Rússia perde influência em Cuba e Venezuela e ‘agarra-se’ à Nicarágua como último bastião estratégico

A Rússia está a concentrar no Nicarágua a sua estratégia de influência na América Latina, numa altura em que Moscovo enfrenta um enfraquecimento do seu peso político e geoestratégico na região após a queda de Nicolás Maduro na Venezuela e o aumento da pressão dos Estados Unidos sobre Cuba. O reforço da cooperação militar entre o Kremlin e o regime liderado por Daniel Ortega e Rosario Murillo surge, assim, como uma tentativa de preservar presença no hemisfério ocidental num momento particularmente delicado para o Presidente russo, Vladimir Putin.

O mais recente sinal dessa aproximação aconteceu quando Julio César Avilés, chefe do Exército do Nicarágua, se reuniu em Moscovo com o ministro da Defesa russo, Andrei Belousov, para assinar um acordo de cooperação militar. Durante o encontro, Avilés transmitiu as saudações de Ortega e Murillo e manifestou ainda “apoio e admiração” pelos militares russos envolvidos na guerra na Ucrânia, numa declaração interpretada como um alinhamento político explícito com o Kremlin. Dias depois, Putin ratificou oficialmente o acordo, que prevê o aprofundamento da cooperação militar, exercícios conjuntos e partilha de informações de inteligência.

Segundo o investigador Ruslan Trad, do Atlantic Council, citado pelo El Confidencial, o principal interesse russo no Nicarágua não é económico, uma vez que o comércio bilateral ronda apenas os 120 milhões de dólares anuais, mas sim geopolítico. “O verdadeiro prémio é contar com uma plataforma avançada no hemisfério ocidental”, afirmou o especialista em guerras híbridas e política externa russa. Diversos relatórios apontam, aliás, para uma modernização de infraestruturas militares russas no território nicaraguense e para a criação de mecanismos legais de proteção do pessoal militar destacado no país. Na análise de Trad, essa presença poderá transformar o Nicarágua num potencial centro de operações cibernéticas e eletrónicas próximo dos Estados Unidos, além de servir como plataforma para operações de ingerência política e eleitoral na região.

A importância estratégica do Nicarágua aumentou drasticamente para Moscovo após a captura de Nicolás Maduro pelas forças norte-americanas, um episódio que representou um duro golpe para o Kremlin depois de anos de investimento político e financeiro no regime venezuelano. A Rússia terá aplicado mais de 10 mil milhões de dólares no apoio ao governo venezuelano, mantendo também interesses energéticos relevantes no país. Paralelamente, Cuba enfrenta atualmente forte pressão económica e política dos Estados Unidos, deixando o Nicarágua como o principal aliado regional da Rússia. “A presença continental da Rússia ficou reduzida a um único país relativamente pequeno e economicamente marginal”, sustentou Ruslan Trad.

Para o regime de Ortega e Murillo, o acordo com Moscovo surge igualmente como uma forma de reforçar a sua sobrevivência política num contexto de crescente isolamento internacional. Steven E. Hendrix, antigo diplomata norte-americano e autor do livro “O Novo Nicarágua: Lições de desenvolvimento, democracia e construção nacional para os Estados Unidos”, considera que a sobrevivência do regime depende cada vez mais de alianças externas com governos autoritários. Segundo o analista, a aproximação à Rússia faz parte de uma estratégia baseada na concentração de poder, criminalização da dissidência e fortalecimento de relações com potências dispostas a cooperar sem exigências democráticas. Hendrix defende ainda que o pacto militar não representa necessariamente uma escalada militar imediata, mas antes uma tentativa de “institucionalizar a resiliência autoritária” do sistema Ortega-Murillo.

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Ao mesmo tempo que tenta preservar influência na América Latina, Moscovo enfrenta também dificuldades noutros pontos estratégicos do globo, nomeadamente em África. A recente deterioração da situação no Mali, onde forças separatistas tuaregues e grupos ligados à Al-Qaeda intensificaram ataques contra posições apoiadas por mercenários russos e pelo Africa Corps, colocou em causa o modelo de influência que o Kremlin vinha a desenvolver no Sahel. Esse modelo assentava numa troca de apoio militar por acesso a recursos naturais e influência política, mas vários analistas consideram que a Rússia já não dispõe da capacidade logística, militar e de inteligência necessária para controlar eficazmente essas alianças. Para Ruslan Trad, o chamado “poder brando” russo está a falhar no teste de resistência imposto pela crise no Sahel.

As dificuldades externas coincidem com sinais crescentes de instabilidade e insegurança dentro da própria Rússia. Nos últimos meses, Moscovo reforçou drasticamente as medidas de segurança após sucessivos ataques com drones ucranianos em território russo. Dias antes das comemorações do Dia da Vitória, um drone atingiu um edifício próximo do Kremlin, enquanto este domingo Kiev lançou uma ofensiva com cerca de 600 drones, considerada pelas agências russas como a maior em mais de um ano. O ataque terá provocado pelo menos quatro mortos e surgiu como resposta aos bombardeamentos russos sobre Kiev na semana anterior, que causaram 25 vítimas mortais.

O ambiente de tensão interna agravou-se ainda mais após a divulgação de um relatório de um serviço de informações europeu, citado pelo portal de investigação iStories, que descreve o Kremlin em “alerta máximo” desde Março de 2026. O documento refere que Putin teme um eventual golpe de Estado ou tentativa de assassinato, especialmente através do uso de drones por elementos da elite política russa. Entre as medidas adoptadas estarão restrições severas à utilização de telemóveis por funcionários próximos do Presidente e a redução das deslocações da família presidencial às residências situadas na região de Moscovo.

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Vários analistas consideram que os reveses militares na Ucrânia, o elevado número de baixas russas e a crescente pressão interna estão a fragilizar a estratégia internacional de Putin. Para Ruslan Trad, os problemas internos e externos estão diretamente ligados. “Os reveses externos alimentam diretamente a pressão política interna: culpam-se comandantes e os serviços de segurança trocam acusações”, concluiu o investigador.

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