Trap de Matuê, afrobeat de Rema e rap britânico sem alma: o adeus do Rock in Rio foi um caldo de culturas
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A verdadeira essência de um festival também se revela em dias como este. Quem marcou presença no último dia do Rock in Rio Lisboa assistiu a um caldo de culturas, onde o trap brasileiro, o afrobeat, o rap britânico e a música portuguesa se cruzaram numa despedida marcada pela diversidade.
O Palco Mundo abriu com Matuê. O artista brasileiro, que no ano passado se tornou o primeiro nome do género a esgotar o MEO Arena, subiu ao palco com a estética que já vinha a antecipar nas redes sociais: pala no olho direito e um visual gótico.
O cenário contrastou com o da noite anterior liderada por Rod Stewart e Cyndi Lauper. O balanço gentil de um lado para o outro deu lugar aos saltos, às mãos no ar e a um mar de smartphones apontados ao palco. No final de cada música do rapper brasileiro, o som de uma arma a ser carregada e disparada servia de transição para o tema seguinte, enquanto o público respondia com entusiasmo, sempre pronto para continuar a festa.
No Palco Super Bock, a música portuguesa fez-se ouvir logo no início da tarde. Primeiro, os Karetus e mais tarde, Valete. O rapper apresentou-se como representante do “verdadeiro hip hop português”, acompanhado pela banda Jazz Swingers e por uma frase que resumia o intuito do espetáculo: “o jazz é a memória do futuro”. O concerto revisitou clássicos como “Roleta Russa” e “Fim da Ditadura”, reinterpretados com arranjos que dão a conhecer este novo trabalho de Valete, que mistura jazz e hip hop e pretende levar o público aos anos 20 em Nova Orleães.
Entre temas, Valete deixou também uma mensagem à plateia. “O medo é inimigo do homem”, afirmou, mostrando confiança numa nova geração que espera ver crescer com espírito crítico e de rebeldia.
De regresso ao Palco Mundo, chegou a vez de Rema. “Rema representa o afrobeat”, anunciou logo no início da atuação, deixando claro o objetivo do anoitecer: “Quando isto começa, deixa de ser um festival ou um concerto. É uma festa do Rema.”
O convite era simples: “Não precisam de saber as letras. Estamos aqui pelas vibes.”
As músicas do artista nigeriano encaixaram na perfeição com o pôr do sol e a bebida fresca no copo. Como seria de esperar, foi ao som de “Calm Down” que mais braços e telemóveis se ergueram.
O piloto automático dos rappers britânicos e a energia do palco Super Bock
Um mar de ecrãs voltou a iluminar o recinto quando Central Cee entrou pela primeira vez num palco português. O rapper britânico abriu com “Doja”, tema que se tornou viral no TikTok. Com pouca interação e uma presença monótona, o artista conseguiu manter o público consigo, se calhar porque já o tinha antes e a estreia satisfatória apenas o manteve ali.
No Palco Super Bock, os últimos concertos ficaram a cargo de Lola Índigo e CeeLo Green. A cantora e bailarina espanhola e o autor de “Forget You” conquistaram o público com um espetáculo marcado pela energia contagiante que rapidamente se espalhou pelo recinto.
O encerramento do festival ficou reservado para 21 Savage, mas a atuação começou com um contratempo. O rapper atrasou-se cerca de 20 minutos e foi o seu DJ quem assumiu o comando do palco.
Enquanto esperava, o público ouviu temas de Travis Scott, Drake, Backstreet Boys e quando parecia já não haver escolha foi a músicas dos jogadores da Seleção Nacional. Ouviu-se entre as pessoas: “Então, o 21 não vem?”.
Quando finalmente entrou em palco, 21 Savage, nome artístico de Shéyaa Bin Abraham-Joseph, apareceu impercetível e nunca conseguiu recuperar o entusiasmo. A presença física estava lá, mas a alma ficou nos bastidores. À medida que o concerto avançava, várias pessoas começaram a abandonar o recinto. O ambiente fez lembrar aquele momento no fim de uma noite na discoteca, quando a bateria social acaba, a música não ajuda e o único desejo é saber o caminho mais rápido para chegar a casa.
Fim de espetáculo, fecham-se as cortinas e o Rock in Rio Lisboa faz as contas: mais de 300 mil festivaleiros passaram pelo recinto ao longo dos dois fins de semana.
Na conferência de imprensa de encerramento, Roberta Medina, empresária responsável pelo Rock in Rio, sublinhou a ambição de atrair ainda mais público estrangeiro nas próximas edições, destacando o impacto do festival na restauração, nos transportes e na hotelaria da cidade de Lisboa.
O próximo encontro entre o Rock in Rio e os festivaleiros portugueses já tem data marcada: 17, 18, 24 e 25 de junho de 2028.
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