A crise da indústria automóvel continua a travar a fundo. A pressão dos fabricantes chineses, a corrida ao carro elétrico, o aumento dos custos de produção e uma procura cada vez mais incerta fazem com que um dos setores mais importantes da economia europeia enfrente uma das maiores crises das últimas décadas. E Portugal não fica alheio.
A Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA) prevê que mais de mil postos de trabalho possam estar em risco nos próximos três anos. Ao SOL, o presidente da associação já tinha admitido que o setor estava a enfrentar uma «forte pressão» em matéria de custos, competitividade, transição tecnológica e procura, chamando a atenção para o facto de a indústria portuguesa de componentes automóveis ser, em grande medida, uma indústria de subcontratação, fortemente integrada nas cadeias de valor internacionais. Isso significa que, «se os clientes enfrentarem dificuldades, poderão existir efeitos indiretos sobre encomendas, volumes de produção e planeamento industrial». E acrescenta: «É, por isso, imprescindível acompanhar estes desenvolvimentos com atenção e reforçar produtividade, inovação, qualificação, capacidade competitiva e estabilidade regulatória, de forma a proteger a capacidade industrial instalada no país».
É certo que os dados não são animadores. A Volkswagen anunciou o despedimento de 19 mil trabalhadores até ao final de 2026, enfrentando uma crise estrutural que pode levar ao encerramento de até quatro fábricas. Uma crise em que, para já, a fábrica de Palmela tem sido poupada.
No entanto, a situação da Volkswagen está longe de ser um caso isolado. A BMW tem em cima da mesa a saída voluntária de 40 mil trabalhadores na Alemanha, quase metade do total, e até ao próximo ano quer eliminar cerca de oito mil postos de trabalho. Também a Porsche prevê cortar cinco mil postos de trabalho até 2035, através de reformas e rescisões amigáveis.
Nos últimos dois anos, praticamente todos os grandes fabricantes anunciaram programas de contenção. A Nissan reduziu produção e empregos em várias zonas. A Ford acelerou o encerramento de linhas de montagem e milhares de postos de trabalho na Europa. A Stellantis prossegue uma política de racionalização industrial, enquanto marcas como a Mercedes-Benz têm levado a cabo programas de eficiência para reduzir custos e adaptar-se à transição elétrica. Em paralelo, fabricantes de componentes como Bosch, ZF, Continental, Schaeffler e Valeo anunciaram também milhares de despedimentos, refletindo a quebra de encomendas da indústria automóvel europeia.
Exportações abrandam mas mantêm peso
De acordo com os últimos dados do setor, até abril, as exportações portuguesas de componentes automóveis atingiram os 4.016 milhões de euros, uma queda de 6,4% relativamente ao mesmo período de 2025. E só no mês de abril as exportações situaram-se nos 1.033 milhões de euros, registando uma ligeira variação negativa de 0,4% em termos homólogos. Ainda assim, a AFIA chama a atenção para o facto de que, apesar do contexto de abrandamento, os fabricantes da indústria automóvel continuam a ter um peso expressivo na economia exportadora portuguesa, representando 14,8% das exportações nacionais de bens transacionáveis.
A Europa continua a ser o principal destino das exportações nacionais do setor, concentrando 88,4% das vendas externas de componentes automóveis, no acumulado até abril, as exportações para a Europa diminuíram 6,5%, enquanto as vendas para África e Médio Oriente aumentaram 13,3%. Em relação aos Estados Unidos da América, as exportações recuaram 22,0% e as destinadas à Ásia e Oceânia diminuíram 4,3% entre janeiro e abril.
Espanha mantém-se como o principal destino, com uma quota de 27,9%, seguindo-se a Alemanha, com 22,2%, e a França, com 9,6%. No entanto, as vendas para o mercado espanhol diminuíram 10% e para a Alemanha 4%, enquanto França registou uma evolução positiva de 4,5%.
Por seu lado, entre os mercados com crescimento destacam-se ainda Polónia (+17,4%), Países Baixos (+12,7%), Itália (+12,1%) e Marrocos (+7,2%). Já as exportações para os Estados Unidos da América recuaram 27,9%. «Importa referir que os clientes das empresas portuguesas reduziram a sua atividade, o que se repercute de imediato nas encomendas e contribui para o abrandamento da atividade», diz a associação, que também refere que «isso não pode constituir razão para não continuar o processo de modernização e de qualificação competitiva».
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