A autoridade sanitária do Paraguai afirmou que as canetas emagrecedoras com registro no país cumprem as exigências sanitárias paraguaias, e disse em seguida onde essa garantia termina: na fronteira. Fora do território paraguaio, quem responde pelo medicamento é o regulador de cada país. Para quem compra do outro lado da linha, isso significa que a caixa com selo paraguaio não está autorizada a entrar, a ser vendida nem a ser usada no Brasil.
“Os produtos com registro sanitário no Paraguai cumpriram todas as exigências sanitárias, mas, fora do país, a responsabilidade e a competência são de cada autoridade reguladora”, informou a Dinavisa, a Direção Nacional de Vigilância Sanitária, à Folha de S.Paulo. Sobre a entrada das canetas no Brasil, a resposta do órgão paraguaio foi curta: “A regulamentação de medicamentos no Brasil é de competência da Anvisa”.
São duas coisas diferentes, e elas convivem. Um medicamento pode ser fabricado e vendido legalmente em farmácia paraguaia e, ao mesmo tempo, não ter registro na Anvisa para circular aqui.
A garantia paraguaia tem buraco dentro do próprio Paraguai
O que a Dinavisa assegura alcança apenas os produtos que ela mesma registrou. Boa parte do que chega a Mato Grosso do Sul está fora desse grupo.


Em fevereiro, o próprio órgão paraguaio emitiu alerta sobre a falsificação de um lote de tirzepatida que imitava o T.G. 10, da Indufar Cisa. O laboratório confirmou que não havia produzido o lote 62561, apresentado em embalagem com quatro frascos-ampola de 0,5 mL. O selo paraguaio, portanto, também é copiado.
Há ainda os produtos que nunca tiveram registro em lugar nenhum. Fiscalizações da Vigilância Sanitária estadual em Mato Grosso do Sul localizaram em encomendas itens identificados como “Tizerpatide Injection” e “Tirzegen”, conforme informações já divulgadas sobre essas apreensões. A grafia do primeiro sequer coincide com a do princípio ativo reconhecido internacionalmente, que é tirzepatida.
O quadro real tem três camadas, e não duas: o que tem registro no Paraguai e não tem na Anvisa; o que não tem registro nem no Paraguai; e o falsificado, que imita um registro paraguaio verdadeiro. Nenhuma das três situações autoriza o uso no Brasil.
Anvisa diz que nenhum laboratório paraguaio pediu registro aqui
A Anvisa informou que nenhum laboratório do Paraguai apresentou pedido de registro desses medicamentos no Brasil. Sem esse pedido, a agência vem adotando medidas contra a importação, a distribuição, a venda e o uso dos produtos encontrados no mercado.
O diretor-presidente da Anvisa, Leandro Safatle, afirmou que um eventual pedido será analisado sem considerar o país de origem. “Onde tiver um pedido apresentado aqui, nós avaliamos. Se o produto for seguro, tiver qualidade e for eficaz, vai ser registrado no Brasil”, declarou.
A ausência não é da substância. A tirzepatida tem medicamento registrado no Brasil e vendido com receita, e em junho a Anvisa liberou uma dessas apresentações para adolescentes com diabetes tipo 2 a partir dos 10 anos. O que não existe é registro brasileiro para as versões que atravessam a fronteira.
Em MS, a apreensão saiu de R$ 2 mil para R$ 5,9 milhões em dois anos
Mato Grosso do Sul está no centro da rota por causa da extensão da fronteira e do fluxo de brasileiros que cruzam a divisa para comprar. O tamanho do movimento aparece nos números da Receita Federal.
Em 2024, o Estado registrou R$ 2 mil em canetas emagrecedoras apreendidas. Em 2025, R$ 1,5 milhão. Até 13 de julho deste ano, R$ 5,9 milhões, alta de cerca de 293% sobre todo o ano passado. A base de 2024 é baixa demais para virar percentual confiável, mas serve para dar a escala: o valor de agora é quase três mil vezes o de dois anos atrás.
No país inteiro, o salto é da mesma ordem. As apreensões nacionais somavam cerca de R$ 4 milhões no primeiro semestre de 2025 e passaram de R$ 80 milhões no mesmo período deste ano, segundo levantamento da Folha de S.Paulo. Os valores não permitem calcular quantas unidades foram retiradas de circulação.
Os medicamentos aparecem em veículos, bagagens, encomendas e cargas que deixam a fronteira rumo a outros estados. Em agosto, a Polícia Rodoviária Federal encontrou quase 1,2 mil ampolas de tirzepatida escondidas nas portas de um carro em Jataí, em Goiás, depois que o motorista saiu de Maracaju, em Mato Grosso do Sul.
O primeiro caso grave em MS já foi notificado
O risco sanitário não é hipótese. Em fevereiro, uma mulher foi internada em estado grave em Ponta Porã depois de se automedicar com tirzepatida de 10 mg comprada no Paraguai. Ela deu entrada com cetoacidose diabética grave, a complicação em que o sangue acumula ácido, além de vômitos, dor abdominal e lesão renal aguda.
O caso foi comunicado à Secretaria de Estado de Saúde pelo VigiMed, sistema de notificação da Anvisa, e segue como a única notificação formal no Estado envolvendo esse tipo de medicamento. A secretaria afirma que substâncias como a tirzepatida são contraindicadas ou exigem cautela extrema em pacientes com diabetes tipo 1, pelo risco de cetoacidose.
Para o consumidor, a conclusão é a mesma que a Dinavisa deu: o registro no Paraguai não substitui a autorização da Anvisa, não torna o produto legal no Brasil e não garante que o que está dentro do frasco corresponde ao rótulo.
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