Indústria de defesa que mais cresce na América do Sul pode se tornar estratégica para potências militarizadas
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- Em 2025, gastos militares do Brasil subiram 13 %, atingindo US$ 23,9 bilhões, o maior da América do Sul, segundo o SIPRI.
- O aumento foi impulsionado pela modernização naval, investimentos tecnológicos das Forças Armadas e pela expansão da Base Industrial de Defesa (BID).
- A BID, com cerca de 80 exportadoras que atendem 140 países, registrou recorde de exportação de produtos militares, representando 3,5 % do PIB nacional.
- A Avibras, em recuperação judicial desde 2022, recebeu investimento de Joesley Mendonça Batista (J&F/JBS) no final de 2025, atraindo interesse internacional pela demanda de foguetes e mísseis de médio alcance.
Segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), os gastos militares do Brasil expandiram 13% ao longo de 2025, atingindo o patamar de US$ 23,9 bilhões, o maior do continente sul-americano.
A média global foi de 2,9%, em um contexto de militarização ascendente.
Os principais impulsionadores do gasto brasileiro em defesa foram os programas de modernização naval e os investimentos tecnológicos das Forças Armadas, além dos aportes na Base Industrial de Defesa (BID) do país.
A Base Industrial de Defesa brasileira é composta por centenas de empresas que atuam em segmentos variados, de armas e munições a tecnologias de ciberdefesa e sistemas navais, além de manter parcerias de produção com empresas internacionais.
Atualmente, a BID brasileira estabelece relações comerciais com cerca de 140 países e conta com 80 empresas exportadoras, que respondem por pelo menos 3,5% do PIB nacional.
No mesmo período em que mais expandiu os gastos em defesa, o Brasil também bateu recorde na exportação de produtos militares da BID. Os produtos e serviços do setor geraram receitas de US$ 3,1 bilhões, o equivalente a um crescimento de 74% em relação a 2024 e mais do que o dobro do registrado em 2023.
Importante para o crescimento continuado do setor de tecnologias militares é o reinício oficial das atividades da Avibras, uma das gigantes da fabricação militar do país, responsável por sistemas de artilharia utilizados pelo Exército Brasileiro.
O retorno, anunciado oficialmente no final de 2025, vem acompanhado dos investimentos do empresário Joesley Mendonça Batista, um dos controladores do conglomerado J&F, do qual faz parte a JBS S.A., a maior processadora de carnes do mundo.
A operação ocorre após anos de indefinição acerca das atividades da Avibras, que iniciou, em 2022, um processo de recuperação judicial com dívidas avaliadas em cerca de R$ 600 milhões.
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O interesse internacional pela companhia cresceu especialmente por causa da explosão da demanda global por sistemas de foguetes, artilharia e mísseis de médio alcance, vistos como mais promissores para as guerras modernas e que receberam protagonismo nos conflitos da Ucrânia e do Oriente Médio.
No setor aéreo, a Embraer registrou recorde de pedidos de seu portfólio em 2026, com o setor de defesa crescentemente mais interessado no cargueiro militar desenvolvido pela companhia para substituir o modelo mais antigo da fabricante Lockheed Martin, o C-130 Hercules. O KC-390 Millennium tornou-se o modelo mais requisitado do portfólio militar da Embraer.
No primeiro trimestre de 2026, foram entregues 44 aeronaves, contingente 47% maior do que no mesmo período de 2025.
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Em 2026, o orçamento aprovado para o Ministério da Defesa brasileiro é de R$ 142,5 bilhões. Embora a maior parte seja destinada ao pagamento de despesas obrigatórias com pessoal, como fundos de aposentadoria e pensões, há uma regra que destina até R$ 5 bilhões anuais para projetos estratégicos de defesa nacional, valor excluído das limitações do arcabouço fiscal.
Os recursos continuam focados em reestruturar programas e acelerar projetos da Base Industrial de Defesa brasileira. O Exército planeja dobrar os investimentos em seus programas estratégicos, que passam de cerca de R$ 1,4 bilhão para até R$ 2,8 bilhões anuais.
Em geral, os principais parceiros comerciais do Brasil no setor de defesa, focados na exportação de produtos da BID, são Alemanha, Bulgária, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos e Portugal.
A BID brasileira mantém relações comerciais com cerca de 148 países, e os principais produtos exportados incluem aeronaves da Embraer, blindados e sistemas de comunicação.
Das 307 empresas exportadoras do setor, destacam-se a Embraer, gigante do setor aeroespacial brasileiro e terceira maior fabricante de aeronaves do mundo; a AEL Sistemas, empresa de eletrônica e sistemas de defesa que atua com aviões, veículos blindados e comunicações seguras; a Helibras, fabricante de helicópteros e componentes aeroespaciais; a IMBEL (Indústria de Material Bélico do Brasil), estatal de armamentos, munições e equipamentos militares; a Taurus Armas; e a Avibras.
Um dos destaques da BID tem sido a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), que se tornou uma das maiores fabricantes de munições leves do mundo, com bases produtivas nos Estados Unidos e na Europa, conhecida sobretudo pelo fornecimento para países-membros da OTAN.
A companhia funciona sob regime de economia mista, com participação estatal não majoritária e controle privado, além de deter posição dominante na produção brasileira de munições para armas de fogo.
Ela faz do Brasil o segundo maior exportador de munições das Américas, atrás apenas dos Estados Unidos.
O rearmamento mundial, marcado pelo crescimento dos orçamentos destinados a tecnologias de defesa, tem como um de seus principais focos a Europa. Os parceiros comerciais do Brasil no setor de defesa — especialmente Alemanha, Bulgária e Portugal — são peças importantes do processo de modernização militar da OTAN.
Desde 2022, com a invasão russa da Ucrânia, o governo alemão passou a ampliar significativamente seus gastos em defesa.
O país, considerado a 12ª maior potência militar do mundo segundo o ranking Global Firepower (com pontuação de 0,2463 no índice), prevê alcançar, até 2030, um contingente de 460 mil militares disponíveis, incluindo mais de 200 mil reservistas. Atualmente, tem cerca de 185 mil militares em atividade.
A Alemanha já ocupa a sétima posição mundial em gastos com modernização militar e equipamentos de defesa, com aproximadamente US$ 71,2 bilhões movimentados no setor ao longo de 2025.
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Com a tendência de crescimento das atividades militares e dos investimentos em defesa, o Brasil se apresenta como uma alternativa diplomaticamente “neutra” para negócios militares internacionais, já que não tem alinhamento rígido a um eixo geopolítico específico.
Além disso, o país tem vantagem competitiva no setor de defesa devido à relativa autonomia tecnológica, com ecossistema produtivo diversificado e institutos de desenvolvimento voltados tanto para aplicações civis quanto militares.
A indústria nacional, embora incipiente, tem planos de expansão em diferentes frentes tecnológicas, como submarinos movidos a energia nuclear, sistemas avançados de mísseis e sistemas de comunicação integrados à inteligência artificial e drones.
Nas maiores licitações internacionais, o Brasil costuma exigir transferência de tecnologia e conhecimento, o que amplia a assimilação técnica nacional e permite que o país preste serviços continuados de manutenção, modernização e assistência militar.
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