Com o petróleo venezuelano fora do mercado, a ajuda está dependente da bondade internacional. Estados Unidos, ONU e CAF (de que Portugal faz parte) são as entidades mais ativas.
epa13068189 Rescue workers from Mexico work at a collapsed building in La Guaira, Venezuela, 26 June 2026. Venezuelan Interior Minister Diosdado Cabello announced that access to La Guaira state, the area hardest hit by the earthquakes, will be restricted starting at 20:00 local time (00:00 GMT on 27 June). EPA/Ronald Pena R
Os prejuízos materiais causados pelos recentes sismos de magnitudes 7,2 e 7,5 na Venezuela estão estimados entre 6,7 mil milhões e 10 mil milhões de dólares, o que representa cerca de 7% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. A avaliação preliminar foi realizada pelas Nações Unidas com base em dados populacionais, modelos sísmicos e imagens de satélite – onde é mostrado que pelo menos 855 edifícios sofreram danos profundos – entre os quais estão 189 que, pura e simplesmente, desapareceram, colapsando totalmente. Num contexto em que – como seria de esperar – a resposta ao terrível flagelo natural é muito insuficiente, os valores associados tenderão a aumentar à medida a que o solo vai sendo limpo, acrescentando décimas de devastação àquela conta. Para mais, vão agora somar-se as crises alimentar, de medicamentos e de habitação, que vão expor ainda mais a precariedade de um país que, há quarenta anos, era o mais desenvolvido da América do Sul. Só para piorar, as autoridades já estão a alertar para os perigos da dissensão social e mesmo do banditismo e da pilhagem, que já está a acontecer e tenderá a aumentar. Recorde-se que a primeira avaliação dos danos, há uma semana, avançava que o impacto do desastre no PIB seria de 4% – ou seja, a nova avaliação de 7% registou um reporte 75% mais severo.
Quando a emergência acalmar, os venezuelanos serão, por outro lado, confrontados com o facto de a imensa maioria dos prejuízos não estarem segurados: a baixíssima penetração de seguros no mercado venezuelano implica que a grande maioria dos danos materiais não terá qualquer cobertura por parte das seguradoras. Ou seja, a população estará nas mãos de duas soluções: a mobilização de recursos financeiros internos; e a generosidade internacional.
Fora do mercado
Num país que tem uma dívida pública gigantesca (ver texto ao lado), o petróleo é a a mais importante fonte de geração de riqueza. Mas, desgraçadamente, não está nas mãos do governo: desde que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ordenou a remoção do anterior presidente, Nicolás Maduro – que permanece encerrado numa prisão norte-americana de alta segurança – que determinou uma ação tutelar sobre a produção do petróleo. Ou seja, a empresa estatal que assegura a produção, a Petróleos de Venezuela (PDVSA), não está no mercado. A sua produção está dirigida para os Estados Unidos, o que torna o país sul-americano refém daquilo que for decidido em Washington – mesmo no que tem a ver com a resposta à calamidade pública decorrente dos sismos.
Para já, os Estados Unidos preveem a mobilização de 150 milhões de dólares (dos quais 100 milhões serão geridos via fundos da ONU) para auxiliar a Venezuela. É apenas uma ‘migalha’: o custo total para a reconstrução das zonas afetadas pelos sismos está estimado entre 13 mil milhões e 20 mil milhões de dólares. Embora a ONU calcule o valor dos danos imediatos nos já referidos 6,7 mil milhões de dólares, economistas e analistas internacionais destacam, citados pelas mais diversas publicações, que o custo real de reconstrução é muito superior.
O governo liderado pela presidente interina Delcy Rodríguez anunciou a constituição de um fundo inicial de ajuda imediata da ordem dos 200 milhões de dólares, utilizando recursos disponíveis junto do Fundo Monetário Internacional. Mas mesmo a soma das duas verbas continua a ser apenas, e quando muito, ‘um bom começo’.
A esse esforço inicial veio juntar-se um outro: Christian Asinelli, vice-presidente do Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (ou CAF, Cooperação Andina de Fomento), anunciou a criação de um fundo internacional para arrecadar os recursos necessários auxiliar a reconstrução. “O objetivo deste fundo é de longo prazo. Esta não é uma situação que será resolvida da noite para o dia; serão necessários muitos anos de reconstrução”, afirmou Asinelli em entrevista ao diário Infobae – um dos maiores sites do mundo em língua espanhola, fundado na Argentina
“Muitas empresas privadas já nos contactaram para contribuir para este fundo. As doações podem ser feitas da Argentina e de qualquer outro país”, acrescentou, enfatizando que ainda levará dias, ou mesmo semanas, “para que possamos falar em reconstrução, já que a Venezuela ainda se encontra num momento crítico em que a prioridade deve ser encontrar sobreviventes”. O próprio banco transferiu para aquele fundo uma verba de um milhão de dólares. Recorde-se que Portugal é um dos membros acionistas internacionais do banco de desenvolvimento. A participação portuguesa é gerida pelo Ministério das Finanças (liderado pelo ministro Joaquim Miranda Sarmento). A adesão portuguesa deu-se em 2009 e é principalmente simbólica: representou um montante total de 75 milhões de euros (15 milhões em capital ordinário, cerca de 0,1% do capital) e 60 milhões em capital de garantia.
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