Venezuela: quando a dor também é nossa — DNOTICIAS.PT

Há tragédias que mesmo acontecendo a tanta distância de nós, acompanhamos como se fosse aqui ao lado. A dos sismos na Venezuela é uma delas. Para os madeirenses, a Venezuela não é apenas um país. É a sua casa, a sua terra, a sua memória, a sua vida.

Também por isso escrevo com uma dor que também é pessoal. Perdemos quem conhecíamos e temos estima, perdemos familiares da minha esposa, que tendo nascido naquele país irmão, tem sofrido particularmente com esta catástrofe. Independentemente das perdas pessoais de cada um, sei que todos nós estamos a viver um luto coletivo.

Nestes momentos de tragédia e de pesar, louvo a bondade humana e a solidariedade de tanta gente anónima. Mas a solidariedade não pode ficar presa à emoção dos primeiros dias. Não podemos comover-nos agora e esquecer depois. Portugal, a Madeira e os governos, nacional e regional, têm obrigação de agir de forma articulada, rápida e concreta.

É preciso reforçar o apoio consular, com equipas capazes de responder à urgência de quem perdeu documentos, precisa de orientação ou, infelizmente, tem de tratar dos processos de óbito. É necessário enviar ajuda médica e humanitária, incluindo equipas de emergência hospitalar, material clínico e, se for preciso, hospitais de campanha. Deve ser reforçada a rede médica portuguesa existente na Venezuela e integrar apoio psicológico, porque há feridas que não se vêem, mas ficam.

É igualmente importante criar centros temporários de acolhimento, incluindo, por exemplo, o recurso a unidades hoteleiras de portugueses na Venezuela, que possam servir de alojamento de emergência e pontos de apoio médico e social. E devem existir linhas de apoio e crédito para quem perdeu o seu negócio e quer permanecer na Venezuela, reconstruir a vida e continuar.

Há também quem possa querer regressar à Madeira. Essa resposta deve existir, com voos de repatriamento sempre que se justifique, reforço das equipas consulares para regularização documental e um plano de acolhimento e integração na Região.

E quando oiço vozes que se levantam a criticar a mão amiga que se deve dar aos nossos compatriotas, só pergunto isto: se vos acontecesse ficar absolutamente sem nada, era essa a atitude que gostavam que tivessem convosco?

E digo mais, os madeirenses e luso-descendentes que regressem da Venezuela não vêm à procura de esmola, nem de subsídios. Não regressam para viver à custa de ninguém. Regressam porque são portugueses, atravessam um momento extremo e têm direito a proteção, dignidade e oportunidade.

A Madeira sabe bem o valor de quem veio da Venezuela. Muitos dos que regressaram ao longo dos anos ajudaram a transformar a Região. Criaram negócios, geraram emprego, pagam impostos e trouxeram uma cultura de trabalho própria dos emigrantes: levantar cedo, arriscar, poupar, investir, recomeçar e nunca baixar os braços.

Trouxeram também muito mais do que economia. Trouxeram sabores que hoje fazem parte da nossa vida: arepas, cachapas, tequeños, empanadas, hallacas, pabellón criollo. Trouxeram música, convívio, alegria latina, outra forma de celebrar, de receber e de viver a família. Trouxeram cultura, mistura, abertura ao mundo. E a Madeira ficou mais rica com isso.

A comunidade madeirense na Venezuela nunca virou costas à Madeira. Durante décadas, ajudou famílias, apoiou instituições, manteve tradições e levou o nome da nossa terra com orgulho. Agora, é a nossa vez de não virar costas.

Que Portugal e a Madeira, e todos nós, estejamos à altura deste momento. Com humanidade, organização e sentido de responsabilidade. Porque nenhum dos nossos deve sentir-se esquecido quando mais precisa de nós.


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