Na contramão da Argentina, Uruguai reduz dependência do dólar

Investidores no Uruguai estão colocando cada vez mais dinheiro em fundos de renda fixa e títulos públicos em pesos, em um movimento que mostra o avanço da moeda local e reduz a tradicional dependência do dólar no país.

Pelo menos sete fundos de mercado monetário em pesos começaram a operar neste ano, cerca do dobro do número registrado em 2025. Corretoras como Balanz e Puente e fintechs como Mercado Livre e Prex passaram a disputar esse mercado diante do aumento da procura por investimentos em pesos, algo ainda pouco comum em um país onde o dólar tradicionalmente domina as economias dos investidores.

A mudança ganhou força com a inflação controlada e a maior estabilidade dos preços. Nos últimos dois anos, o valor investido em títulos e aplicações financeiras em pesos triplicou, passando de 14 bilhões de pesos (US$ 348 milhões) no fim de maio, segundo dados oficiais.

O movimento também favorece a estratégia do presidente do Banco Central do Uruguai, Guillermo Tolosa, que colocou a redução da dependência do dólar entre as prioridades da autoridade monetária.

Presidente do Banco Central do Uruguai, Guillermo Tolosa, na sede da instituição, em Montevidéu, em 31 de março.

Direção oposta da Argentina

A direção é oposta à adotada pela vizinha Argentina. O presidente Javier Milei quer facilitar o uso do dólar no país e incentivar os argentinos a usar a moeda americana para fazer pagamentos, transações e guardar dinheiro.

Empresas que atuam nos dois mercados já perceberam a diferença.

O fundo de mercado monetário da Balanz, lançado em março, já tem mais de 155 milhões de pesos em ativos e 350 clientes, segundo Juan Jose Varela, gerente da empresa no Uruguai.

“Isso nos ajudou a alcançar investidores de varejo”, disse Varela em entrevista em seu escritório em Montevidéu. Segundo ele, muitos dos novos clientes tinham pequenas quantias paradas em contas bancárias que não rendiam juros.

O Uruguai tem uma longa história de estabilidade econômica e política, especialmente quando comparado a Argentina e Brasil. O país também se tornou destino de empresários e bilionários do setor de tecnologia, além de atrair investidores em busca de segurança na América do Sul.

Mesmo assim, o dólar continua profundamente enraizado na economia uruguaia. O histórico de desvalorizações e inflação elevada fez com que muitos moradores mantivessem suas economias na moeda americana. Caixas eletrônicos oferecem pesos e dólares, enquanto carros e imóveis costumam ter seus preços definidos em dólares.

Agora, esse cenário começa a mudar.

Uma moeda forte e uma política monetária mais rígida ajudaram a manter a inflação dentro da faixa de 3% a 6% estabelecida pelo banco central nos últimos três anos. As expectativas também estão próximas da meta de 4,5% da autoridade monetária.

Os investidores passaram a acompanhar esse movimento. A parcela dos depósitos bancários do setor privado mantida em moeda estrangeira caiu para cerca de 69% em junho, ante aproximadamente 73% quando Tolosa assumiu o comando do banco central, em março de 2025.

A corretora Gletir Corredor de Bolsa foi uma das primeiras a explorar o mercado de fundos em pesos. A empresa lançou seu fundo em 2022, mas o crescimento demorou a aparecer.

Com a inflação em queda e o dólar mais fraco, porém, o fundo ganhou força. Hoje, tem mais de 3 mil clientes e 896 milhões de pesos em ativos, segundo Monica Saravia, responsável pela família de fundos mútuos Centenario, da corretora.

A Gletir também ajudou a estruturar e administrar o fundo da Prex. Desde o lançamento, em abril, o produto já acumulou cerca de US$ 35 milhões em investimentos em pesos.

“A adesão foi muito grande. Muitas pessoas que nunca imaginaram investir agora estão fazendo isso com apenas 1.000 pesos”, disse Gabriel Genta, gestor de portfólio da Gletir, sobre o fundo da Prex.

Dívida pública

O maior interesse pelo peso também ajuda o governo uruguaio a diminuir sua dependência do dólar. Quase 57% da dívida pública do país já é denominada em pesos, mais de quatro pontos percentuais acima do nível registrado no fim de 2024.

Os títulos prefixados em pesos responderam por mais da metade dos US$ 2,1 bilhões em títulos de dívida doméstica emitidos pelo governo neste ano até julho.

A mudança é significativa. Até poucos anos atrás, os investidores preferiam títulos em pesos corrigidos pela inflação ou pelos salários, como forma de proteger o patrimônio da perda de poder de compra.

Agora, o governo está aumentando a emissão de dívida em pesos prefixados para diminuir sua exposição às oscilações do câmbio, segundo Herman Kamil, responsável pela gestão da dívida no Ministério da Economia e Finanças.

“A tendência de desdolarização da economia, embora gradual, é positiva para a demanda por nossos títulos do Tesouro em pesos”, disse Kamil.

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