Uma declaração recente do presidente Lula está causando alvoroço no Paraguai. Na última sexta-feira, dia 24 de julho, durante uma visita à fábrica da Avibras, Lula evocou um episódio da Guerra do Paraguai para justificar maiores investimentos em defesa. “Nós gostamos da paz, mas não podemos esquecer que, certa vez, o Paraguai decidiu invadir o Brasil”, relembrou o mandatário.
Políticos, jornalistas e influenciadores paraguaios reagiram com indignação, acusando Lula de “distorcer a história” — refletindo uma corrente tradicional da historiografia paraguaia que atribui à responsabilidade pelo início do conflito à intervenção brasileira no Uruguai. A polêmica se espalhou pelas redes sociais, onde abundaram manifestações eivadas de chauvinismo e interpretações criativas dos fatos históricos.
Alguns políticos conservadores paraguaios aproveitaram a ocasião para retomar um debate antigo: a devolução do canhão Cristiano e de outros objetos e documentos pilhados pelas forças brasileiras como “troféus de guerra”. Há décadas o governo paraguaio reivindica a devolução do Cristiano, uma das relíquias mais valiosas da Guerra do Paraguai, mas foi somente no segundo mandato de Lula que o processo de repatriação do canhão começou a ser discutido.
O Cristiano
Considerado o maior conflito internacional já ocorrido na América do Sul, a Guerra do Paraguai se prolongou por mais de cinco anos, de 1864 a 1870, opondo o Paraguai à aliança militar formada por Brasil, Argentina e Uruguai.
A guerra se converteu em um fator determinante para a evolução das relações geopolíticas no continente e teve consequências devastadoras para o Paraguai, resultando no desmembramento de 40% de seu território e no extermínio de mais da metade da sua população.
Obra singular da artilharia oitocentista, o canhão Cristiano foi fabricado entre 1866 e 1867, uma das fases mais intensas da Guerra do Paraguai. O canhão foi forjado na fundição de Ybycuí, no sul do Paraguai, sob a supervisão do engenheiro inglês George Thompson.

O canhão foi produzido a partir dos sinos de bronze confiscados das igrejas de Assunção — motivo pelo qual recebeu a alcunha de “El Cristiano” (“O Cristão”, em espanhol). Uma inscrição sobre o cano da peça referencia a origem confessional da matéria prima: “Da religião ao Estado”.
Embora chamado de canhão, o Cristiano era tecnicamente um obuseiro, projetado para disparar balas ocas e granadas cheias de pólvora. À época de sua fabricação, era a peça de artilharia de maior calibre da América do Sul. Um gigante de 12 toneladas, com 2,94 metros de comprimento e 1,34 metro de largura, apto a disparar munições de 10 polegadas.
A historiografia oficial paraguaia atribui ao canhão Cristiano o triunfo dos soldados paraguaios na Batalha de Curupaiti, travada em setembro de 1866. Essa foi a maior vitória paraguaia na guerra, quando os soldados do país forçaram os exércitos do Brasil, Argentina e Uruguai a baterem em retirada.
O peso do Cristiano na vitória paraguaia é contestado por muitos historiadores contemporâneos. A despeito de sua imponência, o obuseiro apresenta uma fatura bastante rudimentar, com várias falhas de fundição, o que levanta dúvidas sobre sua real eficácia operacional.
O canhão Cristiano no pátio do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro. Fotografia de Rodrigo Padula / Wikimedia Commons
Troféus de guerra
O canhão Cristiano foi capturado pelas tropas brasileiras em 1868, durante o cerco da Tríplice Aliança à fortaleza de Humaitá. Após a evacuação ordenada por Solano López, as tropas brasileiras, argentinas e uruguaias ocuparam as instalações e dividiram entre si as peças de artilharia da fortaleza.
Em 1870, logo após o término do conflito, o imponente canhão foi levado como “troféu de guerra” pelo Brasil e instalado no Arsenal do Exército Brasileiro no Rio de Janeiro. Em 1922, o Cristiano foi integrado ao acervo do Museu Histórico Nacional, permanecendo até hoje exposto em seu “Pátio dos Canhões”.
O governo paraguaio sempre contestou a incorporação do Cristiano ao patrimônio brasileiro e há décadas reivindica a devolução do canhão e dos demais objetos pilhados durante a guerra. O canhão se converteu um símbolo da abnegação e do esforço heroico do povo paraguaio diante do conflito mais devastador e traumatizante da história do país — não isento de uma certa mitificação de cariz ufanista.
O Uruguai foi a primeira nação a devolver ao Paraguai os itens saqueados durante a guerra. Em 1885, o presidente Máximo Santos providenciou o retorno de estandartes, espadas e armas de fogo capturados pelas tropas nacionais. Na mesma ocasião, o Uruguai se tornou o primeiro país a perdoar a dívida de guerra de Assunção.
Em 1954, durante o governo de Juan Domingo Perón, a Argentina devolveu ao Paraguai um conjunto de objetos, incluindo o canhão “Criollo”. Em 2014, durante o governo de Cristina Kirchner, um novo lote de troféus de guerra foi devolvido ao Paraguai, incluindo um conjunto de móveis e artefatos que pertenceram a Solano López.
Repatriação
O Brasil perdoou a dívida de guerra paraguaia em 1943, mas a devolução dos objetos pilhados no conflito somente teve início na década de 1970, em meio às negociações para a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu. Entre 1975 e 1980, foram devolvidos ao Paraguai itens como o “Álbum de Ouro” e a espada de Solano López, bem como um lote de 300 manuscritos que haviam sido incorporados à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
A devolução do canhão “Cristiano”, entretanto, sempre encontrou enorme resistência no país. Muitos militares, historiadores e museólogos alegam que o objeto também faz parte da história do Brasil. Afirmam igualmente que a transferência do canhão ocorreu antes do surgimento das primeiras convenções internacionais proibindo a prática da pilhagem, o que tornaria a sua incorporação legal à luz do direito internacional.
Em 2010, atendendo a um pedido feito durante o governo de Fernando Lugo, o presidente Lula deu início ao processo de repatriação do “Cristiano”. Para ser devolvido, o canhão precisa passar por um processo de destombamento, uma vez que foi registrado pelo IPHAN como parte do patrimônio histórico nacional.
Dilma Rousseff se comprometeu a concluir a devolução do canhão, mas o processo foi praticamente encerrado após o impeachment em 2016. As autoridades paraguaias, no entanto, seguiram pressionando pelo repatriação. Em 2015, o Senado paraguaio aprovou uma declaração solicitando a devolução da peça. Em 2023, o presidente Santiago Peña exigiu a devolução do Cristiano em seu discurso de posse.
As negociações foram reiniciadas após o retorno de Lula à presidência do Brasil. Em 2025, o Itamaraty conduziu reuniões com representantes do governo paraguaio. Na ocasião, a diplomata Gisela Padovan, secretária do Itamaraty para a América Latina e o Caribe, sugeriu a possibilidade de trocar o canhão por peças brasileiras que estão em poder dos paraguaios.
Outra possibilidade aventada foi a de reunir o Cristiano e os demais troféus de guerra em uma espécie de “memorial da reconciliação”, a ser administrado conjuntamente pelos dois países.
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