O Fundo das Nações Unidas para a Infância alerta para a fragilidade do sistema de vigilância sanitária no país, num momento em que sete casos confirmados e 46 suspeitos, muitos dos quais em crianças, marcam a primeira emergência do vírus monkeypox na Guiné-Bissau
A Unicef lançou esta semana um apelo urgente de mais de 150 mil dólares – o equivalente a cerca de 128 mil euros – para fazer face ao primeiro surto de mpox alguma vez registado na Guiné-Bissau. O pedido surge num momento em que o país lida com uma realidade sanitária particularmente frágil e com a confirmação de sete casos, todos em adultos, mas com uma sombra de suspeita que recai pesadamente sobre os mais novos.
De acordo com um comunicado da agência da ONU, o financiamento destina-se a reforçar pilares específicos e essenciais da intervenção contra a doença, embora o apelo não detalhe quais seriam esses pilares. Sabe-se, no entanto, que a prioridade passa por proteger as populações vulneráveis e evitar que o surto se alastre, sobretudo num contexto de reabertura das escolas, prevista para setembro, o que, nas palavras da representante adjunta da Unicef no país, Sandra Martins, “reforça ainda mais estas preocupações, tendo em conta o potencial aumento da transmissão entre as crianças”.
Apesar de os casos confirmados se concentrarem na capital Bissau – seis dos sete – e na vizinha região de Biombo, o universo de casos suspeitos é mais alargado e mais inquietante: 23 dos 46 casos suspeitos envolvem crianças com menos de 15 anos, sendo que 16 delas têm apenas até aos 4 anos. Esta faixa etária, como sublinha a Unicef, é particularmente suscetível a complicações graves, o que acentua a urgência de uma resposta mais robusta.
A mesma nota salienta que esta é a primeira vez que a mpox é reportada na Guiné-Bissau, o que transforma um surto ainda limitado – em números absolutos – num acontecimento de grande importância para a saúde pública. Sandra Martins, citada no comunicado, não esconde a apreensão: “o sistema de vigilância sanitária do país continua a ser extremamente frágil, havendo o risco de que alguns casos não sejam detetados, em particular entre crianças mais vulneráveis a complicações graves”.
O vírus monkeypox, conhecido por provocar febre, dores musculares e lesões cutâneas, tem uma dupla via de transmissão – de animais para humanos e entre humanos – e, embora a Organização Mundial da Saúde tenha declarado, em setembro de 2025, que a doença já não constituía uma emergência de saúde internacional, a verdade é que, em África, o cenário continua a merecer atenção. A agência de saúde da União Africana, no final de janeiro, tinha também afastado o estatuto de “emergência de saúde pública” no continente, mas o surgimento de casos numa região até agora intocada pelo vírus recoloca interrogações sobre a eficácia da vigilância e a capacidade de resposta dos sistemas locais.
A Unicef insiste na necessidade de um financiamento de emergência flexível, não apenas para travar a cadeia de contágio, mas também para evitar que a situação se agrave num país onde as infraestruturas de saúde já lidam com carências estruturais. Por ora, a comunidade internacional aguarda para ver se o apelo de 150 mil dólares será atendido, num momento em que a reabertura das escolas pode funcionar como um catalisador de novos casos.
Bibliografia: Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Comunicado sobre surto de mpox na Guiné-Bissau. Bissau, 20 de agosto de 2026.
NR/HN/Lusa
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