“Seis dias sem banho nem liberdade de movimentação”: relato de estudante guineense retida no aeroporto de Lisboa
“Seis dias sem tomar banho, sem direito a sair da sala onde dormíamos, excepto para ir à casa de banho”: é o relato de uma das estudantes guineenses retidas no Aeroporto de Lisboa, de onde saiu na quinta-feira 23 de Abril. Neia Gomes, actualmente alojada em casa de uma prima na região de Lisboa, relata à RFI os dias que passou no aeroporto, bloqueada pelas autoridades que apontavam para “documentação inválida” que tinha sido, no entanto, validada pela Embaixada de Portugal em Bissau.
Publicado a: Modificado a:
3 min Tempo de leitura
No aeroporto de Lisboa permanece ainda um dos dez estudantes guineenses retidos pelas autoridades portuguesas desde a sua chegada, sexta-feira 17 de Abril.
Seis deles foram já repatriados para a Guiné-Bissau e apenas três foram autorizados a entrar em território português, de acordo com um deles. Neia Gomes, matriculada no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa IE – ULisboa, ficou retida no aeroporto durante seis dias, de 17 a 23 de Abril, antes de ser autorizada a pisar o solo português.
Para justificar a retenção, as autoridades portuguesas disseram a Neia Gomes que o seu documento de Termo de Responsabilidade- em que se declara a pessoa responsável pelo estudante estrangeiro durante a sua estadia, garantindo alojamento e meios de subsistência – não estava válido, apesar do mesmo ter sido validado pela Embaixada portuguesa em Bissau que lhe outorgou visto de entrada em Portugal.
A jovem foi então levada com outros estudantes guineenses para uma sala do aeroporto:
Perguntaram-me quem tinha colocado como pessoa responsável no Termo de Responsabilidade, respondi: “o meu primo”. Perguntaram-me qual é a morada dele. Respondi: “Santarém”. Disseram-me que era muito longe de Lisboa, e que ficava demasiado longe da minha universidade. Perguntaram-me também se tinha trazido dinheiro comigo, e quanto. Disse-lhes que tinha 300 euros. Responderam-me que era pouco. Fiquei presa no aeroporto, disseram-me que tinha documentos falsos.
Para além de ter tido todos os documentos validados pelas autoridades portuguesas, Neia Gomes já tinha pago as propinas da Universidade. No entanto, à chegada a Lisboa, as exigências já não era as mesmas. A jovem estudante testemunha uma certa incompreensão, já que apresentou “toda a documentação requerida” e que “obteve o visto pela embaixada” portuguesa em Bissau.
Neia Gomes passou seis dias numa divisão do aeroporto, sem liberdade de movimento, com alimentação básica e, no primeiro dia, água “da casa de banho” para quem tivesse sede:
Foram seis dias sem tomar banho, sem escovar os dentes. No dia em que chegámos – sexta-feira 17 de Abril -, não conseguimos comer, nem beber. Pedimos água e disseram que se tivessemos sede, podíamos beber água na casa de banho. Deram-nos pão e sopa todos os dias, e em alguns, tivemos arroz. Não podímos sair da sala onde dormíamos, somente para ir à casa de banho e voltar. Tudo igual a estar numa prisão.
Até ao dia de hoje não me estou a sentir muito bem, estou com preocupação e medo. Gostava de saber se os nossos colegas que foram repatriados terão outra oportunidade de voltar para continuar a estudar aqui.
Uma dúvida que Neia Gomes partilha com muita gente, já que as autoridades portuguesas não se pronunciaram sobre o sucedido. A ausência de concordância entre os requisitos feitos na embaixada portuguesa em Bissau e os obstáculos à chegada a Lisboa, numa altura de alterações à Lei da Imigração em Portugal e de uma aparente tensão entre os dois países desde o alegado “golpe de estado” na Guiné-Bissau questiona.
Actualmente (sábado 25 de Abril), ainda se encontra um estudante guineense retido no Aeroporto de Lisboa.
Crédito: Link de origem