobretudo na primeira metade de 2026 e a IA está a transformar um setor tradicionalmente deflacionista numa fonte inflacionista, pelo menos enquanto a capacidade de produção de semicondutores e de infraestruturas para data centers continuar limitada. Todavia, as forças da oferta e da procura tendem a reequilibrar-se mais cedo ou mais tarde. A economia é feita de constantes equilíbrios e desequilíbrios.

Entre 1986 e o final de 1989, os preços dos computadores, periféricos e semicondutores inverteram igualmente a tendência histórica de queda dos preços da tecnologia, tendo subido cerca de 15%. A apreciação do iene após o Acordo de Plaza em 1985, numa altura em que muitos computadores eram produzidos no Japão, é uma das explicações. Em apenas três anos, o iene duplicou de valor face ao dólar norte-americano, passando de cerca de 250 ienes por dólar para 125 ienes, ou, em sentido inverso, de 0,004 dólares por iene para 0,008 dólares. Foi também nessa altura que se iniciou uma forte procura mundial por computadores pessoais, contribuindo, tal como atualmente, para que a capacidade de produção de semicondutores se tornasse insuficiente para acompanhar a procura.

Além disso, a China só se começou a afirmar como a “fábrica do mundo” na década de 1990 e, sobretudo, após a entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001. Antes disso, grande parte da produção de computadores e semicondutores estava concentrada no Japão, nos EUA e noutros países desenvolvidos. Assim, os custos de produção eram mais elevados, a concorrência internacional era menor e a deslocalização da produção para países de baixo custo ainda se encontrava numa fase inicial.

A partir da década de 1990, além do regresso da deflação tecnológica, a intensificação da globalização das cadeias de produção acelerou a tendência de queda dos preços. A par da tecnologia, a globalização é uma das maiores forças deflacionistas da economia global. A crescente participação da China na produção eletrónica, os ganhos de escala, a rápida evolução tecnológica, a automatização e o aumento da concorrência internacional contribuíram para uma queda quase contínua dos preços ao longo das últimas três décadas.

Mas o ano de 2026 coloca uma questão importante: será apenas a IA a impulsionar a subida dos preços dos produtos eletrónicos, sobretudo dos semicondutores? A China também já não é tão deflacionista como foi nos últimos 30 anos, sobretudo devido à considerável subida dos salários nas últimas duas décadas. Além disso, o renminbi tem valorizado no último ano e meio.

A IA é provavelmente o catalisador mais recente, mas não explica, por si só, esta mudança. Desde o início de 2025, a moeda chinesa valorizou cerca de 8%, passando de 7,32 para os atuais 6,77 renminbi por dólar norte-americano, cotado ao certo para o dólar, contribuindo adicionalmente para o encarecimento das importações norte-americanas de produtos tecnológicos vindos da China. Portanto, o boom da inteligência artificial poderá estar a acelerar uma inversão que já estava em curso, impulsionada por alterações estruturais, nomeadamente a menor capacidade deflacionista da China, a reorganização das cadeias globais de abastecimento e a valorização do renminbi.


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