Venezuela pode voltar à democracia, avalia The Economist

A revista britânica The Economist avalia que a Venezuela pode retomar a democracia no país depois da queda de Nicolás Maduro. Em editorial publicado nesta quarta-feira, 12, a publicação atribui parte dessa possibilidade à atuação do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio.

Segundo a revista, Rubio tem ampla autonomia para conduzir a política norte-americana em relação à Venezuela e vem usando a influência de Washington para pressionar por uma transição democrática.

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A avaliação sobre o secretário de Estado contrasta com a descrição feita pela The Economist do posicionamento do presidente Donald Trump. De acordo com a publicação, depois de enviar forças especiais norte-americanas para capturar Maduro, em janeiro, Trump concentrou suas declarações no controle das reservas de petróleo venezuelanas e demonstrou pouco interesse público pelo futuro político do país.

Na ocasião, Delcy Rodríguez, vice de Maduro, assumiu interinamente a Presidência. Para a revista, a permanência de integrantes do antigo regime no poder alimentou o temor de que a estrutura política construída durante a ditadura continuasse funcionando mesmo depois da retirada de Maduro.

O cenário, segundo o editorial, começou a mudar com a participação direta de Rubio nas negociações entre integrantes do regime e representantes da oposição.

Negociações na Venezuela

A primeira rodada de conversas terminou em 12 de agosto com um acordo para começar um processo de reforma do Judiciário venezuelano, inclusive da Suprema Corte. A The Economist considera o resultado limitado, mas afirma que novas rodadas de negociação podem produzir, até dezembro, mudanças capazes de abrir caminho para eleições consideradas livres e justas.

A revista sustenta que a pressão dos EUA foi decisiva para que as conversas avançassem.

Rubio participou diretamente da articulação e manteve contato com Dinorah Figuera, uma das principais negociadoras da oposição. Segundo a The Economist, integrantes da equipe ligada às negociações circulam por Caracas em veículos norte-americanos, contam com segurança dos EUA e ficam hospedados em um hotel escolhido pelo governo norte-americano.

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A publicação afirma que a maioria dos venezuelanos deseja uma transição democrática depois dos anos de repressão política e deterioração econômica sob Maduro.

Uma mudança de regime, acrescenta o editorial, também poderia favorecer os planos de Trump para recuperar a produção de petróleo venezuelana. Na avaliação da revista, empresas só teriam segurança para fazer os investimentos necessários na infraestrutura petrolífera do país diante de estabilidade institucional, Estado de Direito e um governo democrático.

The Economist defende eleições em 2027

Apesar do avanço das negociações, a revista aponta obstáculos para a transição. Um deles é o histórico do regime venezuelano de descumprimento de compromissos relacionados à realização de eleições livres.

Há ainda o risco de que a proximidade da oposição com Washington seja usada pelo regime para classificá-la como subordinada aos interesses dos EUA.

A The Economist também critica a falta de transparência sobre os recursos obtidos com o petróleo venezuelano sob controle norte-americano. Segundo o editorial, a população ainda não percebeu benefícios significativos provenientes dessas receitas.

Para a publicação, prolongar as negociações aumentaria as possibilidades de o regime recuar dos compromissos assumidos e, ao mesmo tempo, poderia enfraquecer a oposição.

Por isso, o jornal argumenta que Washington deveria pressionar pela realização de uma eleição presidencial em 2027. Como parâmetro, cita países do antigo bloco soviético que conseguiram organizar eleições livres em menos de um ano depois da queda do Muro de Berlim.

O editorial também cobra do governo norte-americano a divulgação dos valores arrecadados com o petróleo venezuelano, do montante devolvido ao país e das sanções que ainda impedem o desembolso de recursos. Caso um novo governo seja eleito, sustenta a publicação, o controle integral das receitas petrolíferas deveria ser transferido a ele desde o início do mandato.

O papel de María Corina Machado

Outro ponto defendido pela The Economist é o retorno de María Corina Machado à Venezuela.

A líder da oposição permanece fora do país e, segundo a revista, Rubio pode considerar sua ausência da mesa de negociações útil para facilitar as conversas com integrantes do regime. Mas o editorial considera que mantê-la afastada seria uma estratégia de curto prazo.

A publicação argumenta que qualquer acordo precisa envolver María Corina, ainda que por intermédio de representantes, porque ela poderá ter papel central em um futuro governo. Sem sua participação, haveria o risco de que os termos negociados fossem posteriormente rejeitados por ela.

Entre as possíveis condições de um acordo está a concessão de saída segura do país para integrantes do antigo regime. María Corina, conforme registra a revista, afirma que não pretende buscar vingança contra adversários políticos.

O retorno da opositora também é apresentado pela The Economist como uma proteção contra eventuais mudanças de posição de Trump. A revista lembra que o presidente norte-americano já falou sobre transformar a Venezuela no 51º Estado dos Estados Unidos e fez declarações que sugerem que a riqueza petrolífera venezuelana pertenceria aos norte-americanos.

Por enquanto, segundo o editorial, Trump permite que Rubio conduza a estratégia voltada para uma transição política. Caso o presidente mude de posição, a The Economist avalia que a capacidade de María Corina de mobilizar venezuelanos nas ruas poderá se tornar decisiva para o futuro da democracia no país.

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