É habitual dizer-se que Os Maias é um retrato de Portugal no século XIX. A frase é reconfortante, porque permite acreditar que Eça descrevia um país antigo, habitado por personagens distantes e defeitos entretanto corrigidos. Infelizmente, basta abrir uma rede social para perceber que a obra continua em atualização.
Aquilo que Eça reservava à elite lisboeta foi finalmente democratizado. Já não é necessário pertencer à elite, frequentar o Ramalhete ou ter uma fortuna familiar em decadência para falar com absoluta segurança sobre assuntos que se desconhecem. Basta ter uma ligação à Internet e alguns minutos livres.
Todos opinam sobre tudo, poucos admitem dúvidas e quase ninguém aceita que um problema possa ter mais do que uma resposta aceitável. A prudência passou a ser confundida com cobardia, o silêncio com ignorância e a hesitação com falta de carácter. Dizer “não sei” tornou-se uma espécie de falha moral.
Criámos, assim, uma curiosa obrigação cívica de comentar cada acontecimento. Uma guerra começa e, em poucas horas, o país está repleto de especialistas em estratégia militar. Há eleições noutro continente e surgem imediatamente milhares de conhecedores da sua história constitucional. Aparece uma polémica cultural e todos descobrem uma longa carreira de reflexão estética, convenientemente iniciada nessa manhã.
Não é sequer necessário compreender o assunto. O importante é escolher rapidamente um lado, indignar-se com convicção e, de preferência, demonstrar que a posição contrária não está apenas errada: é moralmente reprovável. A opinião deixou de ser o resultado de uma reflexão e passou a ser uma declaração de identidade.
As redes sociais fizeram o resto. A indignação tornou-se uma profissão em part time e a virtude um exercício permanente de relações públicas. Já não basta ser uma pessoa razoável; é necessário que os outros sejam devidamente informados disso. Cada publicação funciona como um pequeno comunicado oficial sobre a nossa superioridade moral.
Também importamos as nossas discussões. Questões nascidas em sociedades diferentes, com histórias e problemas próprios, chegam a Portugal prontas a utilizar, com argumentos, palavras de ordem e indignações incluídas. É uma forma moderna de provincianismo: já não copiamos apenas a moda de Paris; copiamos também as guerras culturais de qualquer país que esteja naquele dia a dominar o algoritmo.
O resultado não é uma sociedade mais informada, mas uma sociedade mais barulhenta. Confundimos participação com exposição, convicção com conhecimento e quantidade de opiniões com qualidade do debate. Nunca tivemos tantos meios para ouvir os outros e tão pouca disponibilidade para aceitar que possam ter alguma razão.
Talvez a maior prova de que Eça continua a escrever Portugal seja esta: denunciei a nossa compulsão para opinar sobre tudo e concluí, naturalmente, que também eu tinha uma opinião indispensável sobre o assunto.
Mas tranquiliza-me saber que, se alguém discordar, provavelmente escreverá um artigo a explicar porquê.
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