Referendo na Guiné-Bissau: “O regime será obrigado a recuar”

As coligações PAI – Terra Ranka, API – Cabas Garandi e o movimento Firkidja di Pubis classificam o referendo, na Guiné Bissau, como um “fracasso total”. E interpretam a abstenção, que dizem ser superior a 90%, como uma rejeição ao regime militar. Num comunicado conjunto, agradeceram ao povo pela “resposta positiva ao apelo ao boicote”.

Em entrevista à DW, o analista guineense João Conduto sublinha que avontade popular é quem mais ordena e que agora “é preciso corrigir o que está mal”. Apesar de tudo, ainda acredita que o diálogo é a única via para restabelecer a ordem constitucional na Guiné-Bissau. 

DW África: Que futuro se pode esperar para a Guiné-Bissau depois do boicote de tantos eleitores ao referendo?

João Conduto (JC): Não se consegue saber como será o futuro da Guiné-Bissau a partir do referendo de domingo. Nós temos vindo a viver numa deriva, em termos institucionais, numa irracionalidade difícil de compreender.

Há uma coisa que é certa: O povo guineense voltou a mostrar, uma vez mais, qual o caminho que quer tomar. Ou seja, ao boicotar em massa este processo de referendo, o povo demonstrou, de forma muito clara e objetiva, que não está de acordo com o caminho escolhido pelos militares e que, rapidamente, se deve pensar e pôr em prática o retorno à ordem constitucional.

DW África: É precisamente isso que diz também a oposição. Pergunto-lhe se, tal como a oposição, considera que o regime poderá estar a preparar, neste caso, um ardil para adiar as eleições?

JC: Vai certamente tentar fazer uma leitura diferente do que foi o referendo no domingo. Vai ser difícil, porque os factos são muito claros.

À lupa: A polémica sobre a nova Constituição da Guiné-Bissau

To view this video please enable JavaScript, and consider upgrading to a web browser that supports HTML5 video

Em relação às eleições, provavelmente vão tentar alterar as eleições. Mas o que eu posso dizer neste momento é que, contra um povo, ninguém pode lutar. Mesmo com engenharia política ou engenharia revolucionária, como queiramos chamar, a vontade popular é muito mais forte.

Ninguém pode vencer um povo quando ele tem consciência do caminho que quer trilhar. O que estamos a assistir é, mais uma vez, à vontade dos guineenses a prevalecer, ao boicotar de forma massiva este referendo.

DW África: Depois deste referendo de domingo, um diálogo político inclusivo, como pede a oposição, com todos os atores nacionais e com a sociedade civil, aparece, na sua opinião, cada vez mais como uma miragem na Guiné-Bissau?

JC: Não é uma miragem. Estou convencido de que, depois das incursões que o povo reprovou, as pessoas vão cair na realidade. E os países amigos da Guiné-Bissau também devem aconselhar nesse sentido.

Vai ser necessário o diálogo, porque é a única via para nós restabelecermos a ordem constitucional e podermos assumir o caminho do progresso e da construção de bem-estar para o nosso povo. Os guineenses perceberam que é preciso mudar o rumo, é preciso corrigir o que está mal.

DW África: Acredita que este regime está preparado para implementar, na prática, este “não” da população, tendo em conta este boicote?

JC: Não estou seguro de que esteja disposto a recuar. Provavelmente, não. Mas será obrigado a recuar, porque o povo é quem mais ordena, como se costuma dizer. O povo é que manda. Portanto, o regime vai ser obrigado a recuar.

Não estou a ver outra saída que não seja essa. Não vão continuar a todo o momento a espancar as pessoas e a sequestrá-las. Isso não é sustentável numa sociedade em que o povo voltou a dar, mais uma vez, um sinal que deve ser respeitado. 

Radar DW: O referendo da discórdia na Guiné-Bissau

To view this video please enable JavaScript, and consider upgrading to a web browser that supports HTML5 video

Crédito: Link de origem

- Advertisement -

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.