“É um estilo de vida”: Liliana Sulzbach, homenageada no 2º FUCA, compartilha indicações e desafios da carreira

O 2º Festival Universitário de Cinema e Audiovisual chega a fim na sexta-feira, 18 de setembro. Para um evento que contribui na formação de profissionais desse mercado nada mais justo do que reconhecer a trajetória de grandes comunicadores. Por isso, neste ano, a homenageada é a produtora, diretora e roteirista audiovisual Liliana Sulzbach, premiada em festivais nacionais e internacionais.

Na noite desta quinta-feira, 17 de setembro, estudantes, funcionários e professores tiveram um momento de bate-papo com Liliana. Além disso, o grupo também assistiu a exibição de dois episódios da minissérie O Método, que retrata a experiência de documentaristas.

Durante a conversa, Liliana compartilhou sobre o seu processo criativo, algumas técnicas e metodologias do trabalho. “Eu entendo que cada documentário pede um formato específico, e é assim que costumo fazer. Cada tema, me parecia pedir um tipo de abordagem. Não tenho um formato preferido e que vou seguir sempre. Tudo depende”, explica ela.

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Além disso, ela explicou que apesar do planejamento mudar durante o processo de produção, sempre se dedica a momentos para organizar todo o trabalho. “Acredito que é muito importante ter em mente o que quero fazer em cada projeto, o que quero atingir. Por isso, sempre organizo roteiro, mesmo que ele mude, penso em tudo que vai estar no filme, desenho as imagens que desejo. Penso e pesquiso cada detalhe”, relata Liliana.

Após o bate-papo, a homenageada recebeu uma arte produzida pelo Lab Design, da Famecos.

Com a palavra, Liliana Sulzbach

Famecos: qual o sentimento de receber a homenagem do Festival?

Liliana Sulzbach: Eu fiquei muito surpresa. É um momento que eu não estou com nenhum trabalho em exibição, embora esteja trabalhando bastante. Eu acho muito legal manter essa conexão com os alunos, que estão iniciando a carreira. É muito legal saber que eles olham e se interessam pelo nosso trabalho e pelo o que temos a dizer. E o mais importante: perceber que é possível ainda ter conexões entre gerações, isso pode eventualmente estimular eles também.

Famecos: o que você diria para os estudantes que estão começando no Audiovisual?

Liliana Sulzbach: A gente tem essa percepção de que está tudo mudando muito rápido, mas de certa forma, na minha formação, as coisas mudavam sempre, muito rápido. Nós, como estudantes, também tínhamos uma certa ansiedade de aprender as ferramentas que estavam entrando no mercado. Eu acredito que precisamos nos concentrar na filosofia da Comunicação. Se tu sabes como te comunicar, como criar uma história, como contar essa história, independe da tecnologia que tu dominas ou não. Digamos que tu precisas dominar a narrativa, não exatamente a tecnologia. E aí tudo se adapta.

Eu tinha um professor que sempre dizia que erámos privilegiados de estarmos na universidade e de ter quatro anos para pensar. Pensar na vida, no mundo, refletir sobre as questões mais primordiais do mundo. Claro, vão existir disciplinas para orientar, mas o fundamental é poder pensar independente de já sair fazendo ou entrar no mercado. Eu acho que eu aproveitei. Se tem um conselho que eu daria eu acho que é por aí. É o momento que as pessoas têm de pensar no mundo. O que acontece agora no mundo é um momento muito especial para as pessoas se questionarem, entender como pode ser feito, como comunicar.

Famecos: O que tem de mais gratificante na profissão e o que tem de mais desgastante?

Liliana Sulzbach: Eu acho que as coisas vêm junto. Eu me dedico muito ao que eu faço. Eu tenho uma autodisciplina muito intensa de me dedicar e ficar pensando. Agora eu estou no momento do projeto que exige de mim muita dedicação. E é sempre aquela coisa de tu nunca saber o resultado daquilo. A gente se prepara, estuda, pesquisa e tem anos de experiência. No entanto, cada trabalho é único, os filmes são diferentes entre eles. A sensação é a mesma, de uma certa insegurança. É incrível, os anos passam e a gente sempre tem essa sensação. Ao mesmo tempo, é gratificante depois que tu concluis um trabalho, quando tu estás satisfeita com ele. Independente de qualquer crítica que ela vai sofrer, o importante é tu estar satisfeita. Aí o momento mais gratificante é quando tu percebes que toda a dedicação valeu a pena. Mas não é fácil. Tem aquela máxima da vocação. Eu acho que é o tipo de profissão que exige uma vocação. Se tu estás em dúvida entre uma coisa e outra é melhor seguir na outra. Tu não podes ter dúvida. É um estilo de vida, que vai afetar tudo, nos teus relacionamentos, amigos, família.

Famecos: E, por último, uma obra vista para indicar?

Liliana Sulzbach: Em homenagem ao Patricio Guzmán, que morreu na terça-feira, indico a Batalha do Chile. São três grandes episódios. É uma obra fenomenal. É um documentário que fez história justamente porque ele acompanhou a queda do governo do presidente Salvador Allende. Ele acompanhou ao vivo, digamos assim, em uma época que não existia redes sociais ou Internet. O cara filmou todos os detalhes dentro da história. Ao mesmo tempo, ele conseguiu construir uma obra magnífica. Em homenagem a memória dele, indico A Batalha do Chile.

Conheça mais sobre a trajetória da homenageada

Liliana Sulzbach é natural de Blumenau, em Santa Catarina. É produtora, diretora e roteirista audiovisual. É jornalista e mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Estudou também Ciências da Comunicação na Universidade Livre de Berlim. Atualmente, dirige a produtora Tempo, em Porto Alegre.

Entre suas produções se destacam as obras:

O Branco

  • Festival Internacional de Cinema de Berlim (2001): Vencedor da Menção Especial do Crystal Bear.
  • Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro (2000): Vencedor do Première Brazil de Melhor Curta-Metragem.

A Invenção da Infância

  • Grande Prêmio do Cinema Brasileiro (2001): Vencedor de Melhor Média-Metragem.
  • Festival de Cinema de Gramado (2000): Vencedor do Kikito de Ouro de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro na Competição de Curtas e Médias em 16mm.

A Cidade

  • Festival Internacional de Cinema de Chicago (2013): Vencedor do Prêmio Especial do Júri para Filme Documentário.
  • SXSW Film Festival (2013): Indicado ao SXSW Grand Jury Award na categoria Documentário Curta.

O Cárcere e a Rua

  • Festival de Cinema de Gramado (2005): Vencedor de Melhor Filme na categoria Longa-metragem Brasileiro – Documentário.
  • Prêmio Guarani (2006): Indicado a Melhor Documentário.

Sua trajetória profissional reúne também obras para Netflix, RBS TV e TV Brasil.

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