Mãe de jogador do Haiti mora em Novo Hamburgo: “O sonho dele era ser jogador, ele me dizia que eu iria vê-lo na TV”

Marie posa orgulhosa com a camisa do filho.

Aqueles olhos molhados e a voz de choro traziam um presságio. Era uma cena repetida. O pequeno Carlens saia para as ruas de Porto Príncipe para jogar futebol, mesmo com chuva. Era briga na certa.

Encharcado, ele voltava para casa com sua bola de meia. Era recebido sem sorrisos pela mãe Marie Dilene.

— Eu não queria que ele jogasse porque ele ficava doente. Ele me dizia que por causa do futebol, eu ia ver ele na TV — conta Marie, 62 anos.

Carlens é Carlens Arcus, lateral-direito titular do Haiti na Copa do Mundo. Haitiana, Marie vive em Novo Hamburgo há quatro anos. Mora em um apartamento junto com o neto Bilda, 17 anos. Ao lado, moram a filha e outros dois netos.

Arquivo pessoal / Reprodução
Carlens Arcus é figurinha carimbada no álbum da Copa do Mundo e no time do Haiti nos EUA.

Caminho até o RS

São seis anos longe do país que foi a sua casa. A primeira parte do período zanzou por Espanha, Itália e França. Depois chegou ao Rio Grande do Sul. O frio por aqui é menos rigoroso do que na Europa, explica ela.

Ela veste um volumoso casaco preto. Um pano também preto cobre os cabelos. O apartamento com porta de vidro fica no fundo do prédio. Está sentada em um sofá de canto marrom. Na outra borda do móvel, Bilda serve de tradutor. Ele veste camisa e calção dados de presente pelo tio.

O apartamento de piso frio tem dois quartos e banheiros. A pequena mesa de quatro lugares fica a dois passos de distância do sofá. Não há um único excesso. Nas paredes, uma televisão e um quadro com diversas fotos suas são os únicos adornos.

Projeto Novos Imigrantes

O português ainda é rudimentar. Marie está prestes a concluir o primeiro nível das aulas do projeto Novos Imigrantes, do Centro Cultural Eintracht, em Campo Bom. A câmera e as perguntas também parecem intimidar.

— Estou muito feliz, muito contente. É muito emocionante. O sonho dele era ser jogador — comenta.

Hino e emoção

Sexta-feira (19), no jogo contra o Brasil, Marie se levantou do sofá, colocou a mão no peito e cantou o hino junto com o filho.

Carlens começou a carreira no Brasil. Certo dia alguns brasileiros o viram jogando futebol em Porto Príncipe. Ali, ao acaso, surgia uma carreira mundialista. 

— Eles disseram que ele tinha que viajar com eles para jogar no Brasil — lembra.

Assim foi. Entre 2011 e 2012, jogou pelo Olé Brasil, clube extinto de Ribeirão Preto-SP. Voltou para o Haiti para jogar pelo Racing Club Haïtien antes de ir para o futebol francês. Também atuou na Holanda e na Bélgica.

Desde 2024, defende o Angers, 13º colocado no Campeonato Francês.

No aguardo do visto

Marie e Bilda aguardam a liberação do visto americano para viajarem aos Estados Unidos. Passearão ao lado de um jogador de Copa do Mundo.

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