Seinfeld em Portugal: protesto, cancelamento ou censura? – Observador

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a história do dia da Rádio Observador: Seinfeld em Portugal. Protesto, cancelamento ou censura? Para muita gente, basta ouvir isto para reconhecer uma das séries mais populares de sempre.

Name, please. Seinfeld. I made a reservation for a midsize, and she’s a small.

Seinfeld foi o rei da televisão nos anos 90 e fez de Jerry Seinfeld um dos humoristas mais bem-sucedidos dos Estados Unidos.

Why do people always say that? I hate everybody. Why would I like him?

Nos últimos anos, ele, que é judeu, tem assumido publicamente o apoio a Israel depois dos ataques de 07/10, e algumas das suas declarações tornaram-se virais, como esta em junho.

Can we get a free Palestine? Can we get a free Palestine? Come on, give us one free Palestine.

It doesn’t exist.

Em novembro, Seinfeld atua pela primeira vez em Portugal, mas a poucas semanas do festival rebentou a polémica. Vários artistas portugueses que iam atuar no mesmo evento começaram a cancelar a participação, uns por discordarem das posições de Seinfeld, outros em solidariedade com a causa palestiniana. Há quem diga até que não se pode normalizar ou relativizar um genocídio. Hoje vou falar sobre isto com o humorista José Diogo Quintela. Vamos discutir o direito ao protesto e a liberdade de expressão no mundo artístico e perceber até onde vai a responsabilidade pública de um humorista. Deve tomar posição, deve dar lições de moral ou deve limitar-se a fazer humor? E já agora, o que esta polémica muda de fato, se é que muda alguma coisa? Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de terça-feira, 08/09. Olá, Zé Diogo, bem-vindo.

Olá, Pedro. Obrigado.

Vamos começar por te perguntar como é que tu olhas para isto. Temos aqui, nos últimos dias, sobretudo, uma série de artistas, incluindo vários humoristas, que decidiram cancelar a presença num evento onde ia atuar Jerry Seinfeld por causa das declarações e das coisas que ele tem dito sobre o conflito no Médio Oriente. Sendo humorista, como é que tu olhas para isto?

Pedro, olho com alguma perplexidade, porque se bem me lembro, 07/10/2023, o Jerry Seinfeld, que é um dos mais conhecidos humoristas e stand-up comedians do mundo, vou dizer no top três, top five de reconhecimento. Logo desde o início, em outubro de 2023, começa com declarações em que revela ser um defensor de Israel, um apoiante de Israel, e muito crítico do Hamas, obviamente, mas também da postura dos ativistas pró-palestinianos. Faz várias intervenções nesse sentido. É muitas vezes interrompido em espetáculos de comédia por hecklers que dizem: “Free Palestine” e “Stop the Genocide”. E ele faz pouco de quem faz essas coisas. Chega a dizer à saída dos eventos desportivos que lhe dizem: “Seinfeld, diz uma coisa por Free Palestine”, e ele: “Doesn’t exist.” Não existe. Outra vez diz: “Palestine doesn’t matter.” Ou estou-me a borrifar, não lembro qual é a expressão em inglês que ele diz, mas é nesse sentido. Isto nos últimos três anos, várias vezes. Entretanto, em abril, salvo erro, deste ano, o César Mourão anunciou seu festival Comédia à la Carte com Jerry Seinfeld e também um cartaz alargado de nomes da comédia e da música. Depois de Seinfeld ter tido todas essas declarações. É anunciado, esses artistas dizem que vão participar, promovem o festival. Jerry Seinfeld continua com as suas declarações depois disso. Nenhum deles chega à frente para dizer: “Afinal não.” E agora, mais ou menos há um mês, todos resolvem dizer, há aqui uma onda, porque é uns de cada vez, que não vão estar presentes por causa de Jerry Seinfeld e das suas declarações. Uns dizem diretamente, outros deixam implícito, um pouco mais sonsamente, mas sabemos que é isso que eles referem. E eu fico perplexo, porque estou no meio e nós sabemos o que é o Jerry Seinfeld, o que é que ele diz, as coisas que ele diz são comentadas, porque é um dos humoristas mais conhecidos do mundo. Eu fico perplexo por alguns destes meus colegas só terem descoberto agora. Acho estranho.

Essa pode ser uma perspectiva benevolente, que é andavam distraídos e descobriram agora. Há quem também veja isto uma espécie de ação concertada, porque assim tem mais impacto e, portanto, fala-se mais disto, o que também pode ser uma interpretação benevolente.

Sim. Quer dizer, qual impacto?

Medático, pelo menos.

Eles é que não vão. No ponto de vista mediático, para estes nomes, sim, agora as pessoas falam neles. Se calhar foi isso. O meu palpite é que a pressão das redes sociais fez-se sentir, fez-se avolumar e, no início, se calhar não era muito, era dois ou três nas páginas de Instagram deles e nos Facebook a dizer: “Atenção ao Seinfeld que é um perigoso sionista.” E a partir do momento em que começou a ser muita gente, ao início não fazia mal, agora começou a ser muita gente, é desconfortável. E eles fizeram os seus cálculos e o que em agosto não fazia mal, em setembro passou a ser. E agora tomam o que eles acham que é uma posição de princípio, violando outra posição de princípio que é: eles deram a sua palavra ou assinaram contratos, não sei, que iam estar presentes no festival sabendo de antemão todas as condições. Atenção, isso é importante. Eles não foram apanhados de surpresa com: “Malta, é verdade, quem vai subir ao palco também onde vocês vão estar é o Jerry Seinfeld.”

Porque isso é um dado importante. Este festival foi anunciado em abril, Jerry Seinfeld foi logo anunciado como cabeça de cartaz e todo o cartaz foi revelado nessa altura. Era difícil que algum destes artistas só agora tivesse descoberto que Jerry Seinfeld lá estava. Mas depois há aqui outra questão. E atenção, nada disto tem a ver com nenhum julgamento sobre o direito ao protesto e o direito a não querer participar. Claro que isso está tudo consagrado e é livre, e ainda bem, porque vivemos numa sociedade livre. Mas quando se faz declarações do gênero: não se pode compactuar com o genocídio ou relativizar um genocídio, como é que isso coloca, por exemplo, outros artistas que fazem parte do cartaz e que decidiram não tomar uma posição sobre este assunto, por mais pressão que houvesse do que quer que seja ou porque a sua consciência, por exemplo, é que mandou fazer isso?

Se tu dizes isso, que não se pode compactuar com o genocídio e há pessoas que permanecem no cartaz, estás a dizer objetivamente que essas pessoas estão a compactuar com o genocídio. Estás a fazer um julgamento moral sobre essas pessoas, que são colegas. Mas isso, atenção, as pessoas não é por serem colegas ou muitas vezes amigos que não têm as suas posições. São posições de princípio. Mas não se pode compactuar com o genocídio, mas a semana passada estava-se a compactuar com o genocídio. Estamos a falar em compactuar com o genocídio, que também é duvidoso que assim seja. O Jerry Seinfeld não participa em nenhuma ação das Forças Armadas israelitas. É um tipo que apoia, é pró-israelita. Provavelmente tem a ver também com quem é Jerry Seinfeld, que é judeu. E atenção, o que tu disseste é verdade, não está em causa o direito das pessoas de protestarem. É de valor. Tem uma posição de princípio. E atenção, é possível que haja alguns artistas que não estão no cartaz porque no início disseram: “César, é com o Jerry Seinfeld? Eu não entro.” E assim desde o início. Não é o caso destes. Uma coisa é o direito ao protesto, e tem com certeza. Outra coisa que é um bocadinho mais sensível e para mim preocupante, que é esta coisa das opiniões que estão para lá do admissível. É impossível excluir Jerry Seinfeld. Jerry Seinfeld não é uma pessoa que se possa dizer: vamos apagar o Seinfeld. Isso não existe. Ou seja, há aqui um sinal que há certo tipo de opiniões, neste caso, quando se olha para o que se passa no Médio Oriente, uma pessoa que tem uma opinião pró-Israel é vista como um pária. E nós vivemos numa democracia em que é normal as pessoas discordarem. É normal e desejável. E todos nós temos amigos, conhecidos e trabalhamos com pessoas com quem não concordamos 100%. Há aqui uma postura intransigente e radical que a mim deixa-me um bocadinho preocupado. Incomodado não diria, mas noto com preocupação.

Certo. E se sairmos aqui um bocadinho do Seinfeld, mas olharmos aqui para esta questão dos limites de que também temos estado aqui a falar um bocadinho e que este caso também nos leva a discutir. Em Portugal, nos últimos meses, tem-se discutido muito, sobretudo quando toca a humoristas, aquilo que é um limite e aquilo que não é um limite. Nós tivemos um caso muito mediático, que era o caso que envolveu a Joana Marques com os Anjos, sobre o que é que o humorista pode ou não pode dizer no exercício da sua profissão, e isso teve o desfecho, que aliás já se adivinhava, e bem. Este caso é um bocadinho diferente, ou seja, este é o tipo de opiniões que se tem e que se torna pública tendo uma plataforma gigante, como tem Jerry Seinfeld. Tu achas que uma figura pública, um humorista, deve refrear-se precisamente por causa disto quando toca a assuntos que não sejam consensuais? Ou tu és daquelas pessoas que defende a liberdade de expressão acima de muitos outros direitos?

O que eu acho é que sejas humorista ou sejas jornalista. Embora jornalista vocês estão sujeitos a um código de deontologia.

Temos mais limitações. E o humorista trabalha muitas vezes na provocação e no desafiar um bocadinho, às vezes, tocar no que é incômodo.

Exatamente. Além disso. Um humorista, um músico, um carpinteiro, o que for, estar a fazer o seu trabalho não suspende os seus direitos civis e neles se inclui o dar a sua opinião e ter opinião sobre temas. Agora, quando tens uma profissão pública em que depende das boas graças do público, que são os teus clientes. Se não, tens o teu modo de vida posto em causa, uma pessoa naturalmente vai pensar duas vezes, se calhar, antes de abrir a boca. Há umas pessoas que fazem isso mais, outras que fazem isso menos. Se calhar, o que foi que aconteceu a estas pessoas todas que cancelaram. Enquanto acharam que aquilo não os ia afetar, não fazia mal estar com o Seinfeld. A partir do momento em que temeram que pudesse acontecer um boicote nas redes sociais, em que lhes fechassem o Facebook, pensaram duas vezes: “Olha, pronto, agora não vale a pena. Agora sou virtuoso.”

E esse é um problema que também, como sabemos, tendo em conta o sucesso todo que tem, que Jerry Seinfeld não tem, dificilmente o estilo de vida dele vai mudar, independentemente das opiniões que tenha.

O meu palpite é que Jerry Seinfeld nem vai ouvir falar disso e quando ouvir vai dizer: “Ah, é sério? Ok, pronto, está bem.”

É isso. José Diogo Quintela, muito obrigado.

De nada, obrigado eu, Pedro, por teres convidado.

Obrigado e até à próxima.

Até à próxima.

Eu conversei hoje com o humorista português José Diogo Quintela sobre os cancelamentos anunciados este fim de semana de uma série de artistas portugueses que não querem atuar no mesmo festival de comédia onde atua Seinfeld. Isto por causa das posições de Seinfeld de apoio a Israel. Este tem sido claramente o grande tema a mobilizar a classe artística portuguesa para boicotes. Recentemente, quando a RTP organizou o Festival da Canção para escolher o representante português na Eurovisão, a maioria dos artistas convidados anunciou que caso ganhasse o festival para escolher o representante português para a Eurovisão, não iria à Eurovisão como forma de protesto contra a presença de Israel. No entanto, nenhum dos artistas cancelou a presença em direto nas emissões do Festival da Canção. Poderia ter sido um embaraço para a RTP, mas não foi, porque a banda que ganhou não tomou qualquer posição sobre o assunto e lá foi representar Portugal. Esta foi a História do Dia, sonoplastia do Tomás Ferreira, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Gonçalves. Até amanhã.


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