A assinatura de um rascunho de acordo de paz entre Estados Unidos e Irã produziu um dos movimentos mais relevantes do ano nos mercados globais ontem, desde o começo da guerra no Oriente Médio. Em poucas horas, o petróleo registrou forte queda e atingiu o menor nível em mais de três meses, com a cotação despencando para US$ 83,17, queda de 5%, refletindo a retirada de parte significativa do prêmio de risco que vinha sendo embutido nas cotações desde a escalada das tensões no Oriente Médio.
O recuo da commodity foi interpretado pelos investidores como um sinal de redução do risco de interrupções no fornecimento mundial de energia e de maior segurança para a navegação no Estreito de Ormuz, corredor estratégico por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no planeta. O resultado foi imediato: além da queda do petróleo, bolsas avançaram, moedas de países emergentes ganharam força e as projeções para inflação e juros começaram a ser revisadas.
Mais do que um evento geopolítico, o acordo tem potencial para provocar efeitos econômicos relevantes em escala global. Isso porque o petróleo ocupa posição central na formação dos preços de praticamente todas as economias. Combustíveis, transporte, logística, fertilizantes, petroquímicos, geração de energia e produção industrial são diretamente impactados pelas oscilações da commodity.
Quando o barril sobe, os custos se espalham pela economia, pressionando a inflação e reduzindo o poder de compra de famílias e empresas. Quando ocorre o movimento inverso, como o observado após o entendimento entre Washington e Teerã, abre-se espaço para uma desaceleração dos índices de preços.
Essa perspectiva é especialmente importante em um momento em que os principais bancos centrais do mundo tentam consolidar o processo de desinflação iniciado nos últimos trimestres. Nos Estados Unidos, a queda do petróleo reduz um dos fatores de pressão sobre o índice de preços ao consumidor e pode contribuir para que o Federal Reserve mantenha a trajetória de flexibilização monetária nos próximos meses. A alta dos preços tem sido um fato de forte desaprovação do governo de Donald Trump.
Na Europa, onde muitas economias continuam altamente dependentes da importação de energia, o impacto tende a ser ainda mais significativo. Custos menores para indústrias e transportadoras podem contribuir para melhorar a competitividade das empresas e favorecer uma retomada mais consistente do crescimento econômico.
Para os mercados emergentes, os benefícios são amplificados. Países importadores de energia ganham fôlego fiscal e cambial, enquanto economias exportadoras, como o Brasil, passam a se beneficiar do efeito indireto sobre a inflação doméstica, mesmo com uma eventual redução das receitas geradas pela commodity.
No caso brasileiro, a queda do petróleo chega em um momento particularmente relevante para a condução da política monetária. O Banco Central vinha monitorando com atenção os efeitos que uma eventual escalada militar no Oriente Médio poderia produzir sobre os combustíveis e sobre as expectativas de inflação. A assinatura do acordo elimina parte desse risco e melhora o cenário para os próximos meses.
Combustíveis mais baratos tendem a reduzir custos de transporte de cargas, logística e produção industrial. O efeito alcança desde alimentos até bens manufaturados, contribuindo para conter a inflação ao consumidor. Além disso, a redução das pressões inflacionárias ajuda a estabilizar as expectativas dos agentes econômicos, um dos principais indicadores acompanhados pelo Comitê de Política Monetária (Copom).
A mudança de cenário já começa a aparecer nas avaliações de bancos e consultorias. Antes do acordo, parte do mercado temia que um petróleo persistentemente elevado pudesse limitar ou até interromper o ciclo de redução dos juros no Brasil. Com o recuo da commodity, as apostas voltaram a convergir para um novo corte da Selic na reunião desta quarta-feira (17).
A expectativa predominante entre economistas é de uma redução de 0,25 ponto percentual, levando a taxa básica dos atuais 14,5% para 14,25% ao ano. Embora o movimento seja modesto, ele seria interpretado como um sinal importante de continuidade do processo de flexibilização monetária iniciado pelo Banco Central.
Relatórios de instituições financeiras mostram que essa visão vem ganhando força. O Bank of America e a Genial Investimentos trabalham com uma taxa terminal próxima de 14,25%. XP Investimentos, Banco Pine e BNP Paribas projetam uma Selic ao redor de 14% ao final do ciclo. O Itaú apresenta uma visão ainda mais otimista, estimando que os juros possam encerrar o período de flexibilização entre 13,5% e 13,75%.
As projeções refletem a percepção de que a inflação brasileira poderá desacelerar mais rapidamente caso o petróleo permaneça em níveis mais baixos ao longo do segundo semestre. Como energia e combustíveis possuem impacto direto e indireto sobre praticamente todos os componentes dos índices de preços, a redução da commodity tende a melhorar as perspectivas inflacionárias de curto e médio prazo.
Outro efeito relevante está no mercado cambial. Em momentos de conflito geopolítico, investidores costumam buscar proteção em ativos considerados mais seguros, como títulos do Tesouro americano e dólar. Com a redução das tensões no Oriente Médio, parte desse fluxo tende a retornar para economias emergentes, favorecendo moedas como o real.
Uma moeda brasileira mais valorizada ou estável contribui para reduzir os preços de produtos importados e diminui pressões sobre insumos industriais cotados em dólar. Esse processo reforça o trabalho de combate à inflação realizado pelo Banco Central e amplia o espaço para cortes adicionais dos juros.
Para empresas, a combinação de petróleo mais barato, inflação menor e juros em trajetória de queda cria condições mais favoráveis para investimentos e expansão da atividade econômica. O custo do crédito tende a diminuir gradualmente, estimulando financiamentos, projetos produtivos e consumo das famílias.
Ainda assim, analistas alertam que o cenário permanece sujeito a riscos. A efetividade do acordo dependerá do cumprimento dos compromissos assumidos por ambos os países e da estabilidade política na região. Qualquer ruptura nas negociações ou novo episódio de instabilidade pode provocar uma rápida reversão dos preços do petróleo e reacender preocupações inflacionárias.
Por enquanto, entretanto, a leitura predominante dos mercados é positiva. O entendimento entre Estados Unidos e Irã não apenas reduz uma das principais fontes de tensão geopolítica do planeta, como também cria condições para um ambiente econômico mais benigno. Em um mundo que passou os últimos anos convivendo com choques de oferta, inflação elevada e juros historicamente altos, a queda do petróleo surge como um fator capaz de aliviar pressões sobre consumidores, empresas e governos.
Para o Brasil, os efeitos podem ser ainda mais relevantes. Se a trajetória de queda da commodity se mantiver, o acordo firmado no Oriente Médio poderá acabar influenciando diretamente uma decisão tomada a milhares de quilômetros dali, na sede do Banco Central, em Brasília. E, nesse caso, a paz entre duas nações poderá se transformar em um dos principais argumentos para a continuidade da redução dos juros brasileiros ao longo do segundo semestre.
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