Trump tinha razão? Seis meses após a queda de Maduro, Venezuela regista recuperação económica, mas transição política continua incerta
Seis meses após a captura do antigo presidente Nicolás Maduro e a mudança de poder na Venezuela, o país apresenta sinais de recuperação económica e de maior abertura ao investimento internacional, contrariando muitas das previsões que apontavam para um cenário de caos e instabilidade. Ainda assim, a consolidação democrática permanece longe de estar garantida e a reconstrução do Estado continua a enfrentar desafios significativos, sobretudo após os sismos devastadores que atingiram o país em junho. Segundo uma análise publicada pela Newsweek, a evolução da Venezuela tem alimentado um intenso debate sobre os efeitos da estratégia adotada pelos Estados Unidos e sobre a capacidade do país para combinar recuperação económica com uma verdadeira transição política.
A análise refere que, antes mesmo dos sismos, começaram a surgir indicadores considerados positivos. Entre eles destacam-se a redução da repressão política, a libertação de centenas de presos políticos, o regresso de dirigentes da oposição ao país e a retoma de atividades públicas por partidos políticos que durante anos enfrentaram fortes limitações. A oposição venezuelana reconhece que a repressão não desapareceu totalmente, mas considera que diminuiu de forma significativa em comparação com o período anterior.
Paralelamente, empresas internacionais voltaram a demonstrar interesse pelo mercado venezuelano, sobretudo nos setores energético, mineiro, tecnológico, financeiro e turístico. A análise destaca que investidores norte-americanos regressaram ao país e que várias empresas iniciaram ou retomaram projetos, apoiadas por um novo enquadramento legal para o setor dos hidrocarbonetos, que abriu espaço a uma maior participação privada e reduziu o papel monopolista da petrolífera estatal PDVSA.
Segundo a mesma análise, a produção petrolífera voltou a crescer nos primeiros meses do ano, enquanto as exportações de crude atingiram os níveis mais elevados dos últimos sete anos. As autoridades norte-americanas apontam estes dados como uma demonstração de que a estratégia seguida está a produzir resultados, embora reconheçam que persistem importantes obstáculos económicos.
Sismos colocaram à prova o novo contexto político
A evolução da Venezuela sofreu um forte revés com os dois sismos registados a 24 de junho, que provocaram milhares de mortos, dezenas de milhares de edifícios danificados e destruição de infraestruturas essenciais, incluindo redes elétricas, abastecimento de água e sistemas de saneamento.
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Especialistas citados na análise estimam que os custos da reconstrução poderão situar-se entre 12 e 20 mil milhões de dólares, um valor muito superior à capacidade financeira do Estado venezuelano. Ainda assim, economistas defendem que o impacto económico de uma catástrofe natural depende menos da dimensão dos danos e mais da capacidade institucional para gerir a reconstrução e manter os principais setores produtivos em funcionamento.
Segundo a Newsweek, a resposta internacional foi liderada pelos Estados Unidos, que mobilizaram centenas de operacionais de emergência, meios militares e ajuda humanitária destinada às regiões mais afetadas. Dados citados na análise indicam que Washington já disponibilizou mais de 386 milhões de dólares em apoio, incluindo centenas de toneladas de bens essenciais, tornando-se, de longe, o maior contribuinte internacional para as operações de socorro.
Investidores mantêm confiança no potencial da Venezuela
Apesar da destruição provocada pelos sismos, a análise refere que muitos investidores não alteraram os seus planos. O facto de as principais regiões produtoras de petróleo, como a Faixa do Orinoco e a Bacia de Maracaibo, não terem sofrido danos significativos permitiu preservar o principal motor económico do país.
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Vários investidores entrevistados pela publicação defendem que a necessidade de reconstrução poderá, inclusivamente, acelerar novos investimentos em infraestruturas, energia, telecomunicações, logística e tecnologia. O setor tecnológico surge igualmente como uma das áreas com maior potencial de crescimento, numa economia onde a utilização do dólar continua amplamente disseminada e a maioria das transações já é efetuada por via digital.
Ao mesmo tempo, o Governo interino avançou com reformas destinadas a atrair investimento estrangeiro, incluindo alterações profundas ao regime jurídico do setor petrolífero, permitindo maior participação privada na exploração, produção, refinação, comercialização e exportação de hidrocarbonetos.
Confiança nos Estados Unidos aumenta após ajuda humanitária
A análise destaca igualmente uma mudança na perceção de parte da população relativamente aos Estados Unidos. Sondagens referidas pela publicação indicam que a confiança dos venezuelanos em Washington aumentou significativamente, tendência reforçada pela operação de assistência humanitária desencadeada após os sismos.
Segundo os dados apresentados, três quartos dos inquiridos afirmaram confiar nos Estados Unidos para apoiar a gestão da crise e da reconstrução, superando claramente os níveis de confiança atribuídos à União Europeia, às Nações Unidas ou à China.
Ao mesmo tempo, indicadores recolhidos antes da catástrofe já mostravam níveis elevados de apoio ao investimento estrangeiro e às empresas internacionais, refletindo uma mudança significativa face ao sentimento antiamericano que marcou parte da era de Hugo Chávez.
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Recuperação económica não significa transição democrática
Apesar dos sinais positivos na economia, a análise da Newsweek sublinha que continua por resolver a questão central da democratização do país. Vários analistas e representantes da oposição consideram que a abertura económica não foi acompanhada por uma transformação equivalente das instituições políticas.
A oposição continua a defender eleições livres, a criação de um novo parlamento legitimado pelo voto e a libertação de todos os presos políticos, argumentando que uma verdadeira mudança estrutural exige reformas institucionais profundas.
A própria administração norte-americana mantém oficialmente como objetivo uma transição democrática, embora reconheça a necessidade de estabilizar primeiro o país e promover a recuperação económica.
Segundo os especialistas ouvidos pela publicação, a Venezuela vive atualmente uma realidade paradoxal: a economia mostra sinais de recuperação e de maior abertura ao exterior, mas a consolidação democrática permanece incompleta.
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