Eleição por poucos votos prenuncia turbulência no Peru – 20/06/2026 – Opinião

Com mais de 95% dos votos revisados, a apuração do segundo turno das eleições presidenciais do Peru já se vê maculada por contestações.

A vantagem minúscula da candidata Keiko Fujimori, da direita populista, foi posta à prova pelo adversário, Roberto Sánchez, que formalizou denúncias de manipulação de cédulas em Lima e nos EUA e solicitou a anulação desses votos —apesar de o postulante esquerdista ter afirmado, antes do pleito, que respeitaria o resultado das urnas.

Seja qual for o desfecho oficial, a superação do caos político vivenciado no Peru há uma década parece distante. A frágil maioria da futura ou do futuro presidente —e serão dez em dez anos— tende a ameaçar seu mandato.

O último presidente a cumprir os cinco anos no poder foi Ollanta Humala (2011-2016). Desde então, quatro acabaram destituídos pelo Congresso, munido de superpoderes pela Constituição de 1993, e outros três renunciaram.

José María Balcázar, empossado em fevereiro para o período de cinco meses, foi o terceiro a suceder Pedro Castillo, eleito em 2021 e ceifado no ano seguinte após tentar um golpe de Estado.

Defensora do legado da ditadura de seu pai, Alberto Fujimori, nos anos 1990, Keiko angariou pouco mais de 50% dos votos válidos; Sánchez, do Juntos pelo Peru, pouco menos. A diferença é de dezenas de milhares num universo de 27,3 milhões de eleitores.

Keiko fracassou nas três últimas disputas. Como líder do Força Popular, entretanto, contribuiu para a alta mobilidade de titulares da Casa de Pizarro e a instabilidade política do país.

O partido fujimorista responde pela maior bancada no Congresso peruano desde 2016, ainda sob o modelo unicameral. A eleição legislativa de março indica que a legenda manterá peso relevante no Parlamento, que volta a ser bicameral com a posse dos deputados e senadores em julho.

Os cenários são preocupantes. Uma eventual derrota de Keiko pode desencadear, no Legislativo, um movimento de desestabilização do governo eleito.

A vitória da direitista tampouco prenuncia tranquilidade. Dada sua agenda de combate à criminalidade, com traços da truculência do regime de seu pai, não estará imune à inflexibilidade da segunda maior bancada nas duas Casas legislativas, a do Juntos pelo Peru, e a protestos populares incitados pela esquerda.

Num país onde o manejo da economia não é o problema, o moto-contínuo de turbulência institucional só terá fim com um mínimo de consenso político em torno do interesse nacional.

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