Seleções Imortais – Cabo Verde 2026

Última atualização em 28 de julho de 2026 às 07:05

Em pé: Vozinha, Kevin Pina, Pico, Diney, Laros Duarte e Ryan Mendes; Agachados: Jovane Cabral, Steven Moreira, Nuno da Costa, Deroy Duarte e Sidny Lopes Cabral. Foto: Xinhua/Zhang Chen

 

Grandes feitos: 32ª colocada na Copa do Mundo da FIFA de 2026 e uma das maiores sensações da história dos Mundiais.

Time-base: Vozinha; Steven Moreira, Pico, Diney e Sidny Lopes Cabral; Kevin Pina (Benchimol); Ryan Mendes (Willy Semedo), Laros Duarte (Jamiro Monteiro / Arcanjo), Deroy Duarte (Yannick Semedo) e Jovane Cabral (Hélio Varela); Nuno da Costa (Livramento). Técnico: Bubista.

 

“A Epopeia dos Tubarões Azuis”

Por Guilherme Diniz

Quando a expansão da Copa do Mundo para 48 seleções foi anunciada, muitos criticaram o excesso de equipes teoricamente fracas que iriam promover verdadeiros shows de horrores no torneio, os famosos “sacos de pancadas”. Obviamente que uma ou outra poderia entrar nessa lista e vimos no Mundial de 2026 alguns exemplos. Mas esse aumento também deu a oportunidade para seleções desconhecidas provarem seu valor. No entanto, uma dessas não tinha nenhuma perspectiva nem conhecimento do público geral. Vinha de um pequenino arquipélago no oeste africano com pouco mais de 550 mil habitantes. Qual a chance de uma seleção de um lugar tão pequeno formar um time competitivo?

E, quando saíram os sorteios dos grupos, essa seleção caiu no Grupo H, ao lado de uma das favoritas – a Espanha -, do bicampeão Uruguai e da Arábia Saudita, que em 2022 derrotou a campeã Argentina. Tínhamos o lanterna confirmado: Cabo Verde. E, logo na estreia, a equipe conhecida como Tubarões Azuis enfrentou a Espanha. Entrou em campo com jogadores que despertavam curiosidade, maravilhados com aquela novidade e um goleiro de apelido curioso: Vozinha, de 40 anos. Parecia piada pronta. O goleirão já “deveria pedir a bengala” para buscar tantas bolas dentro do gol. Pois nada disso aconteceu.

Os minutos se passaram e Cabo Verde se segurou. Vozinha mostrou suas credenciais. Era um baita de um goleiro. Frio, seguro, imponente. A tão falada Espanha chutou, chutou e não fez gol. E o 0 a 0 deu ao time africano seu primeiro ponto na história das Copas. Zebra! Na partida seguinte, muitos ainda acreditaram que eles não iriam suportar o Uruguai e sua raça. Pois suportaram. E o placar de 2 a 2 deu outro ponto aos cabo-verdianos. Na última rodada, tudo poderia acontecer no duelo contra a Arábia Saudita. Novo empate. E, com 3 pontos, eles ficaram na vice-liderança do grupo e se classificaram para a fase final. Uruguai? Eliminado!

A façanha já era histórica. Uma seleção estreante, sem nenhum jogador famoso, entre as 32 melhores do planeta. Só que o desafio seguinte era a campeã Argentina, com Lionel Messi tinindo e autor de 6 gols em apenas três jogos. Quando a bola rolou, Messi, claro, abriu o placar. Só que o time sul-americano pareceu satisfeito. Certo de que venceria quando bem entendesse. Veio o segundo tempo e Cabo Verde empatou o jogo e seguiu firme, se defendendo, mas partindo para o ataque com perigo e em transições rápidas. Na prorrogação, a Argentina fez 2 a 1, pois lá foi Cabo Verde empatar com um golaço espetacular de Sidny Lopes Cabral.

Cabo Verde resistia. Não era uma zebra. Era um time de futebol que sabia jogar na defesa e no ataque, com estratégia, sem medo, sem receio. Só que a Argentina tinha Messi. E ele cobrou um escanteio na cabeça de Romero, aos 6’, a bola bateu em um jogador cabo-verdiano e entrou, deixando os sul-americanos em vantagem novamente: 3 a 2.

Faltavam poucos minutos. E Cabo Verde ficou ali, no ataque, rondando e flertando com o empate. Ele não veio, porém, a história já estava escrita. A Argentina seguiu adiante, mas foi Cabo Verde o assunto daquele dia. E a sensação da Copa do Mundo de 2026. Uma história incrível, marcante, com vários personagens e detalhes dignos de filme. Uma equipe que ficou quase invicta, perdendo só na prorrogação. E que, ao final da Copa, não perdeu da campeã Espanha e que se segurou diante de uma Argentina que protagonizou épicos nas fases seguintes e terminou como vice-campeã. É hora de relembrar Cabo Verde 2026.

O início

A história do país Cabo Verde é uma das mais recentes do mundo – e isso torna essa jornada da seleção ainda mais impressionante. Os africanos se tornaram independentes de Portugal apenas em 1975 e sua equipe de futebol disputou a primeira partida oficial três anos depois, contra Guiné, com derrota por 1 a 0. O país fundou sua federação em 1982 e se filiou à FIFA somente em 1986. Em 1992, Cabo Verde disputou as Eliminatórias para a Copa Africana de Nações pela primeira vez, mas não conseguiu a vaga continental. Anos depois, o país participou pela primeira vez das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2006, sem sucesso. E, em 2013, conseguiu disputar pela primeira vez a Copa Africana de Nações, quando fez bonito e alcançou as quartas de final.

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O técnico Bubista. Foto: Getty Images

 

Os Tubarões Azuis passaram a investir mais na seleção local, principalmente na virada dos anos 2010 e ao longo dos anos 2020, quando a federação de futebol cabo-verdiana recorreu a um planejamento que focou em jogadores vindos da diáspora do país, por conta da forte ligação com Portugal e também Holanda, mais precisamente a cidade de Roterdã. No século passado, uma série de secas levou a uma grande emigração das ilhas cabo-verdianas. Além disso, a tradição marítima e a participação no comércio naval contribuíram para a formação de uma população considerável com raízes em Cabo Verde nos citados países europeus. 

“A FCF tem feito progressos significativos graças à paixão, ao comprometimento e a um plano técnico bem definido. Os resultados que estamos vendo são, em grande parte, fruto de anos de trabalho consistente, forte crença e pessoas que dedicaram seus corações ao projeto”, afirmou Josina Freitas Fortes, membro do parlamento de Cabo Verde, à BBC (Reino Unido), em junho de 2026.

Uma curiosidade é que a federação utilizou todos os recursos para conseguir compor seu elenco. Todos mesmo! O mais célebre foi um anúncio no LinkedIn, em meados de 2018, que ajudou a incorporar o zagueiro Roberto “Pico” Lopes (nascido em Dublin, Irlanda). Ele recebeu uma mensagem na rede social profissional do então técnico da seleção, Rui Águas, e pensou que era spam, pelo fato de a mensagem estar em português.

O treinador havia descoberto que o jogador possuía ascendência cabo-verdiana por parte de pai e queria saber se ele tinha interesse em defender a seleção nacional. A princípio, Pico ignorou a mensagem. Mas, em 2019, a federação insistiu, dessa vez com uma mensagem em inglês, e ele aceitou.

“Achei que a mensagem era um spam. Eu deveria ter usado o Google Tradutor antes”, comentou o zagueiro, tempo depois, ao site da FIFA.

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O perfil do zagueiro Pico no LinkedIn.

 

O bom momento da seleção cresceu após a chegada do técnico Pedro Leitão Brito – conhecido desde os tempos de jogador pelo apelido de Bubista -, que comandava os africanos desde 2020 e tinha à sua disposição uma comissão técnica estável que montou uma equipe compacta e bem treinada, com defesa organizada, meio-campistas técnicos e atacantes talentosos. Outro fato relevante era a disciplina do elenco, que não cometia muitas faltas e jogava limpo, sem o ímpeto físico um pouco excessivo que sempre marcou muitas equipes africanas. 

Boa campanha na CAN de 2023

O primeiro exemplo de que o trabalho estava sendo bem feito veio em 2023, quando Cabo Verde chegou até as quartas de final da Copa Africana de Nações disputada na Costa do Marfim. Na fase de grupos, os Tubarões venceram Gana por 2 a 1, bateram Moçambique por 3 a 0 e empataram com o Egito em 2 a 2, resultados que classificaram a equipe em primeiro lugar no Grupo B, com 7 pontos, deixando para trás as tradicionais seleções do Egito (3 pontos) e Gana (eliminada, com 2). Nas oitavas de final, os cabo-verdianos derrotaram Mauritânia por 1 a 0 e se classificaram para as quartas de final, assim como em 2013, mas já com um jogo a mais. 

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Foto: Perfil da Federação Sul-Africana de Futebol no X.

 

Os Tubarões tiveram pela frente a África do Sul e, após empate sem gols no tempo normal e prorrogação, acabaram derrotados nos pênaltis por 2 a 1. A campanha invicta deixou o técnico Bubista orgulhoso e certo de que o trabalho estava indo na direção certa. “Tínhamos uma equipe fantástica e enfrentamos adversários à altura também. Tivemos oportunidades de vencer a partida, mas não conseguimos aproveitá-las”, comentou o treinador na época ao Ahram Online (EGI). Ele ainda acrescentou que “os torcedores devem estar satisfeitos com o que alcançamos aqui. Conquistamos o direito de estar entre os melhores. Tenho muito orgulho do que meus jogadores mostraram aqui na Costa do Marfim. Eles representaram Cabo Verde de forma brilhante”, finalizou.

Daquela campanha, Bubista já teria a base de jogadores para tentar levar Cabo Verde ainda mais longe: a Copa do Mundo. O goleiro já era o experiente Vozinha, com 37 anos na época e que demonstrava enorme imposição física no gol, com grande senso de posicionamento, personalidade e sangue frio. Diney, Stopira, Jovane Cabral, Deroy Duarte, Laros Duarte, Jamiro Monteiro, Willy Semedo, Ryan Mendes, Steven Moreira e Kevin Pina já estavam no elenco da Copa Africana de Nações e também seriam utilizados por Bubista no ciclo das Eliminatórias para a Copa de 2026.

Jovem e com grande conhecimento dos atletas, Bubista tinha o grupo na mão e a certeza de que poderia almejar um passo maior nos próximos anos. Ele comentou isso em entrevista ao site da FIFA já em 2024.

“Minha experiência e trajetória são bastante significativas e permitem que os jogadores confiem plenamente na comissão técnica. Procuro ser honesto com todos, mesmo nos momentos difíceis, o que tem ajudado muito. Na época em que eu era jogador e capitão, meu sonho era conquistar a Copa Amílcar Cabral (torneio disputado entre 1979 e 2007, envolvendo nações da África Ocidental), e conseguimos. Também sonho há muito tempo que um dia venceremos a Copa Africana de Nações e que logo nos classificaremos para a nossa primeira Copa do Mundo”. Bubista, em entrevista ao site da FIFA, março de 2024.

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Ele ainda ressaltou a importância de se construir um grupo que tivesse realmente como objetivo crescer e se consolidar vestindo a camisa de Cabo Verde, mesmo não nascendo no país.

“Valorizo ​​muito as relações humanas. Sim, temos jogadores com ascendência cabo-verdiana, mas que nasceram em outros países. A primeira convocação serve quase sempre para avaliar se o jogador consegue se integrar ao grupo, para apresentá-lo aos companheiros de equipe e à comissão técnica e, acima de tudo, para entendermos onde está o coração dele.

Tento conhecê-los em sua essência, indo além das aparências. Assim, sei que posso contar com eles caso venha a convocá-los novamente no futuro. Isso me traz tranquilidade, pois preciso confiar neles não apenas como jogadores, mas como pessoas. Precisamos que essa nova geração de talentos seja forte, ousada e cheia de confiança. Somos um país pequeno; por isso, precisamos ter um espírito gigante e transbordar confiança para alcançar nossas metas ambiciosas”.

A inédita vaga na Copa

Depois da Copa Africana, Cabo Verde passou por um período de resultados ruins que culminaram com a não-classificação do país para a edição de 2025 do torneio continental. O lado positivo é que os Tubarões puderam se concentrar exclusivamente nas Eliminatórias da Copa do Mundo, na qual a equipe teria adversários bem complicados: a tradicional e sempre favorita seleção de Camarões, Líbia, Angola, Maurício e Essuatíni (antiga Suazilândia). A jornada dos Tubarões Azuis começou em novembro de 2023, com empate diante de Angola, em casa, em 0 a 0. Depois, a equipe derrotou Essuatíni fora de casa por 2 a 0, e, em junho de 2024, perdeu para Camarões, fora, por 4 a 1.

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Vozinha em ação: goleiro seria um símbolo de Cabo Verde na Copa.

 

A volta por cima veio com o triunfo por 1 a 0 sobre a Líbia, em casa, e outro triunfo diante de Maurício por 1 a 0. Na rodada seguinte, uma ótima vitória por 2 a 1 sobre Angola, fora de casa, deixou os Tubarões Azuis vivos pela vaga, e ainda mais depois da vitória por 2 a 0 sobre Maurício, fora, e o triunfo por 1 a 0 sobre Camarões, em casa, que deixou a torcida na contagem regressiva da classificação. Na reta final, os cabo-verdianos empataram em 3 a 3 com a Líbia, fora de casa, e asseguraram a inédita vaga na Copa com vitória por 3 a 0 sobre Essuatíni, em casa.

Os Tubarões conseguiram a vaga no Mundial após somarem 23 pontos em 10 jogos no Grupo D, com sete vitórias, dois empates e apenas uma derrota, com 16 gols marcados e oito sofridos. Cabo Verde conseguiu o feito justamente no ano (2025) em que o país completou 50 anos de sua independência.

“A meu ver, o aumento do número de seleções na Copa do Mundo é um alívio grande para as seleções da África. Antigamente, você passava em primeiro lugar no grupo e ainda tinha de jogar um playoff extremamente difícil. Com o aumento no número de vagas, você consegue o primeiro lugar do grupo e garante a classificação. Isso estimula países a fazer mais investimentos em suas seleções”, comentou o técnico Bubista à RFI (FRA), em 2025.

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Festa dos jogadores após a vaga na Copa.

 

Quando anunciou a lista de convocados, o técnico manteve o mesmo grupo dos últimos anos e, dos 26 atletas, 14 nasceram fora de Cabo Verde, seis deles em Roterdã (HOL). A maioria jogava em clubes de pouca expressão, com excessão do defensor Logan Costa (Villarreal-ESP) e do lateral Sidny Lopes Cabral (Benfica-POR). O restante do elenco jogava em ligas do Chipre, Rússia, Emirados Árabes, Romênia, Bulgária, Turquia, EUA e até Finlândia. Era totalmente imprevisível qualquer prognóstico sobre como aquele time iria se portar diante de adversários mais poderosos, ainda mais em uma Copa do Mundo. E, quando saiu o grupo dos africanos com Espanha e Uruguai, obviamente que os dois classificados eram “favas contadas”. Bem, será mesmo?

Preparativos e o choque na futura campeã do mundo

Depois de permanecer o ano de 2025 invicto, com seis vitórias e quatro empates em 10 jogos, Cabo Verde disputou em 2026 quatro amistosos pré-Copa, com duas vitórias – 3 a 0 na Sérvia e 3 a 0 em Bermuda -, um empate (1 a 1, com a Finlândia) e uma derrota (4 a 2 para o Chile). Já na Copa, o técnico Bubista preparou sua equipe para a estreia contra uma das favoritas ao título: a Espanha, campeã da Eurocopa de 2024 e uma das seleções mais fortes do planeta. Na coletiva antes da partida, o técnico ressaltou que sua seleção não estava à passeio como muitos acreditavam.

“Da minha parte, estou tranquilo. Não viemos aqui apenas para participar. Viemos para competir. A nossa equipe demonstrou maturidade durante todo este percurso. Espero que continue assim. Os primeiros jogos acarretam sempre muitas dificuldades para qualquer um. Confiamos na nossa preparação. Sei que teremos momentos difíceis, mas também criaremos dificuldades para a Espanha. Quando tivermos a bola, temos de ter coragem para atacar. Quando não tivermos, temos de defender com responsabilidade. Essa é a nossa identidade”.

Do outro lado, o técnico da Espanha, Luis de la Fuente, pregou cautela com o adversário africano na coletiva de imprensa pré-jogo.

“Se alguém pensa que o jogo com Cabo Verde vai ser fácil, está equivocado com certeza. É uma equipe veloz, com conceitos táticos muito bem definidos. Conseguiram deixar Camarões de fora da Copa do Mundo [nas eliminatórias africanas], e muitos jogadores atuam nas ligas europeias. Pode ser uma das surpresas do Mundial. O grande público descobrirá amanhã o que pode ser Cabo Verde”, destacou o técnico.

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Vozinha em ação contra a Espanha. Foto: Maddie Meyer / FIFA / FIFA via Getty Images

 

O mais assustador é que o espanhol parecia ter o dom da premonição. Quando a bola rolou, a Espanha naturalmente teve mais posse de bola, finalizou algumas vezes, mas nada que levasse realmente perigo ao goleiro Vozinha. Tanto é que só aos 36’ do primeiro tempo que Pedri, em bom chute da entrada da área, exigiu a primeira defesaça do goleiro cabo-verdiano. Na sequência, Jovane Cabral chegou pela esquerda e chutou de fora da área, mas a bola subiu demais. Cabo Verde demonstrava enorme personalidade e deixava a Espanha desconfortável, ansiosa. Aos 38’, Ferran Torres apareceu na grande área e chutou no travessão. No rebote, Oyarzabal ia marcar, mas Vozinha apareceu e fez outra defesa milagrosa. Aos 44’, o goleirão pegou uma bola difícil, em chute rasteiro de Ferran.

No segundo tempo, a Espanha seguiu pressionando, chegou aos 65% de posse de bola, mas Vozinha seguiu absoluto, defendendo todas e ainda ganhando tempo colocando a bola no gramado e esperando alguns segundos até ser pressionado e agarrar a redonda. Perto do final do jogo, Cabo Verde ainda teve grande chance de gol com contra-ataque rápido pela esquerda, mas o chute de Kevin Pina desviou em Dani Olmo e foi para escanteio. Telmo Arcanjo cobrou e o zagueiro Diney cabeceou pra baixo, mas o goleiro Unai Simón, bem colocado, defendeu. Imagine se Cabo Verde faz um gol àquela altura do jogo?

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Foto: Getty Images.

 

Pois nem precisou. O placar de 0 a 0 garantiu o primeiro ponto da história de Cabo Verde em Copas e deu um choque no futebol mundial. Se alguém não conhecia o país, ficou conhecendo. A Espanha teve 65% de posse de bola, chutou 27 vezes ao gol contra apenas seis de Cabo Verde, teve 11 escanteios, mas nada disso foi suficiente para a equipe balançar as redes.

O goleiro Vozinha, de 40 anos, virou a grande sensação após suas defesas – foram pelo menos cinco grandes intervenções – e um jogo impecável de um goleiro experiente e que se mostrava em igualdade com tantos outros do Mundial. O jogador ainda viu explodir sua rede social e ganhou mais de 13 milhões de novos seguidores nos dias posteriores ao duelo contra a Espanha. Detalhe: ele tinha pouco mais de 50 mil!

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Ryan Mendes protege a bola de Cucurella. Foto: Buda Mendes / AFP

 

“O que está acontecendo comigo realmente é algo extraordinário, que vai muito além do futebol. Sempre o meu irmão, que é religioso, costuma dizer que Deus nos mete as dificuldades sempre à frente, depois nos traz coisas boas. E acho que sou uma pessoa abençoada”, comentou o camisa 1, em entrevista à FIFA.

Vozinha ainda comentou que “Cabo Verde chegou ao Mundial como uma pequena seleção, de um pequeno país, mas uma seleção que veio para competir, para lutar com garras, com unhas e dentes, para mostrar a resiliência, a força do povo cabo-verdiano. E eu, inserido nisso, acho que também sou a extensão de tudo isso”. O técnico Bubista foi outro que se encheu de orgulho após o empate.

“Tenho de dar os parabéns aos meus jogadores. Afinal, estivemos organizados durante todo o jogo. Nós sabemos qual é a qualidade da Espanha, mas mostramos aquilo que é o nosso país. É ultrapassar dificuldades com coragem. Assim, vimos uma equipe que mostrou coragem, mostrou valentia durante todo o jogo.”

Tempo depois, com a confirmação do título da Espanha, o empate dos africanos diante da Roja ficou ainda maior e impactante, pois os Tubarões foram os únicos que o time europeu não conseguiu vencer. E olha que a Espanha derrotou Bélgica, França e Argentina ao longo da campanha!

A vaga histórica

Empatar com a favorita Espanha deu mais tranquilidade ao time de Cabo Verde, que entrou em campo diante do Uruguai muito mais solto e sem aquele peso que uma estreia de Copa do Mundo pode causar. Os atletas não iriam jogar com tanto receio como no jogo anterior e estavam dispostos a ir pra cima da Celeste, que vinha de um insosso empate em 1 a 1 contra a Arábia Saudita e precisava da vitória para seguir com chances de vaga. Quando a bola rolou, Cabo Verde foi com o mesmo 4-3-3 do primeiro jogo, apenas com pequenas mudanças no meio de campo e no ataque. A partida começou bem equilibrada e, aos 21’, aconteceu o momento histórico.

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Kevin Pina celebra o primeiro gol de Cabo Verde na história das Copas. Foto: Carmen Mandato / FIFA via Getty Images

 

Cabo Verde teve uma falta a seu favor, de muito longe. Ninguém do Uruguai deu bola e apenas dois jogadores permaneceram na barreira. Kevin Pina percebeu e, ao invés de fazer alguma jogada ensaiada, resolveu chutar direto. Ele bateu forte, rasteiro, a redonda passou facilmente pela barreira quase nula e foi parar no cantinho do goleiro Muslera: 1 a 0. Era o primeiro gol de Cabo Verde na história das Copas. Um gol inesquecível, diante de uma seleção bicampeã mundial e que fez a pequenina nação africana celebrar como nunca antes havia celebrado.

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Estava mais do que provado que aquele time não era zebra. Não era saco de pancadas. Era um time de futebol que queria mais. Queria, como sempre disse seu técnico, competir. E competiu. O Uruguai passou a atacar, mas enfrentava dificuldades para furar a boa retaguarda dos africanos, que eram muito perigosos no contra-ataque. Quando conseguiam, eram parados com faltas. Aos 36’, os Tubarões chegaram com Rodrigues pela esquerda, que tocou para Benchimol e este escorou de letra para Ryan Mendes, que acabou desarmado por Mathías Olivera. No minuto seguinte, Sidny Cabral Lopes avançou pela esquerda e cruzou com perigo. Muslera conseguiu dar um tapa na bola e evitou o perigo. Na cobrança do escanteio, o mesmo Sidny Cabral bateu com efeito, tentando um gol olímpico, e a bola foi para fora.

Cabo Verde era ousado, jogava como uma seleção experiente e de longa data em Copas. Mas a guarda tinha que ficar sempre alta. E, aos 44’, o Uruguai conseguiu o empate. Sanabria avançou pela esquerda e tocou para Valverde. O polivalente jogador cruzou na área, Ugarte subiu mais do que todo mundo e acertou a trave. No rebote, Maxi Araújo mostrou oportunismo e empatou: 1 a 1. Com seis minutos de acréscimos, o Uruguai aproveitou o embalo para seguir no ataque. E conseguiu a virada aos 45’+6’, quando Ugarte recebeu na intermediária e cruzou na medida para Maxi Araújo, que escorou de cabeça para Canobbio completar para as redes.

Qualquer outra seleção poderia sentir aquela virada e começar o segundo tempo desmotivada. Mas Cabo Verde foi pra cima e, aos 61’, aproveitou uma saída errada de Muslera e Hélio Varela limpou o goleiro para empatar: 2 a 2. Dois minutos depois, Jamiro Monteiro recebeu na intermediária, chutou com efeito e a bola tirou tinta do travessão. Quase a virada! O jogo ficou frenético, Cabo Verde teve outras chances, mas o gol teimou em não sair, com três oportunidades claras nos acréscimos. O placar de 2 a 2 deu outro ponto importante aos africanos e deixou o Uruguai à beira do abismo, pois a Celeste teria pela frente a poderosa Espanha na rodada final – que havia goleado a Arábia Saudita por 4 a 0 – e Cabo Verde um duelo relativamente mais tranquilo contra os asiáticos.

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Varela comemora o empate. Foto: Reuters
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Chute de Jamiro quase deixou Cabo Verde em vantagem novamente!

 

Vale lembrar que, no lance do primeiro gol do Uruguai, o jogador de Cabo Verde Telmo Arcanjo estava caído no gramado e o time sul-americano seguiu o lance até marcar, o que gerou revolta nos atletas e na comissão técnica africana. Bubista comentou no pós-jogo sobre o lance – que, se não tivesse acontecido, poderia dar outro desfecho para a partida, até mesmo uma vitória dos cabo-verdianos. Arcanjo acabou substituído ainda no intervalo, por lesão, inclusive.

“O Uruguai é um adversário de nível muito alto. Mas no primeiro gol, aquilo não é fair play, aquilo não faz parte do jogo. Tivemos um jogador no chão por quase 2 minutos. Eu não compreendo essa regra.”

Contra a Arábia, a partida teve chances dos dois lados, Cabo Verde construiu as melhores, embora não tenha conseguido furar a meta do goleiro Al-Owais. O zero não saiu do placar e o terceiro ponto deu a Cabo Verde a segunda colocação do grupo. Restava torcer contra o Uruguai, que jogava contra a Espanha no mesmo horário e perdia por 1 a 0. Como a partida dos africanos terminou antes, todos os jogadores e a comissão técnica ficaram acompanhando a partida em um celular, na expectativa. E, após o apito final e a consolidação da vitória espanhola, a festa foi imensa em Houston (EUA), como se tivessem conquistado um título!

Pela primeira vez, Cabo Verde estava classificado para uma etapa eliminatória de Copa do Mundo. E deixava de fora a favorita Celeste, eliminada com apenas dois pontos em três jogos. “Sempre soubemos da nossa qualidade e tudo fizemos para que isso acontecesse. Talvez, lá fora, muita gente tenha pensado que seria mais complicado, mas mostramos muita personalidade, muita competência, muita vontade, muito querer. Estamos felizes por tudo”, afirmou o goleiro Vozinha, logo após o jogo. Foi a primeira vez em 16 anos que um país estreante conseguiu se classificar para uma etapa eliminatória de Copa – o último havia sido a Eslováquia, em 2010.

Qual seria o limite daquela seleção? Bem, ela seria testada contra um adversário gigante: a Argentina de Messi e companhia.

A incrível saga dos Tubarões contra os campeões do mundo

Então campeã mundial e embalada após três vitórias em três jogos na fase de grupos, com destaque para os gols de Lionel Messi, artilheiro da competição com 6 gols, a Argentina levaria a seleção de Cabo Verde ao limite. Enfrentar os sul-americanos não seria tarefa fácil, mesmo com a experiência dos embates na primeira fase. Só que os cabo-verdianos confiavam em uma boa partida. O goleiro Vozinha foi categórico à imprensa no pré-jogo. “Talvez, para muitos de vocês, os jogadores de Cabo Verde não sejam bons o suficiente. Mas viemos aqui para mostrar que temos muita qualidade”.

A equipe continuaria jogando da mesma forma, em função do coletivo, jamais de forma individualizada ou com uma marcação especial em Lionel Messi, por exemplo. “Não vamos mudar tanto nossa forma de jogar, nossa identidade, em função do adversário. O que deve sempre se ajustar são estratégias em preparação para um determinado jogo”, comentou o auxiliar Humberto Bettencourt. Com a bola rolando em Miami (EUA), a Argentina naturalmente teve o controle nos primeiros minutos e pressionou a saída de bola dos africanos. Mas, aos 6’, Lautaro foi tentar pressionar o goleiro Vozinha e levou um belo drible do veterano goleiro cabo-verdiano que levou a torcida dos Tubarões ao delírio. 

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Vozinha driblou Lautaro duas vezes no jogo.

 

Na sequência, a primeira chegada efetiva foi de Cabo Verde, pela direita, quando Ryan Mendes avançou e acabou chutando fraco, com a bola desviando em Romero para a fácil defesa de Dibu Martínez. A Argentina continuou sua procura por brechas no campo defensivo, mas era difícil furar a bem postada zaga formada pelo técnico Bubista. Aos 14’, uma boa chegada pela esquerda em jogada do volante De Paul e do meia Almada terminou com a redonda nos pés de Messi. O camisa 10 achou um espaço e chutou rasteiro, mas a bola foi para fora. No minuto seguinte, o craque foi derrubado por Jovane Cabral perto da área e a albiceleste ganhou uma chance de ouro para abrir o placar. O capitão cobrou, mas Vozinha, bem colocado, encaixou firme e defendeu.

O camisa 1 de Cabo Verde era soberano na grande área até aquele momento. Ele esbanjava tanta confiança que, aos 18’, repetiu o drible seco pra cima de Lautaro Martínez em uma pressionada do atacante, mostrando que ali, dentro da área, quem mandava era o goleirão. Após a pausa para hidratação, a Argentina voltou com Messi mais centralizado, como um legítimo camisa 9. E, aos 29’, esse posicionamento do craque gerou o primeiro gol. Do meio de campo, Lisandro Martínez fez um lançamento longo espetacular, digno dos mais lendários meias do futebol argentino, e mandou a bola para Messi. O camisa 10 dominou como só ele sabe fazer, ajeitou e bateu alto na saída de Vozinha, sem qualquer chance para o goleiro cabo-verdiano: 1 a 0.

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A partir dali, a Argentina ficou mais confortável e trocou passes sem pressa, explorando novas brechas para ampliar. Cabo Verde ainda não agredia e só foi se arriscar no ataque perto dos 40’, em chances com Jovane Cabral, que acertou bom passe para Moreira, mas este errou o chute na sequência. Após os acréscimos, o placar de 1 a 0 era justo pelo jogo eficiente da Argentina e a quase inoperância de Cabo Verde no ataque. Tudo levava a crer que a albiceleste iria se classificar sem sustos. 

Só que Cabo Verde retornou com outra postura para os 45 minutos finais. Sem medo, a equipe se lançou ao ataque e ganhou escanteio logo aos três minutos. Os africanos tentaram pressionar, ganharam outro escanteio, mas a bola não entrou. A Argentina ficou mais contida e surpresa com o ímpeto dos africanos. Aos 8’, Deroy Duarte aproveitou uma bola na entrada da área e chutou rasteiro, exigindo a defesa de Dibu Martínez. Cabo Verde tinha mais a bola, trabalhava, tocava. E, aos 14’, Moreira conduziu na intermediária e tocou na direita para Ryan Mendes, que tocou rasteiro para dentro da área em direção a Deroy Duarte. O camisa 14 dominou e, mesmo com Lisandro Martínez à sua frente, chutou forte, rasteiro, para vencer Dibu Martínez: 1 a 1.

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Deroy Duarte faz o gol de empate. Foto: Reuters

 

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Os times em campo: Cabo Verde se fechou bem, mas soube atacar em vários momentos ao longo da partida.

 

Antes confortável e certa de que a partida estava ganha, a Argentina levava um baque. Cabo Verde era outro. Era ousado. Um time que via a chance de brigar pelo resultado e (por que não?) pela vitória. A albiceleste tentou a resposta rápida e, aos 17’, Lautaro recebeu perto da meia-lua, tocou com Messi e o craque saiu em disparada em direção à área. Na hora do chute, Vozinha se agigantou e evitou um tento certo do camisa 10. A partida era outra. Cabo Verde crescia tanto no ataque quanto na defesa.

A Argentina conseguiu ficar mais com a bola após os 22’ e repetiu a dominância do primeiro tempo, mas a finalização não saía. A cada minuto, a partida ficava ainda mais tensa e Cabo Verde fez mais duas modificações para dar mais fôlego ao sistema defensivo. Até que, aos 35’, a Argentina conseguiu uma brecha na área, Messi recebeu e abriu na direita com Molina, que cruzou rasteiro na área. Antes de a bola chegar a Enzo Fernández, livre, o zagueiro Pico Lopes tirou e praticamente fez um gol para Cabo Verde! Que alívio! E que susto, pois a bola passou perto da trave. 

A albiceleste se mandou inteira para o ataque e tentou pelo meio, pelas laterais, mas nada de gol. Porém, os africanos se arriscavam muito nas faltas perto da área. Em mais uma delas, aos 45’+3’, Messi bateu à meia altura, a bola desviou na barreira, mas Vozinha, muito bem colocado, defendeu de novo. Ele não permitia o segundo gol. A prorrogação era uma realidade. E ela veio, ao apito do árbitro Drew Fischer. A campeã do mundo pensou que seria fácil. Só que a vaga nas oitavas de final exigia mais.

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Vozinha parou Messi de várias maneiras.

 

Jogar 30 minutos extras, além dos acréscimos, em plena fase de 16 avos de final não estava nos planos da Argentina. Era mais suor e energia que poderiam fazer falta na sequência da Copa. Por isso, o time albiceleste precisava aproveitar ao máximo as oportunidades. Vencer aquele adversário que se recusava a perder e seguia invicto após quatro jogos completos. E, logo aos 2’ do primeiro tempo extra, Messi cobrou escanteio, Mac Allister tocou de cabeça para trás, a bola sobrou para Lisandro Martínez, que dominou, ajeitou para a canhota e bateu alto, assim como Messi no primeiro gol, para vencer o goleiro Vozinha e marcar 2 a 1. 

Cabo Verde voltou a atacar após o gol. Era um adversário traiçoeiro. Ficava acuado, se defendendo. Mas, quando era agredido, revidava. E bem. Três minutos depois, uma cobrança de escanteio levou perigo quando Pico Lopes tentou de calcanhar uma bola sobrada na área. Após resistir um revide, Cabo Verde foi para o ataque mais duas vezes. Na primeira, um cruzamento da esquerda foi nas mãos de Dibu Martínez. Mas, no segunda, eis que aconteceu o extraordinário. 

Sidny Lopes Cabral recebeu lindo passe na esquerda, livre. Mac Allister chegou para o combate, mas foi driblado. O camisa 13 de Cabo Verde ajeitou e olhou para a área. Ele poderia cruzar, mas a zaga argentina estava em linha e dificilmente perderia a bola. Por isso, ele decidiu chutar. Bateu forte, com efeito. A bola voou até o ângulo de Dibu Martínez, que saltou e não encontrou nada: 2 a 2.

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Um golaço espetacular! Um dos mais bonitos da Copa do Mundo de 2026. E um gol que encheu de emoção os quase 600 mil habitantes do arquipélago africano. Na comemoração, Sidny Cabral correu em direção aos seus familiares, em puro êxtase, sem acreditar no que havia acontecido. Nos acréscimos, Messi ainda teve a chance de colocar a Argentina de novo na frente, mas seu chute rasteiro foi defendido por Vozinha.

O segundo tempo começou e a Argentina continuou seu roteiro ofensivo, com Cabo Verde na defensiva. Os africanos queriam, àquela altura, levar o jogo para os pênaltis. Ou, quem sabe, engatilhar um contra-ataque e tentar a virada histórica. Mas histórico já era o que eles estavam fazendo: colocando a campeã do mundo nas cordas. Causando pânico. Tensão. Angústia. Aos 4’, Nico González fez fila na marcação e acabou cortado na cara de Vozinha por Diney. Escanteio. Messi foi para a cobrança. Lá na área, os zagueiros e praticamente o time inteiro da albiceleste. O camisa 10 cobrou, Romero cabeceou, a bola ainda bateu na mão de Diney e entrou: 3 a 2. 

Outro alívio para os sul-americanos. E outra sequência ofensiva de Cabo Verde. O torcedor argentino não conseguia cantarolar como sempre fazia após os gols de sua seleção. Não tinha forças. Ficava ali, compenetrado no campo, fechando os olhos a cada subida ao ataque daqueles azuis destemidos e que pareciam experientes de Copa do Mundo. Aos 8’, Monteiro fez um belo lançamento para Moreira, mas a bola foi muito forte e o camisa 22 não alcançou. Se ele dominasse, era o mesmo roteiro do primeiro gol e chance clara para o empate!

Na sequência, Varela ganhou na corrida de Montiel, foi derrubado e ganhou falta pela esquerda, muito perto da área. Na bola, Sidny Lopes Cabral. Os torcedores argentinos gelaram. Viam o gol do camisa 13 ainda fresco na memória. Sabiam que ele pegava muito bem na bola. Ele não cruzou. Chutou direto. Mas, dessa vez, Dibu Martínez estava atento. Se posicionou no meio do gol e fez uma defesaça para evitar o empate – o camisa 9 cabo-verdiano, Benchimol, ainda apareceu por ali em busca do rebote. Aos 13’, Cabo Verde construiu outra jogada de perigo pela lateral, a bola foi para a área e Benchimol apareceu livre para concluir, no entanto, Dibu Martínez foi bem no lance e conseguiu mandar a bola para escanteio.

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Sidny Cabral quase fez outro belo gol, mas Dibu defendeu.

 

Só dava Cabo Verde. A Argentina era a equipe na retranca. Papéis invertidos em um roteiro dramático. Nos acréscimos, os africanos continuaram ali, rodando o barco albiceleste, tentando a pancada fatal para virá-lo. Até quando tentou um contra-ataque, aos 15’+1’ do segundo tempo, a Argentina não conseguiu finalizar, pois Vozinha, como um líbero, interveio e manteve a bola sob controle dos africanos. Porém, faltava mais eficiência na hora da finalização. A última veio no penúltimo minuto, com Varela, que chutou para fora ao invés de tocar na esquerda.

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Quando o árbitro encerrou a partida, os argentinos celebraram como um título. E a torcida, enfim, pôde vibrar e extravasar. A saga dos campeões do mundo em busca do tetra poderia seguir. Mas a fábula de Cabo Verde ficou para a história. Nunca uma equipe de um país tão pequeno e estreante fez tanto em uma Copa. Nunca uma equipe desconhecida deu tanta canseira em três seleções campeãs mundiais. E nunca a Argentina sofreu tanto em uma etapa eliminatória para um azarão como naquela noite de Miami. Foi um jogo de fases, contrastes, belos gols e muito futebol. Sem pancadaria, sem polêmicas. Tudo o que se espera de um duelo de Copa do Mundo. Simplesmente épico. E eterno.

Eles querem voltar

Segurar a Argentina e fazer ela sofrer como fez Cabo Verde causou enorme comoção na mídia de todo mundo. O país ganhou o reconhecimento e sua história entrou direto para os grandes contos das Copas, principalmente após o término da competição, pelo fato de eles terem sido a única equipe que a campeã Espanha não venceu e por terem dado um trabalho danado na Argentina, que terminou como vice-campeã.

“Obviamente, estamos um pouco tristes, acho que fizemos o suficiente para ganhar o jogo. Infelizmente, futebol é isso. A Argentina conseguiu marcar o terceiro gol num lance de bola parada. Mas estamos muito orgulhosos com nossa trajetória até aqui. Jogamos com o atual campeão do mundo, de igual para igual, e tivemos oportunidade de ganhar o jogo, temos que estar satisfeitos e orgulhosos. Obviamente estamos tristes, não queríamos ficar por aqui, mas estou muito grato por tudo…”, comentou o goleiro Vozinha, no pós-jogo, à CazéTV.

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Foto: Raphael Bózeo
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Festa da torcida com os jogadores na volta pra casa foi enorme! Foto: Reuters

 

O técnico Bubista também ressaltou o trabalho de seu time. “Orgulho da equipe. Eles são campeões do mundo, demos a volta no resultado, empatamos duas vezes. Levar para a prorrogação. Mais do que tudo, é ter orgulho dos jogadores. Nosso país fica dignificado deste Mundial. Mostramos nossa caráter e identidade”. Na volta para casa, os atletas foram recebidos com enorme festa, que coincidiu com as celebrações da independência do país. 

Mesmo sem vitórias, os africanos terminaram a Copa na 32ª colocação entre 48 seleções, com três empates, uma derrota, quatro gols marcados e cinco sofridos em quatro jogos. Cabo Verde foi também a única das seleções estreantes que conseguiu ficar entre as 32 melhores do torneio. Se mantiver o trabalho sério e o elenco, a seleção azul tem tudo para seguir escrevendo uma grande história e deve figurar entre as melhores do continente africano em breve. E, com a experiência de uma Copa praticamente invicta, os Tubarões Azuis querem aprontar em 2030 como aprontaram em 2026.

Os personagens: 

Vozinha: nascido na cidade cabo-verdiana de Mindelo, Josimar José Évora Dias ganhou o apelido de Vozinha na infância, pois foi criado pelos avós e sempre corria para o colo deles quando algo dava errado. Ao longo da carreira, defendeu equipes do próprio país e de países como Angola, Moldávia, Portugal, Chipre e Eslováquia. Com 1,89m de altura, começou a ser convocado para a seleção em 2012 e sempre figurou entre os melhores do país. Mas foi no ciclo do técnico Bubista que Vozinha se consagrou de vez com grandes atuações, imponência e enorme senso de colocação, além de expor uma personalidade marcante que influenciava bastante nos atacantes. Na Copa do Mundo, o goleirão não temeu nenhuma estrela – nem  Messi! – e se transformou no goleiro mais aclamado da Copa.

Com 18 defesas, Vozinha se tornou um dos três goleiros com 40 anos ou mais com mais defesas em uma só Copa em todos os tempos. Acima dele, apenas o inglês Peter Shilton (28 defesas em 1990) e o italiano Dino Zoff (27 defesas em 1982). Estes dois, no entanto, disputaram sete jogos, enquanto Vozinha conseguiu tal feito em apenas quatro partidas. O jogador foi, sem dúvida, o personagem de Cabo Verde na Copa, foi eleito para o All-Star Team do Mundial e ganhou o reconhecimento que merecia ao ser contratado pelo Colo-Colo-CHI, seu primeiro clube de expressão na carreira e que pode lhe dar a oportunidade de disputar uma Copa Libertadores em 2027. Vozinha tem tudo para seguir jogando em alto nível por alguns anos.

Steven Moreira: titularíssimo do setor defensivo da seleção, Moreira – que nasceu na França – pode jogar como lateral-direito e também como zagueiro. Ao longo de sua carreira, atuou principalmente como lateral-direito ofensivo, com eficiência nos cruzamentos e personalidade nos momentos decisivos. Quando a seleção joga com três zagueiros, atua muito bem pela direita, como terceiro defensor, mas com liberdade para sair jogando. Costuma oferecer perigo em chutes de longa distância. Joga desde 2021 no Columbus Crew-EUA.

Pico: o zagueiro que achou que o pedido para jogar na seleção de Cabo Verde via LinkedIn era Spam é convocado frequentemente desde 2019 e ganhou o apelido de Pico por causa de seu pai, que nasceu na ilha de São Nicolau, localidade do Pico do Monte Gordo. Fez uma grande dupla de zaga ao lado de Diney e ajudou no bom desempenho do time diante de grandes adversários ao longo da Copa.

Diney: nascido em Tarrafal, ao norte da ilha cabo-verdiana de Santiago, Edilson Alberto Monteiro Sanches Borges fez carreira no futebol português até se transferir para o FAR Rabat-MAR e, posteriormente, para o Al Bataeh-EAU. Começou a ser convocado para a seleção em 2017 e virou titular a partir de 2022, fazendo bons jogos e mostrando eficiência nas jogadas aéreas e nas saídas de bola.

Sidny Lopes Cabral: nascido em Roterdã-HOL, o lateral-esquerdo (que também pode jogar na direita) foi o autor do gol mais bonito da Copa no épico contra a Argentina e demonstrou durante o torneio muita qualidade nas transições com o ataque, velocidade e habilidade no um contra um e, claro, nas bolas paradas e chutes de longa distância. Se transferiu para o Benfica-POR em 2026 e acabou negociado junto ao Trabzonspor-TUR.

Kevin Pina: volante nascido na capital cabo-verdiana Praia, Pina foi outro destaque da seleção no Mundial com muita eficiência na marcação e cobertura, além de aparecer bem em jogadas ofensivas. Foi dele o histórico primeiro gol de Cabo Verde em Copas, no empate com o Uruguai em 2 a 2. Além de jogar como volante, pode também atuar ainda mais recuado, como líbero e também mais aberto. É convocado desde 2022 pelo técnico Bubista.

Benchimol: atacante também nascido na capital Praia, Benchimol tem quase 1,90m de altura e é uma importante referência em jogadas aéreas e em triangulações ofensivas, apesar de não ser prolífico. Joga no futebol russo desde 2024 e na seleção desde 2020.

Ryan Mendes: o capitão de Cabo Verde na Copa nasceu em Mindelo, no norte da ilha cabo-verdiana de São Vicente, e pode atuar como meia e também ponta-direita. Veterano – tem 36 anos -, Mendes passou por clubes do futebol francês e também pelo Nottingham Forest-ING, além de quase ter jogado no Leicester City campeão da Premier League de 2015-2016, mas os olheiros do clube acabaram contratando o argelino Riyad Mahrez na época. Pela seleção, Mendes sempre foi uma referência e marcou gols importantes em trajetórias da Copa Africana de Nações e Eliminatórias. Ele é o recordista em jogos por Cabo Verde com 102 partidas disputadas entre 2010 e 2026, além de ser o maior artilheiro da história dos Tubarões Azuis com 22 gols.

Willy Semedo: meia nascido na França, Willy Semedo é convocado para a seleção desde 2020 e já acumulou mais de 40 jogos pela equipe. Não costuma ser titular, mas entra no decorrer dos jogos para dar mais fôlego ao ataque.

Laros Duarte: nascido em Roterdã-HOL, Laros Duarte integrou todas as seleções de base da Holanda, mas acabou escolhendo a seleção de Cabo Verde quando completou 20 anos. Ele começou a ser convocado em 2024 e virou um dos principais jogadores do técnico Bubista pela boa capacidade de marcação e de organização no meio de campo. É o irmão mais velho de Deroy Duarte.

Jamiro Monteiro: mais um nascido em Roterdã-HOL, joga mais pela esquerda do meio de campo, ajudando tanto na marcação quanto nas jogadas ofensivas, além de arriscar chutes de média distância. Fez uma boa Copa do Mundo como titular da equipe em toda fase de grupos e entrou no decorrer do jogo contra a Argentina. Jamiro é um dos 10 jogadores com mais partidas na história da seleção: 59 jogos. Ele marcou cinco gols pelos Tubarões Azuis.

Arcanjo: nascido em Lisboa-POR, Telmo Arcanjo pode jogar como meia e também como ponta-esquerda ou segundo atacante. Começou a jogar no Tondela-POR até se transferir para o Vitória de Guimarães-POR, onde atua desde 2023. Pela seleção, é convocado desde 2021.

Deroy Duarte: nascido em Roterdã-HOL, assim como seu irmão mais velho, Laros Duarte, Deroy também jogou pelas seleções de base da Holanda, mas escolheu vestir a camisa de Cabo Verde após os 20 anos. Meio-campista muito forte fisicamente e com boa presença ofensiva, marcou o gol de empate de Cabo Verde contra a Argentina, tento que levou o duelo para uma angustiante prorrogação. Joga desde 2024 no Ludogorets-BUL.

Yannick Semedo: o meio-campista nasceu na capital Praia e é presença constante nas convocações do técnico Bubista desde 2022. Apesar de não ser titular, entrou em dois jogos na Copa para dar mais opções no meio.

Jovane Cabral: capaz de jogar como meia e também como ponta, o atacante nascido em Assomada, na ilha cabo-verdiana de Santiago, já vestiu a camisa da seleção em 31 jogos e tem boa velocidade e eficiência no um contra um. Após a Copa, foi contratado pelo Grêmio-BRA e será um bom reforço para o tricolor no Campeonato Brasileiro.

Hélio Varela: atacante com boa velocidade e que atua bem pelas pontas, Varela nasceu em Almada, Portugal, e começou a jogar pela seleção de Cabo Verde em 2023. O jogador teve algumas passagens por clubes de Portugal até se transferir para o Gent-BEL, em 2024. Em 2025, acabou negociado ao Maccabi Tel Aviv-ISR.

Nuno da Costa: atacante veterano (35 anos), nasceu na capital Praia e atua pela seleção desde 2016, quando fez parte da equipe que disputou as Eliminatórias para a Copa Africana de Nações de 2017. Pode jogar como centroavante e segundo atacante, mas nunca conseguiu ser o goleador da seleção, função esta que quase sempre foi do capitão Ryan Mendes. Teve passagens por vários clubes da França e atualmente joga no Istambul Başakşehir-TUR.

Livramento: mais um nascido em Roterdã-HOL, o atacante passou pelo Roda JC-HOL e pelo MVV-HOL até conseguir uma boa oportunidade no futebol italiano, quando passou a vestir a camisa do Hellas Verona em 2024. No mesmo ano, começou a ser convocado para a seleção e se revezou com Nuno da Costa e Arcanjo como centroavante e também segundo atacante. Tem sete gols em 26 jogos pela seleção e já é um dos 10 maiores artilheiros dos Tubarões na história.

Bubista (Técnico): jogador da seleção entre 1989 e 2005, Pedro Leitão Brito, o Bubista – cujo apelido é uma homenagem à Ilha de Boa Vista, sua terra-natal no arquipélago cabo-verdiano, pois a pronúncia rápida do nome da Ilha de “Boa Vista” acaba sendo “Bubista” no sotaque português de Cabo Verde -, acompanhou todo o desenvolvimento do futebol de Cabo Verde e foi um dos principais responsáveis por criar uma equipe competitiva e destemida que fez história ao conseguir uma vaga na Copa de 2026, deixando de fora a gigante e tradicional Camarões.

Segurar seleções tão icônicas em uma Copa foi algo marcante e o treinador tem tudo para melhorar ainda mais seu time nos próximos anos. A confiança, união e humildade foram marcas dessa jornada e de um time que fez da Copa um lugar onde ele não queria sair. Bubista criou, como ele sempre disse, uma identidade de uma seleção que representa um povo que enfrenta as dificuldades e, por isso, tem a ambição de competir sem medo e com coragem. Desde janeiro de 2020 no comando técnico, Bubista acumulou até agora 68 jogos, com 31 vitórias, 19 empates e 18 derrotas.

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