Especialistas apelam ao fim do estigma na comunicação da obesidade

Para melhorar a comunicação sobre a doença, a Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO), a Associação Portuguesa de Pessoas que Vivem com Obesidade (ADEXO) e a Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil lançaram o guia “As palavras pesam – Como falar de obesidade”.

Divulgado a propósito do Dia Nacional da Luta contra a Obesidade, que se assinala no sábado, o documento reúne recomendações dirigidas a profissionais de saúde, instituições académicas, entidades governamentais e comunicação social.

O guia defende uma linguagem centrada “na pessoa, isenta de juízos críticos, atribuições de culpa, rótulos e simplificações”, privilegiando expressões como “pessoa que vive com obesidade” em vez de “pessoa obesa”.

A obesidade deve ser reconhecida como doença crónica multifatorial e não como resultado de escolhas individuais, devendo também ser valorizado o esforço associado à mudança de comportamentos, mesmo quando os resultados não são imediatos.

Segundo o documento, deve ser evitada linguagem pejorativa sobre o tamanho da pessoa, o seu peso ou a sua relação com a comida.

Recomenda ainda evitar expressões como “luta contra a obesidade” ou “vencer a obesidade”, classificações como “obesidade móbida” e imagens estereotipadas que retratem pessoas com obesidade como sedentárias, tristes ou pouco saudáveis.

O presidente da ADEXO, Carlos Oliveira, criticou, em declarações à agência Lusa, a forma como a obesidade é retratada nos ‘media’.

“O principal problema que existe na comunicação é a forma como a maioria, especialmente os jornalistas, a encaram. Em vez de termos uma comunicação positiva, temos uma comunicação negativa”, lamentou.

Carlos Oliveira afirmou que, na maioria dos jornais, a cobertura jornalística sobre obesidade recorre a imagens como “um hambúrguer ou um meio corpo muito gordo”, o que considera não corresponder à realidade.

“As pessoas com obesidade têm vidas, fazem coisas, não são assim. E é muito importante desmistificar isto e mostrar de forma positiva aquilo que é a vida destas pessoas”, salientou.

O responsável exemplificou que o primeiro contacto de uma pessoa com obesidade com um médico é frequentemente tratado como “um momento zero”, mas sublinhou que “por trás do que se vê está uma vida inteira de luta”, com tentativas de controlo do peso e recaídas.

Carlos Oliveira vincou ainda que a obesidade é uma doença biológica, em que “a grande maioria dos doentes são resistentes à leptina e não conseguem queimar gordura”.

“Só queimam gordura em situações extremas. Isto é um problema biológico e não comportamental,” com o cérebro a induzir a ingestão alimentar para garantir energia e sobrevivência, referiu, questionando: “Porque é que havemos de afundar ainda mais estas pessoas, pondo as coisas da forma como se põem”.

O presidente da SPEO, José Silva Nunes, acrescentou que persiste na sociedade uma visão que estigmatiza e discrimina a pessoa com obesidade, associando-a à falta de força de vontade, quando se trata de uma doença neurobiológica de base genética, crónica e de “uma complexidade extrema”.

“Esta visão da sociedade intrincada ao longo de décadas tem que ser desconstruída”, disse, defendendo a importância da comunicação social ajudar a alinhar a narrativa com a evidência científica atual.

Para o responsável pelo serviço de endocrinologia, diabetes e metabolismo da ULS São José, em Lisboa, essa mudança deve ocorrer ao nível da linguagem, mas também nas imagens utilizadas.

“Quando se fala de pessoas com obesidade, estas são às vezes ridicularizadas ou alvo de chacota. Só com a ajuda da comunicação social é que nós conseguimos mudar a forma como a sociedade ainda vê a doença obesidade e a pessoa que vive com essa doença”, salientou.

José Silva Nunes defendeu ainda ser necessário atuar junto dos profissionais de saúde, para evitar discursos como “coma menos e mexa-se mais”.

“Quando se mantém a ideia de que a obesidade resulta apenas de falta de força de vontade, está-se a perpetuar desigualdades e estigma”, afirmou.

Segundo dados do Eurostat de 2025, o peso em excesso afeta 38,2% da população adulta em Portugal e a obesidade 17%.

Entre crianças dos sete aos nove anos, em 2022, 31,9% apresentava peso em excesso e 13,5% obesidade.

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