A inadimplência das famílias brasileiras atingiu em julho o maior nível desde março de 2011. Segundo dados divulgados pelo Banco Central nesta sexta-feira (28/08), o indicador passou de 5,4% em junho para 5,8%. O avanço mostra que a pressão financeira sobre os consumidores continua forte, mesmo com a redução gradual dos juros médios cobrados nas operações de crédito.
O cenário fica ainda mais pesado quando considerado o crédito livre. Nessa modalidade, em que as taxas são negociadas entre bancos e clientes, a inadimplência das pessoas físicas subiu de 7,4% para 7,8%, o maior nível da série histórica. No crédito direcionado, a inadimplência também atingiu recorde, avançando de 3% para 3,4%.
A deterioração das famílias puxou para cima a inadimplência geral do sistema financeiro. O indicador chegou a 4,9% em julho, contra 4,6% em julho. No crédito livre, passou de 6,0% em junho para 6,4%, enquanto no crédito direcionado avançou de 2,7% para 2,9%. Entre as empresas, a inadimplência também aumentou no crédito livre, de 4,0% para 4,2%, e no direcionado, de 2,0% para 2,1%. No total, passou de 3,2% para 3,3%. Nenhum desses percentuais para pessoas jurídicas, porém, atingiu recorde.
Outro dado chama atenção. O comprometimento da renda das famílias continuou avançando em junho e alcançou um novo recorde na série histórica iniciada em março de 2011. O indicador, que mostra quanto do orçamento mensal é destinado ao pagamento das parcelas das dívidas, subiu de 28,5% em maio para 28,9% em junho. O aumento ocorreu mesmo com o funcionamento do Desenrola 2.0, lançado no quinto mês do ano pelo governo federal para facilitar a renegociação de dívidas com juros mais baixos.
Quando o financiamento imobiliário é retirado do cálculo, o comprometimento da renda também aumentou, passando de 26,2% para 26,6%. Já o endividamento das famílias recuou marginalmente em junho, de 49,9% para 49,8%. Ainda assim, o indicador permanece em níveis elevados em relação à média histórica. Sem considerar o crédito habitacional, o endividamento caiu de 31,1% para 30,8%.
Vale lembrar que os indicadores de endividamento e comprometimento de renda apresentam defasagem de dois meses em relação ao período da divulgação. Ou seja, os dados divulgados agora refletem uma fotografia anterior da situação financeira das famílias, e não necessariamente o quadro exato observado no fim de agosto.
O conjunto dos números aumenta a pressão sobre o mercado de crédito brasileiro. Bancos, especialistas e autoridades acompanham de perto a evolução da inadimplência, enquanto empresas também acumulam casos de recuperações judiciais e extrajudiciais. Os programas de renegociação lançados pelo governo tentam aliviar parte desse problema, mas o Banco Central também já anunciou que prepara medidas para reduzir o risco de crédito, principalmente diante do peso de modalidades mais caras no endividamento das famílias.
Há uma contradição importante nos dados. A queda dos juros médios não está conseguindo impedir a piora da inadimplência. Com a redução gradual da taxa Selic, que serve de referência para as demais taxas de mercado, e os efeitos do Desenrola, o juro médio do crédito total caiu de 33,3% ao ano em junho para 32,1% ao ano em julho. No crédito livre, recuou de 49,7% para 47,7% ao ano. No direcionado, passou de 12,2% para 12,1%. Para as famílias no crédito livre, a queda foi mais expressiva, de 63,9% para 60,0%. Entre as empresas, porém, houve alta, de 24,3% para 25,4%.
Nas modalidades mais caras para as pessoas físicas, a redução dos juros ainda deixa taxas extremamente elevadas. O rotativo do cartão de crédito caiu de 442,4% ao ano em junho para 436,2% em julho, equivalente a aproximadamente 15% ao mês e 14,9% ao mês. No parcelado do cartão, a taxa recuou de 191,4% para 189,3% ao ano. O cheque especial caiu de 139,9% para 137,3%, enquanto o crédito pessoal sem garantia passou de 149,5% para 130,1%. Essas modalidades estão entre as operações alcançadas pelo Desenrola para famílias.
A concessão de crédito também perdeu força em julho. O volume total caiu 1,6% em relação a junho, para R$ 736,8 bilhões. No crédito livre, a retração foi de 1,9%, para R$ 656,1 bilhões. Dentro desse segmento, as concessões para famílias cresceram 6,1%, alcançando R$ 359,3 bilhões, enquanto os desembolsos para empresas recuaram 10%, para R$ 296,9 bilhões.
No crédito direcionado, o movimento foi diferente. As concessões totais aumentaram 1,0% em julho, chegando a R$ 80,7 bilhões. Para as famílias, houve queda de 0,2%, para R$ 47,1 bilhões, enquanto as empresas registraram alta de 2,4%, alcançando R$ 33,5 bilhões.
(BC)
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