Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
APRESENTAÇÃO
Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, numa espetacular operação militar comandada pelo governo dos Estados Unidos da América, o presidente de facto (não eleito) da República Bolivariana da Venezuela, o Sr. Nicolás Maduro Moros, foi literalmente extraído do complexo militar Fuerte Tiuna, onde ele e a sua mulher, a Sra. Cilia Flores, se encontravam sob custódia de um batalhão de seguranças cubanos. Segundo fontes oficiais, terão sido provocadas por esta operação, ao todo, cerca de 100 mortes do lado venezuelano. Não se sabe ao certo o número de feridos. Já entre as forças de intervenção americanas, não se relatam nem mortos nem feridos. Maduro e a sua mulher foram posteriormente levados para uma prisão em Brooklyn, Nova Iorque, onde aguardam julgamento por acusações de narcotráfico e outros crimes.
Com o nome Operation Absolute Resolve (Operação Firmeza Absoluta), a intervenção militar contava com um dispositivo de suporte estacionado no mar das Caraíbas desde outubro-novembro de 2025, parte de uma campanha destinada ao combate do nar- cotráfico no continente americano. Esta campanha, batizada com o nome de South Spear (Lança do Sul), reunia todos os meios necessários para apoiar uma operação de tal natureza, além das inúmeras bases militares a curta distância, o maior e mais letal porta-aviões do mundo — o USS Gerald R. Ford —, aviões, caças F-35 e caças-bombardeiros, entre outros.
Esta ação deixou evidente o enorme poderio militar da super-potência que são os Estados Unidos da América. Num contexto de uma sociedade internacional «anárquica e desordenada», ou seja, desprovida de uma autoridade capaz de impor a ordem, os agentes com suficiente capacidade militar ou hard power podem violar as regras de Direito Internacional e executar os seus planos e estratégias unilateral e impunemente. Não consideramos aqui as sanções económicas e comerciais americanas e europeias impostas à Rússia por causa da invasão à Ucrânia, sem efeitos consideráveis — à luz das expectativas de americanos e europeus — no decorrer de um conflito que evoluiu para uma guerra entre os dois países e que dura há já quatro anos. Sem Maduro na Casa Amarela (a casa presidencial) e com a Sra. Delcy Rodríguez (a sua ministra do Petróleo) encarregada pela Administração Trump de gerir o day after, a história da Venezuela ficou em suspenso.
Mas como chegámos aqui? Queremos, neste livro, apresentar uma história mais ilustrativa do que exaustiva. Trata-se de uma narrativa (marcada, certamente, pela minha visão) sobre um país que nasceu no tempo das independências latino-americanas, no século XIX, transitou de regimes de férrea ditadura militar para a democracia e, a partir de finais do século passado, encaminhou-se novamente para um regime considerado autoritário e populista, sustentado por uma «ideologia» — a Revolução Bolivariana do século XXI, iniciada por Hugo Chávez Frías e (des)continuada por Nicolás Maduro.
Como veremos ao longo dos capítulos que integram esta obra, a história da Venezuela ficou profundamente marcada por um acontecimento: a descoberta do petróleo, que pôs o país no mapa dos principais produtores e exportadores do mundo no século XX.
A Venezuela passou a contar com um recurso estratégico que lhe permitiu desempenhar papéis diversos, alguns de significativa importância, no cenário internacional. Mas permitiu-lhe, antes de mais, acelerar a sua transição para a democracia e para a modernidade. Ainda hoje, o país posiciona-se no mercado como o território com as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo.
A cultura venezuelana será aqui apresentada como resultado de um processo determinado pelos vários ciclos económicos, a comercialização do couro, do cacau, do café e, finalmente, do petróleo. Para alguns autores, o desenraizamento fez desta uma «terra de passagem». Os muitos portugueses que por lá passaram não constituem uma exceção — o desejo de voltar a Portugal nunca desapareceu e foi um poderoso incentivo a continuarem a trabalhar na Venezuela.
Entre 1958 e 1999, o binómio democracia-petróleo pôde garantir aos venezuelanos poder real e moral, mas os constantes ataques à democracia e a descida dos preços da commodity, na década de 1980, conduziram o país rumo ao descalabro. O endividamento, a inflação, a constante desvalorização da moeda nacional — el bolívar —, entre outros graves problemas económicos, geraram um enorme descontentamento da população, facilitando a chegada ao poder do tenente-coronel Hugo Chávez, em finais de 1990.
Chávez chegou com um projeto novo e «potencialmente revolucionário» a nível político, social, económico e cultural. Logo após a sua morte, o seu sucessor, Nicolás Maduro, tentou — pelo menos no discurso — continuá-lo, sem grande sucesso. A queda da produção de petróleo por desinvestimento, a fuga de capitais estrangeiros, a má administração dos recursos, cada vez mais escassos, e as sanções, sobretudo a partir de 2019, levaram à perda de popularidade do presidente e o isolamento internacional. Esta conjuntura empurrou o país para uma crise política, social e económica sem precedentes, com dimensões humanitárias que se refletem na saída (ou fuga acelerada) de mais de 8 milhões de pessoas. O sentimento de desenraizamento, que se arrasta desde os primeiros anos da República, parece ter facilitado a saída destas para destinos mais seguros, que aparentemente ofereciam um futuro melhor. Entre eles, Portugal.
Foi na Venezuela, numa cidade com temperaturas que oscilam entre 21 e 33ºC, erguida à volta de um enclave petrolífero
e chamada El Tigre, no Estado Anzoátegui, que nasci. Filha de portugueses — madeirenses, oriundos da Ribeira Brava no lado paterno e da ilha do Porto Santo no lado materno —, fiz o percurso contrário ao dos meus pais. Cheguei a Portugal no início dos anos 1990 e tenho-me dedicado, desde então, à vida académica. Primeiro, a estudar, depois, a dar aulas e a investigar sobre o meu interesse, os assuntos ibero-americanos. Sou testemunha da boa receção que os venezuelanos deram aos portugueses e de como estes se integraram na sociedade caribenha. Sou testemunha dos tempos de «bonança», quando o «Estado mágico» parecia tirar do chapéu tudo o que os venezuelanos desejavam. Mas sou também testemunha da explosão social que ficou conhecida como Caracazo. Eu estava lá.
Em Portugal, «de longe», tenho observado «de perto», com um interesse pessoal, mas também científico, os desenvolvimentos que, nos âmbitos da política, da economia, e da cultura sucedem no meu país natal, mas também o tema das migrações e das relações que vinculam a Venezuela a Portugal, ou vice-versa. Convinha chamá-lo «olhar luso-venezuelano», um olhar sem complexos, sensível e esperançoso.
As minhas fontes reúnem diversos autores. Muitos deles foram, na década de 1980, meus professores na Escola de Estudos Internacionais da Universidade Central da Venezuela. A todos eles gostava de deixar aqui uma pequena homenagem. Reúno também breves textos e reflexões publicados por mim ao longo de todos estes anos.
___
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Crédito: Link de origem