Mounjaro do Paraguai: trio suspeito de vender medicamentos irregulares é alvo da polícia em Canoas

Polícia Civil em Canoas mira trio que vendia canetas emagrecedoras ilegais do Paraguai.

A Polícia Civil realiza na manhã desta sexta-feira (11) uma operação contra um trio suspeito de comprar medicamentos emagrecedores provenientes do Paraguai para revender em cidades da região metropolitana de Porto Alegre. Três mandados de prisão temporária foram cumpridos no bairro Guajuviras, em Canoas, pelos crimes de associação criminosa e adulteração de medicamentos.

Entre os alvos está um casal — um homem de 34 anos e uma mulher de 26 —, além de um homem de 31 anos, suspeitos de comprar, transportar e vender os produtos irregulares. Os nomes dos presos não foram divulgados.

Como funcionava o esquema

  • Conforme a investigação da Polícia Civil, o grupo vendia ampolas de um medicamento à base de tirzepatida — mesmo ativo do Mounjaro — de uma marca paraguaia que tem comercialização, importação e uso proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil
  • Os produtos eram comprados fora do país e trazidos para o RS para a venda. Em muitos casos, eram armazenados e refrigerados de forma inadequada, aumentando o risco à saúde dos consumidores
  • Por meio de posts em grupos de WhatsApp e no Instagram, os suspeitos faziam a divulgação dos medicamentos e de promoções, atraindo os compradores dos produtos
  • Cada ampola era vendida por cerca de R$ 400, enquanto a caixa com quatro frascos era anunciada por cerca de R$ 1,4 mil
  • A polícia ainda não conseguiu mensurar o montante financeiro movimentado pelo grupo a partir da venda dos produtos ilegais, mas estima que ultrapasse os R$ 200 mil

O que aponta a investigação

A apuração do caso começou em maio, após uma denúncia anônima à Polícia Civil indicar a existência do grupo criminoso. A partir das pistas, as autoridades cumpriram mandados de busca e apreensão na residência do casal, em Canoas, no final de agosto. No local, foram encontradas caixas vazias dos medicamentos.

Durante as diligências, a polícia apreendeu aparelhos celulares, que passaram por análise pericial. Mensagens e imagens presentes nos telefones demonstraram a venda e negociação dos produtos ilícitos há pelo menos um ano.

Nas redes sociais, os bandidos chamavam a ampola paraguaia de “mom mom” — em referência ao Mounjaro — e “queridinho do emagrecimento”. Já nas conversas privadas entre os integrantes do grupo criminoso, as ampolas eram chamadas de “camisetas”, em uma tentativa de mascarar a atividade ilícita.

Risco à saúde

Em trecho das conversas investigadas, um dos suspeitos repreende o outro afirmando que não pode transportar as ampolas no bolso, em razão do controle da temperatura do medicamento. A reclamação teria surgido de um comprador, que teria visto o homem tirando o medicamento do bolso durante a entrega.

“Ele disse que tu tirou do bolso”, disse um dos suspeitos.

“Eu desci do carro e coloquei no bolso”, respondeu outro integrante do grupo criminoso.

“Não pode, gay. Teu bolso deve tá uns 30 graus com o calor do corpo, mas tnc dele. Só cuida”, advertiu um dos suspeitos. 

“Vai se f*der. Não entrego mais para ele. Me tirou do sério”, concluiu o entregador do medicamento.

— Quem compra esse tipo de produto na internet ou de fornecedores clandestinos está colocando a própria vida em risco, pois o conteúdo dessas canetas pode conter contaminações graves, doses letais ou simplesmente não ter efeito terapêutico. Nosso objetivo prioritário é proteger o cidadão e responsabilizar criminalmente quem lucra com a saúde alheia — explicou a delegada Luciane Bertoletti, titular da 3ª Delegacia de Polícia (DP) de Canoas, que liderou a operação.

Entenda

Os medicamentos usados para o tratamento de obesidade e diabetes tipo 2 que causam emagrecimento precisam ser refrigerados porque contêm proteínas sensíveis ao calor. Eles podem perder a eficácia se expostos a temperatura inadequada.

Atualmente, a Anvisa libera o uso dos seguintes medicamentos do tipo GLP — que imitam hormônios naturais do corpo para regular o açúcar no sangue e diminuir o apetite:

Primeiros produtos a entrarem no mercado

  • Ozempic (semaglutida — Novo Nordisk)
  • Wegovy (semaglutida — Novo Nordisk)
  • Saxenda (liraglutida — Novo Nordisk)
  • Victoza (liraglutida — Novo Nordisk)
  • Mounjaro (tirzepatida — Eli Lilly)
  • Zepbound (tirzepatida — Eli Lilly)
  • Poviztra (semaglutida — Parceria Novo Nordisk e Eurofarma)

Novos Genéricos e similares

  • Ozivy (EMS)
  • Semavy (Cosmed)
  • Semaclique (Germed)
  • Owozy (Ávita Care)
  • Yluméc (EMS)
  • Zempneo (Brainfarma)
  • Seemasun (Sun Pharma)
  • Orsema (Ranbaxy)
  • Semaglutida Genérica (EMS)
  • Olire (EMS)
  • Lirux (EMS)
  • Liraglutida Genérica (EMS)
  • Mounjaro Multidose (tirzepatida — Eli Lilly)
  • Liraclick (liraglutida — Germed Farmacêutica)

Além disso, conforme a Anvisa, todos os produtos do tipo regularizados no Brasil são na forma de canetas injetáveis. As ampolas não têm registro na Anvisa, sendo comercializadas, sobretudo, no mercado clandestino e proveniente de contrabando.

Produtos irregulares prejudicam a saúde

Conforme o endocrinologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Fernando Gerchman, qualquer tratamento com medicamentos do tipo deve ser feito com acompanhamento médico. Para o uso ser seguro e eficaz, os medicamentos devem ser registrados e aprovados pela Anvisa. Ampolas e canetas clandestinos ignoram os padrões rigorosos de qualidade da indústria farmacêutica, expondo o consumidor a formulações com pureza duvidosa e dosagens incorretas.

Embora os danos ao organismo nem sempre surjam de imediato, o risco cumulativo a longo prazo é alto, podendo ocorrer infecções, pancreatite, superdosagem, insuficiência hepática, doenças autoimunes e até câncer, de acordo com o especialista.

Em resposta a Zero Hora, a Anvisa informou que esses medicamentos “têm comercialização permitida somente em farmácias e drogarias devidamente regularizadas nas vigilâncias sanitárias locais e estão sujeitos a retenção de receita para a venda.” Portanto, qualquer produto adquirido fora de farmácia ou drogaria “não tem qualquer garantia de procedência, composição ou conservação”.

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