Paraguai rejeita fala de Lula e exige devolução de troféus de guerra

O embaixador brasileiro em Assunção, José Antonio Marcondes de Carvalho, recebeu ontem uma nota de protesto no qual o governo paraguaio “rejeita” as declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que em evento em 24 de julho, em Jacareí (SP), disse que a guerra que envolveu Brasil e Paraguai começou quando o país vizinho invadiu o território nacional, no século XIX.

A afirmação abriu um mal-estar diplomático, uma vez quer os paraguaios têm uma interpretação diferente do que foi o conflito e o consideram, ainda hoje, uma ferida não cicatrizada. Por conta disso, no documento entregue pelo vice-presidente Pedro Alliana e pelo chanceler Rubén Ramírez Lezcano, o governo de Assunção também quer a devolução de troféus de guerra e acesso a registros históricos do governo brasileiro sobre a guerra que até hoje são confidenciais.

Segundo o comunicado divulgado pela chancelaria paraguaia, Alliana e Lezcano afirmaram que o Brasil e o Paraguai são países “irmãos”, mas que o documento entregue a Marcondes de Carvalho seria o caminho para “fechar definitivamente as feridas” da guerra. “O governo do Paraguai entregou (no encontro com o embaixador) uma nota na qual expressou seu desagrado e seu absoluto repúdio às recentes declarações do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva sobre episódios da Guerra da Tríplice Aliança”, diz trecho do comunicado divulgado pelo governo paraguaio.

Porém, o documento entregue ao embaixador frisa que “as manifestações (do presidente Lula) representam de maneira distorcida feitos históricos de singular relevância para o povo paraguaio e enfatiza que os acontecimentos que marcaram profundamente a história de ambas nações devem ser abordadas com responsabilidades, respeito recíproco e espírito de reconciliação”. 

Só que os paraguaios deixaram claro que, apesar de quererem avançar para superar o mal-estar, consideram que a situação só estará pacificada com a devolução dos canhões “Presidente López” e “El Cristiano”, e de outros troféus de guerra em posse do Brasil depois da vitória no conflito. Querem, ainda, acesso a documentos classificados do governo brasileiro sobre o conflito, que dizimou aproximadamente 70% da população paraguaia. A guerra terminou com da prisão e morte do ditador Francisco Solano López, morto pelo cabo brasileiro José Francisco Lacerda, conhecido como Chico Diabo, na Batalha de Cerro Corá, em 1º de março de 1870.

Os dois canhões estão expostos no Museu Histórico Nacional (MHN), no Centro do Rio de Janeiro. Um deles foi batizado de “El Cristiano” porque o bronze utilizado na construção foi retirado de vários sinos das igrejas paraguaias. O “Presidente López” homenageia Carlos Antonio López, que governou o Paraguai a partir de 1840. Foi o primeiro presidente constitucional do país e é pai de Francisco Solano, que viria a comandar os paraguaios durante a guerra.

Conversa e distensão

A operação diplomática para conter o desgaste incluiu uma conversa telefônica entre Lula e o presidente Santiago Peña e um pronunciamento do embaixador paraguaio no Brasil, Juan Ángel Delgadillo, em defesa da condução adotada pelo governo de seu país.

Na quinta-feira, Lezcano informou que os dois presidentes reafirmaram o interesse em preservar a relação bilateral, considerada estratégica. O telefonema foi interpretado pelo governo paraguaio como parte dos esforços para encerrar o ruído diplomático.

“A dignidade do Paraguai não é negociável. Quero que saibam que, sob a liderança do presidente Santiago Peña, abordamos esta questão ao mais alto nível desde o início. A diplomacia tem seu próprio tempo e procedimentos, e acreditem, a serenidade do presidente tem sido fundamental para gerir esses tempos e procedimentos”, afirmou o embaixador.

Do lado brasileiro, a avaliação de diplomatas é de que o contato direto entre os dois presidentes contribuiu para reduzir a tensão e impedir que o episódio produzisse efeitos mais amplos sobre a agenda bilateral.

 


AH


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