Confira a entrevista exclusiva com o oncologista baiano Bruno Protásio, autor de estudo inédito sobre câncer colorretal, considerado o câncer do “estilo de vida”
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Autor de pesquisa inédita no Brasil sobre câncer colorretal, o oncologista baiano, Bruno Protásio, que atua na equipe da Oncoclínicas em Salvador, conversou com o portal Nidde Digital sobre o tipo de tumor que representa o segundo mais frequente em homens e o terceiro em mulheres no país (sem contar o câncer de pele não melanoma). De acordo com estimativa do Instituto Nacional do Câncer (INCA), 53.810 novos casos de câncer colorretal devem ser registrados no Brasil em 2026. Na Bahia, são estimados 2170 novos diagnósticos no mesmo período, sendo 590 em Salvador. O estudo intitulado “Impacto prognóstico da localização do tumor primário no câncer colorretal estádio III – evidências do mundo real de uma coorte brasileira” traz avanços para a abordagem terapêutica da doença.
Liderada por Bruno Protásio e publicada no jornal científico Clinical Colorectal Cancer e no portal da USP, a pesquisa reforçou a necessidade de maior atenção para alguns pacientes com câncer colorretal ou câncer de intestino. O estudo revelou que tumores colorretais localizados do lado direito têm um prognóstico pior que aqueles que se desenvolvem do lado esquerdo. O trabalho é resultado de uma tese de doutorado apresentada pelo médico no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, vinculado à Universidade de São Paulo (ICESP – USP).
A pesquisa acompanhou mais de 250 pacientes com câncer de intestino grosso sem metástases quando diagnosticado, e que foram tratados com cirurgia seguida por quimioterapia complementar. Os voluntários foram acompanhados em média ao longo de 5 anos e, ao final do estudo, os autores identificaram que os pacientes que tinham tumores localizados no lado direito do intestino (tumores do ceco, cólon direito e ângulo hepático) apresentaram um pior prognóstico quando comparados com os tumores do lado esquerdo (tumores do ângulo esplênico, cólon esquerdo, retossigmóide e reto alto). “Isso reforça a necessidade de redobrar a atenção durante o acompanhamento oncológico destes pacientes com tumores de intestino localizados do lado direito”, destaca o autor da pesquisa.
“Fizemos o estudo com prontuários de pacientes no Brasil e a conclusão consolidou um achado já visto através de pesquisas internacionais anteriores, só que agora com a população brasileira”, afirma o médico Bruno Protásio, doutor em Ciências (Programa de Oncologia) pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo ( FMUSP).
Confira a entrevista exclusiva:
1. O câncer colorretal é considerado o câncer do estilo de vida?
O câncer colorretal é uma doença potencialmente grave e, felizmente, existem diversas maneiras de prevenção primária. Muitas formas de prevenção passam por manter hábitos de vida saudáveis como praticar atividade física regularmente, evitar o sobrepeso/obesidade, evitar consumo excessivo de álcool etc. Então diria que o câncer colorretal é, sim, um dos cânceres mais associados ao estilo de vida.
2. Quais são os sintomas da doença?
Os sintomas são variáveis e dependem muito do estágio da doença em que foi feito o diagnóstico. De uma maneira geral são considerados sinais de alerta que devem motivar uma procura a um serviço médico: presença de sangue nas fezes, alteração do ritmo intestinal, dor abdominal e emagrecimento imotivado.
O que mais queremos, na verdade, é fazer o diagnóstico em uma fase mais inicial possível (e, portanto, com mais altas taxas de cura). Por isso, é que indicamos a realização de exames preventivos (ex: colonoscopia) em pacientes sem qualquer sintoma a partir dos 45 anos. Neste cenário podemos identificar o tumor antes que ele tenha capacidade de gerar sinais e sintomas.
3. Qual principal conclusão da sua pesquisa sobre câncer colorretal e como ela impacta no prognóstico do tumor?
O câncer colorretal é uma doença com potencial curativo, especialmente quando é diagnosticada ainda em uma fase limitada ao intestino. Neste cenário, os pacientes são tratados com cirurgia e depois são avaliados para decisão sobre necessidade de receberem uma quimioterapia complementar com intenção preventiva/curativa. Quando os tumores estão em um estágio intermediário (chamado estágio III, que é aquele no qual o tumor atinge o intestino e os linfonodos regionais abdominais), o risco de recidiva após o tratamento padrão pode atingir até 1 a cada 3 casos. Neste caso, muitos são os fatores pesquisados em estudos clínicos na tentativa de identificar os grupos de maior risco de recidiva do tumor e, portanto, os grupos que necessitam de maior atenção e vigilância da equipe médica.
Nossa equipe conduziu um estudo clínico com este propósito em 2023 a partir de dados de prontuário de pacientes tratados com câncer colorretal operado e estágio III no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) – pertencente a USP em São Paulo. Ao final do estudo, dados apontaram para um risco mais elevado de recidiva do tumor quando ele era localizado do lado direito do intestino (isto é, quando o tumor acometia os segmentos iniciais do intestino grosso: ceco e cólon direito). Esses dados devem aumentar nosso grau de vigilância quando estamos acompanhando pacientes com este perfil de doença.
4. É possível curar o câncer colorretal e seguir com qualidade de vida?
Sem dúvidas! O câncer colorretal é uma doença com alta taxa de cura quando fazemos o diagnóstico precoce. Neste cenário, o tratamento é menos intenso e, consequentemente, conseguimos preservar a qualidade de vida dos pacientes.
5. A que pode ser atribuído o aumento global da incidência desse tipo de câncer em adultos jovens com menos de 50 anos?
Esta é uma preocupação mundial e ainda temos muitas incertezas sobre o que tem gerado este aumento de câncer colorretal em indivíduos jovens. Alguns dos fatores apontados são relacionados ao chamado “estilo de vida ocidental”, que incluem alimentação inadequada (consumo de alimentos ultraprocessados), uso excessivo de bebidas alcoólicas, sedentarismo/obesidade, além de fatores genéticos hereditários.
6. A partir de que idade é recomendado fazer a colonoscopia e com que periodicidade?
Como exame de prevenção secundária, a colonoscopia deve ser realizada a partir dos 45 anos na população geral. Esta recomendação passou a vigorar desde 2021 pela força tarefa preventiva dos Estados Unidos (do inglês U.S. Preventive Task Force). Anteriormente, recomendava-se a colonoscopia a partir dos 50 anos. O motivo por ter passado de 50 para 45 anos é a percepção de aumento da incidência de canceres colorretais em indivíduos mais jovens conforme conversamos anteriormente.
A periodicidade da repetição da colonoscopia depende da presença ou não de pólipos no primeiro exame. Caso a primeira colonoscopia tenho sido normal, o exame pode ser repetido em 5 a 10 anos.
7. A colonoscopia é a única forma eficaz de diagnóstico ou é possível identificar tumores colorretais através de exames mais simples como o de fezes oculta, mais especificamente o teste FIT?
A colonoscopia não é o único exame eficaz de prevenção do câncer colorretal. Existem testes baseados na análise das fezes que têm alta eficácia também. O teste de pesquisa de sangue oculto nas fezes pelo método imunoquímico fecal – FIT (do inglês Fecal Immunochemical Test) é um destes. Diferentemente da colonoscopia, ele deve ser realizado anualmente. E, é importante lembrar, que uma vez que o teste seja positivo (isto é, detecte a presença de sangue nas fezes) é necessário proceder com uma colonoscopia confirmatória, pois existem várias causas para presença de sangue nas fezes, incluindo muitas causas benignas e o câncer é apenas uma das possíveis razões.
8. Quais os principais fatores de risco do câncer colorretal?
O câncer colorretal é uma doença com muitos fatores de risco. Costumo dividir em três grandes grupos:
a) Os fatores associados ao estilo de vida: aqui estão os fatores que podemos interferir de forma importante no nosso risco individual. São eles: obesidade/sedentarismo, alimentação inadequada (consumo de alimentos ultraprocessados), uso excessivo de álcool etc.
b) Os fatores associados a “alterações intestinais”: história de pólipos intestinais e presença de doença inflamatória intestinal (colite ulcerativa)
c) As síndromes genéticas associadas ao câncer colorretal: particularmente a polipose adenomatosa familiar e a Síndrome de Lynch.
9. Os alimentos ultraprocessados são vilões da saúde gastrointestinal?
Sim. Os ultraprocessados, em especial as carnes processadas (ex: presunto, bacon, salsicha etc) foram classificados desde 2018 pela IARC (do inglês, International Agency for Reserch on Cancer), agência internacional para pesquisa em câncer da Organização Mundial de Saúde (OMS), por sua vez, vinculada a ONU, como carcinógenos do grupo 1 (ao lado do tabaco e do álcool). No contexto da dieta associada ao risco de câncer colorretal eles podem, sim, ser considerados uns dos principais vilões…
10. Em tempos de epidemia de obesidade e de sobrepeso, quais as principais recomendações para prevenção do câncer colorretal?
O combate a obesidade/sobrepeso é uma medida importante de prevenção do câncer colorretal. Em função disso, a Sociedade Americana de Oncologia Clínica – ASCO (do inglês, American Society of Clinical Oncology) reuniu, em 2020, muitos especialistas e publicou suas recomendações focadas em medidas de prevenção. Dentre estas recomendações se destacam: ter uma dieta rica em fibras e evitar o consumo excessivo de carne vermelha e carne processada, evitar o uso consumo excessivo de álcool e praticar atividade física regular (particularmente atividade de moderado esforço). Atuando nestes pilares, reduziremos nosso risco de desenvolver um câncer colorretal de forma significativa.
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