A diáspora deixa de financiar apenas a casa da família
Há, entretanto, sinais de mudança na forma como o dinheiro da emigração entra no setor imobiliário. O Banco Mundial concluiu que a atividade da construção se fortaleceu em 2025 e destacou um aumento de 15,3% no stock de investimentos de emigrantes, que ajudou a financiar projetos residenciais e comerciais no arquipélago.
É neste movimento que a Oceânica procura posicionar-se. Em vez de o emigrante acompanhar durante anos uma construção familiar à distância, a empresa propõe um produto formalizado: projeto definido, calendário de obra, possibilidade de financiamento bancário e apartamento entregue como produto final.
Vanya Ramalho explica que a companhia trabalha com bancos cabo-verdianos em diferentes projectos e que a venda em planta permite repartir os pagamentos durante o período de construção. A diferença pode parecer apenas comercial mas, na realidade, traduz uma alteração na relação histórica entre emigração, poupança e património em Cabo Verde: a remessa enviada para levantar uma casa familiar começa a conviver com o investimento imobiliário organizado. E a diáspora deixou de ser o único público.
Segundo Ramalho, além dos nacionais, a Oceânica tem já compradores de diferentes países africanos e europeus. A empresa vê aí outro mercado: estrangeiros que conheceram Cabo Verde através do turismo e começam a olhar para o arquipélago também como lugar para comprar uma segunda residência ou investir.
Do turismo de praia ao investimento imobiliário
Os números explicam parte desse interesse. Cabo Verde recebeu 1.248.052 hóspedes em estabelecimentos hoteleiros em 2025, mais 6% do que no ano anterior, e foram registadas mais de 6,1 milhões de dormidas.
O Banco Mundial considera o turismo um dos principais motores do crescimento de 6,3% registado pela economia cabo-verdiana em 2025, mas alerta para a sua concentração no Sal e na Boa Vista e para a forte dependência dos mercados europeus, responsáveis por cerca de 93% das chegadas.
É exatamente essa concentração que a Oceânica diz querer contrariar na sua comunicação. Em fevereiro de 2026, a empresa apresentou um vídeo promocional dedicado não aos seus edifícios, mas ao próprio país: montanhas, praias, cultura e quotidiano das ilhas. A iniciativa levou à assinatura de um memorando com o Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas, e recebeu apoio institucional para utilização do vídeo em eventos internacionais. Esse memorando ganharia forma mais concreta a 9 de fevereiro de 2026, quando a Oceânica assinou também um Protocolo de Cooperação com o Instituto do Turismo de Cabo Verde, que reconhece formalmente a empresa como promotora estratégica do turismo e da identidade cultural cabo-verdiana.
Na entrevista, Ramalho é crítica do modelo em que “um turista aterra no Sal, é transportado diretamente para um resort e regressa ao aeroporto depois de consumir pouco da economia local”. A Oceânica quer contrariar essa lógica, vendendo a experiência mais ampla de Cabo Verde.
O campeonato do mundo de futebol de 2026 e a histórica participação de Cabo Verde acabaram por se tornar num pilar dessa estratégica, ao acrescentar a exposição internacional que a empresa ainda não tinha previsto. Ainda é cedo para transformar atenção mediática em chegadas efetivas de visitantes, mas dados de reservas aéreas durante o Mundial apontaram para um crescimento homólogo superior a 50% nas reservas para julho e agosto.
Tarrafal: quando hotel e apartamento se encontram
No Tarrafal, a aproximação entre construção, turismo e investimento já ganhou forma física. Em janeiro de 2026 foi lançada a primeira pedra do Charme Stephanie / Oceânica 10, empreendimento que combina hotel e residência hoteleira. O projeto prevê cerca de 200 unidades, entre quartos e apartamentos T0, T1 e T2, além de espaços comerciais, restauração, sala de conferências, cinema e discoteca. A conclusão está prevista num horizonte de três anos.
O modelo permite ao comprador adquirir uma unidade integrada numa operação hoteleira, convertendo o imóvel simultaneamente em património e ativo turístico.
É uma mudança relevante para uma empresa que começou sobretudo com edifícios residenciais na Praia e que, segundo Vanya Ramalho, prepara projetos noutras ilhas, incluindo São Vicente, Sal e Boa Vista.
Construir prédios, mas também trabalhadores
Existe, porém, um obstáculo menos visível do que a falta de terrenos ou o custo dos materiais: quem vai construir? “O nosso maior problema é a mão-de-obra”, explica Vanya Ramalho. A responsável descreve dificuldades em encontrar profissionais suficientes de diferentes especialidades da construção e associa parte dessa escassez à emigração de trabalhadores cabo-verdianos. A resposta encontrada pela empresa tem passado também pela contratação de migrantes oriundos de outros países da África Ocidental e pela formação interna de trabalhadores que chegam sem especialização.
É uma inversão na história migratória do país: enquanto cabo-verdianos continuam a emigrar e a enviar capital para construir no arquipélago, trabalhadores estrangeiros chegam para participar fisicamente nessa construção.
Na entrevista, Ramalho estimou em cerca de 300 o número de trabalhadores da sua empresa, diretos e indiretos. A empresa mantém ainda equipas de arquitectura e engenharia e, segundo Ramalho, procura fazer progressão profissional dentro das próprias obras.
Que Cabo Verde está a ser construído?
A Oceânica gosta de se apresentar através de uma ideia: “uma nova forma de construir Cabo Verde”. A frase aparece, inclusive, na página institucional da empresa no LinkedIn.
A afirmação ganha significado quando colocada no contexto do país. Cabo Verde está mais urbanizado, recebe mais turistas, atrai investimento, depende fortemente da relação económica com a diáspora e enfrenta simultaneamente um défice de habitação formal, dificuldades de acesso à casa e uma longa tradição de construção por iniciativa das próprias famílias.
A Oceânica ocupa uma das frentes dessa transformação: construção privada formal, arquitectura contemporânea, turismo imobiliário e capital da diáspora.
Mas a verdadeira medida da modernização urbana cabo-verdiana não será apenas a altura dos edifícios ou o valor das penthouses.
Será a capacidade de construir cidades onde o investimento da diáspora possa conviver com as necessidades de quem nunca saiu; onde o turismo deixe mais valor na economia local; onde a arquitectura contemporânea não apague a memória dos bairros; e onde os empregos criados pelas novas obras produzam também qualificações e mobilidade social.
Nesse sentido, o projeto que está em construção é, no fundo, Cabo Verde tal como o conhecemos.
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