Mpox: OMS confirma transmissão comunitária em Portugal e alerta para surtos em Angola e na Guiné-Bissau

Portugal já regista transmissão comunitária da subvariante clade Ib do vírus mpox, tendo reportado 66 novos casos desta linhagem nas últimas seis semanas — o número mais elevado entre os países europeus nesse período, à frente da Alemanha (24), da França (20), do Reino Unido (18) e da Irlanda (12).

Os dados constam do mais recente ponto de situação epidemiológico da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado esta semana.

Segundo a organização, “a transmissão comunitária da clade Ib MPXV [vírus monkeypox] fora da África Central e Oriental foi reportada na República Checa, França, Alemanha, Irlanda, Itália, Países Baixos, Portugal, Suíça e Reino Unido, incluindo em redes sexuais de homens que têm sexo com homens e/ou de profissionais do sexo”. Um país é classificado como tendo transmissão comunitária quando, nas seis semanas anteriores, pelo menos um caso não tiver ligação a uma viagem recente nem a um viajante proveniente de um país com transmissão comunitária durante o período de incubação — uma classificação que, sublinha a OMS, se aplica independentemente do número total de casos notificados.

Em termos cumulativos, Portugal soma já 162 casos desta linhagem específica, ficando atrás apenas de Espanha (241) e de França (173), e à frente da Alemanha (140), o que coloca o país entre os quatro europeus mais afetados por esta variante do vírus.

A nível nacional, os últimos dados mensais publicados pela Direção-Geral da Saúde (DGS) davam conta de três surtos de mpox desde maio de 2022, totalizando 1.236 casos confirmados e duas mortes. Essa informação da DGS reporta-se a 31 de maio de 2025, pelo que os números oficiais nacionais mais recentes ainda não foram atualizados publicamente. A Lusa contactou a DGS para reagir aos dados agora divulgados pela OMS, mas não obteve resposta até ao momento.

A OMS recorda ainda que, numa avaliação rápida do risco global realizada em agosto, classificou o risco associado à mpox como moderado, com novos surtos a serem reportados em vários países e mais de mil casos confirmados por mês a nível mundial. Só em julho, 32 países de quatro regiões da OMS notificaram 1.370 casos confirmados, incluindo sete mortes, cerca de três quartos dos quais em África.

É precisamente no continente africano que a situação mais se agrava. Angola tornou-se o segundo país africano com mais casos recentes da doença, tendo registado 184 novas infeções entre 6 de julho e 16 de agosto — um número apenas ultrapassado pelo de Madagáscar (785 casos no mesmo período) e superior aos do Quénia (94), da República Democrática do Congo (41) e dos Camarões (28). Com este reforço, o total acumulado de casos em Angola sobe para 274, com uma morte associada.

De acordo com a OMS, “embora tenham sido detetados casos confirmados esporádicos no final de 2024 e ao longo de 2025, registou-se um aumento acentuado do número de casos notificados desde meados de maio de 2026”. A organização precisa que oito das 21 províncias angolanas (38%) registaram casos confirmados desde 2024, mas que duas delas — Cabinda e Moxico Leste — “concentraram todos os casos confirmados desde o início do atual surto, em abril de 2026”. Só Cabinda representa 193 dos 274 casos confirmados no país, cerca de 70% do total. Separada do restante território angolano por uma estreita faixa pertencente à República Democrática do Congo, esta província “representa um risco significativo de propagação transfronteiriça”, alerta a OMS.

Os jovens adultos entre os 20 e os 29 anos são o grupo mais afetado em Angola, correspondendo a 53% dos casos confirmados, enquanto 56% das infeções foram registadas em mulheres e raparigas. As autoridades angolanas já reforçaram a resposta ao surto, “incluindo a revisão e ativação do plano nacional de resposta, a mobilização de equipas de resposta rápida a nível nacional e provincial”, bem como “a procura ativa de casos nas zonas onde existe transmissão, o rastreio e acompanhamento de contactos, a sensibilização das comunidades e a vacinação de contactos e profissionais de saúde nos municípios com maior risco de propagação”.

Também a Guiné-Bissau confirmou a presença do vírus. A OMS contabilizava, até 16 de agosto, sete casos confirmados de mpox e nenhuma morte, depois de o primeiro caso ter sido identificado a 26 de junho. Desde então, foram investigados 47 casos suspeitos, dos quais seis testaram positivo. Todas as infeções foram registadas em Bissau e arredores, e as análises genómicas identificaram a circulação do clado IIb do vírus. A OMS refere que “estão em curso medidas de resposta, incluindo a ativação do Sistema de Gestão de Incidentes, a investigação de casos, o rastreio de contactos, a gestão dos casos, a comunicação de risco e o envolvimento das comunidades”.

A mpox é uma doença infecciosa causada pelo vírus monkeypox, que se pode manifestar através de febre, dores de cabeça intensas, dores musculares e articulares, aumento dos gânglios linfáticos e lesões na pele ou nas mucosas, que surgem progressivamente sob a forma de manchas, bolhas e feridas. A transmissão ocorre por contacto físico próximo — nomeadamente com lesões ou fluidos corporais — ou por contacto com material contaminado, como lençóis, toalhas ou utensílios pessoais.

LUSA/HN/AL

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