França propõe ‘autonomia’ à Córsega após distúrbios na ilha – Atualidade

“Estamos prontos para chegar a uma autonomia” para a Córsega, disse o ministro francês em entrevista ao jornal “Corse Matin” na noite de terça-feira (15).

“A questão é saber o que é essa autonomia. Temos que discutir isso. E isso vai levar tempo”, explicou Darmanin.

O governo francês encarregou o ministro do Interior de tratar a questão do “futuro” da Córsega, em um contexto de manifestações e de distúrbios na ilha, devido ao brutal ataque na prisão a um separatista corso.

Em 2 de março, um detento do presídio de Arles (sul), apresentado como “jihadista”, tentou asfixiar Yvan Colonna, o mais famoso dos ativistas da Córsega, condenado pelo assassinato do prefeito Claude Erignac em 1998.

A agressão trouxe à tona uma série de reivindicações dos nacionalistas corsos, como maior autonomia política, entrega de detentos para as prisões da ilha e reconhecimento do povo, ou do idioma, corsos.

“É urgente construir uma solução política real com a Córsega”, disse na segunda-feira (14) à AFP o presidente regional, o nacionalista Gilles Simeoni, depois que Paris anunciou o início de um “ciclo de discussões”.

Darmanin abre este ciclo hoje, durante sua visita à Córsega, que ocorre na reta final do primeiro mandato do presidente Emmanuel Macron. O centrista tentará a reeleição na disputa eleitoral de 10 e 24 de abril.

Na entrevista ao “Corse Matin”, o ministro do Interior antecipou que o candidato Macron definirá em breve seus planos para a ilha. Sua proposta de possibilitar uma “autonomia” já recebeu, no entanto, críticas de seus adversários.

A candidata de direita, Valérie Pécresse, acusou o presidente de “ceder à violência”, referindo-se aos distúrbios em Bastia, segunda maior cidade da ilha do Mediterrâneo, que deixaram 102 feridos no domingo, incluindo 77 policiais.

“Recuso-me a permitir que o clientelismo cínico de Emmanuel Macron rompa a integridade do território francês: a Córsega deve permanecer francesa”, tuitou Marine Le Pen, de extrema direita, logo atrás do presidente nas pesquisas de intenções de voto.

– “Relação de desconfiança” –

A proposta de maior autonomia para a ilha foi vista com bons olhos pelos candidatos de centro-esquerda. “É a oportunidade de sair de uma relação de desconfiança entre a Córsega e o Estado francês”, afirmou o ambientalista Yannik Jadot.

De acordo com recente pesquisa do Ifop, 53% dos franceses são a favor de uma maior autonomia para a Córsega, incluindo o poder de legislar. Cerca de 60% rejeitam sua eventual independência da França.

Em um país menos descentralizado que seus vizinhos Espanha e Alemanha, por exemplo, a Córsega desfruta de um “status” particular desde 1990, semelhante ao dos territórios franceses no Caribe – Guadalupe e Martinica – e ao de Mayotte, no Oceano Índico.

Desde janeiro de 2018, a Córsega é considerada uma coletividade territorial, combinando funções departamentais e regionais e administrando novos poderes como esportes, transportes, cultura e meio ambiente.

No poder desde 2015, os dirigentes nacionalistas vão mais longe, porém, e pedem, entre outras demandas, “status” de residente para se adquirir bens na ilha turística e maior margem de manobra fiscal.

Antes de se abrir para esta rodada de diálogo, Paris tomou algumas decisões simbólicas para acalmar as tensões, mas que são consideradas fundamentais para uma ilha que, durante quatro décadas, foi abalada pelos ataques da Frente de Libertação Nacional da Córsega (FLNC).

O primeiro-ministro francês, Jean Castex, retirou um “status” especial para Colonna e outros dois membros do “comando Erignac”, Pierre Alessandri e Alain Ferrandi. A medida abriu caminho para sua transferência para as prisões corsas.

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