Viagem de 16 dias com a Nike, bolas e o golo de El Manco – Observador

A FIFA queria andar para a frente, o COI não queria sair de onde estava e assim nasceu o Mundial de futebol, na sequência da exclusão do futebol como modalidade olímpica durante oito anos em 1928. A razão era simples: atletas profissionais não podiam participar nos Jogos, o futebol dava cada vez mais passos reais para melhorar as condições dos seus praticantes e, num Congresso da FIFA realizado em Amesterdão, foi decidido que o futebol internacional não poderia continuar circunscrito ao movimento olímpico. O passo decisivo para o primeiro Mundial estava dado, com a curiosidade de colocar na organização… o campeão olímpico da altura, o Uruguai, que juntava também a efeméride dos 100 anos da primeira Constituição e a parte financeira de ajudar a cobrir todos os custos das viagens e dos hotéis. Era o pontapé de saída.

Em termos logísiticos começava também uma verdadeira dor de cabeça, mesmo tomando em linha de conta que algumas das melhores seleções europeias declinaram o convite para marcarem presença na prova. Ainda assim, quatro equipas saíram da Europa rumo à América do Sul… no mesmo barco, o transatlântico Conte Verde: primeiro a Roménia, que saiu de Itália, depois a França (que levou a partir de Villefranche-sur-Mer o líder da FIFA, Jules Rimet, três árbitros e o próprio troféu, que representava a deusa grega da vitória: Nike), depois a Bélgica via Barcelona. Foram pouco mais de duas semanas a correr pelo convés para manter a forma antes da paragem no Rio de Janeiro onde embarcou o Brasil – a Jugoslávia foi numa outra embarcação, o Florida. A viagem foi longa mas estava tudo pronto para o início do primeiro Mundial, que teve apenas 18 dias… pouco mais do que o tempo do percurso das quatro formações europeias até Montevideu.

No final, o troféu ficou em casa, com Uruguai e Argentina a serem as melhores equipas só com vitórias até à decisão que caiu para o conjunto de Montevideu por 4-2. O avançado argentino Guillermo Stábile foi o melhor marcador da prova com oito golos em cinco jogos, numa competição que contou com a participação de 13 equipas, com 18 encontros, uma média de quase quatro golos e um total de 590.000 espectadores.

Não eram tempos fáceis. Havia uma crise global depois da queda de Waal Street e da Grande Depressão, a vida ficara mais complicada para todos, a margem para arriscar era mais pequena. Foi por isso que algumas seleções europeias de renome, como Inglaterra, Itália, Alemanha, Espanha ou Países Baixos acabaram por ficar de fora perante a recusa dos jogadores em ficar tanto tempo de fora sob pena de perderem depois os seus empregos. A Roménia também estava nesse lote mas o próprio Rei Carol II resolveu a questão, ligando à empresa petrolífera com esse pedido… em forma de ameaça – se não permitissem que os jogadores fossem ficando com os seus lugares, o negócio fechava. Tudo com outra condição: também escolheu a equipa.

Filho de pais espanhóis, Héctor Castro começou a trabalhar com apenas dez anos, saindo da escola para ir vender jornais antes de ir assumindo outras profissões para ajudar em casa. No entanto, e com apenas 13 anos, perdeu parte do braço direito num acidente com uma serra elétrica numa carpintaria, o que lhe colheu o sonho de um dia poder estudar medicina. Não brilhou aí, brilhou no futebol. Tanto que “El Manco”, como também era conhecido na escola e depois na equipa, marcou mesmo o último golo do Uruguai frente à Argentina na final do Mundial de 1930, fechando de vez o resultado no Estádio Centenário.

A rivalidade entre Uruguai e Argentina já se fazia sentir e de forma bem acentuada em 1930. Antes da final no Estádio Centenário, que começava a acusar os vários jogos realizados num curto lapso de tempo, as duas equipas não conseguiram sequer chegar a acordo pela bola, a ponto de ser a própria FIFA a decidir que a primeira parte teria uma bola da Argentina e a segunda uma bola do Uruguai. Não foi esse o único episódio antes da decisão, longe disso. Um dos que ficou na história foi a de uma banda de música local que decidiu ir ensaiar para a porta da frente do hotel em Santa Lucia onde a Argentina estava hospedada. Luis Monti, um dos principais destaques da Albiceleste, recebeu também uma carta com ameaças de morte.

  • 13 de julho (fase de grupos): França-México, 4-1 e EUA-Bélgica, 3-0
  • 14 de julho (fase de grupos): Jugoslávia-Brasil, 2-1 e Roménia-Peru, 3-1
  • 15 de julho (fase de grupos): Argentina-França, 1-0
  • 16 de julho (fase de grupos): Chile-México, 3-0
  • 17 de julho (fase de grupos): Jugoslávia-Bolívia, 4-0 e EUA-Paraguai, 3-0
  • 18 de julho (fase de grupos): Uruguai-Peru, 1-0
  • 19 de julho (fase de grupos): Chile-França, 1-0 e Argentina-México, 6-3
  • 20 de julho (fase de grupos): Brasil-Bolívia, 4-0 e Paraguai-Bélgica, 1-0
  • 21 de julho (fase de grupos): Uruguai-Roménia, 3-1
  • 22 de julho (fase de grupos): Argentina-Chile, 3-1
  • 26 de julho (meias-finais): Argentina-EUA, 6-1
  • 27 de julho (meias-finais): Uruguai-Jugoslávia, 6-1
  • 30 de julho (final): Uruguai-Argentina, 4-2


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