A missão das chefias militares da CEDEAO encerra hoje a sua visita a Bissau, após cinco dias de encontros com as autoridades guineenses no âmbito da mediação da crise política aberta com o golpe de Estado de novembro.
Mas a visita ficou ensombrada por um escândalo: um dos elementos da delegação encontrou no quarto do seu hotel cerca de 15 milhões de francos CFA (o equivalente a mais de 22 mil euros), numa presumível tentativa de suborno. As câmaras do hotel identificaram uma pessoa com ligações ao Governo de Transição no local, segundo informação avançada pela RTP África com base em fontes credíveis.
O executivo guineense negou as alegações e prometeu processar a jornalista que denunciou o caso. Em entrevista à DW, o jurista e investigador Augusto Na Sambé considera que, em vez de negar, o Governo deveria investigar, e que a rapidez com que se posicionou só adensa as suspeitas.
DW ÁFRICA: A missão das chefias militares da CEDEAO termina hoje a sua visita a Bissau. Qual a sua leitura sobre o impacto desta missão?
Augusto Na Sambé (AS): A missão é mais uma das missões, como as outras missões que já passaram pelo país. Não vejo novidade nenhuma, porque o que está em concreto aqui tem que ver com a situação de gerir o poder, gerir a governação. E este regime não está a fim de deixar o poder de forma pacífica. Se tivessem, desde o início, esse entendimento, se calhar chegaríamos a um acordo político. Mas não queriam, porque querem manter o poder a todo custo. Esta missão vai ser um fracasso, mesmo como as outras missões que no passado tiveram a mesma atuação.
DW ÁFRICA: Fica com a sensação de que a CEDEAO se resignou perante a situação na Guiné-Bissau?
AS: Acho que a CEDEAO tem uma agenda comprometedora em relação ao Estado guineense. Estou a ouvir nas notícias que houve uma tentativa de suborno, se isto se confirmar, acho que não é a primeira vez que isto está a acontecer. Deve ter sido a atuação deste regime em relação à missão. Esta é uma missão mais militar do que política, e uma missão militar tem que agir como militar, debaixo da sombra, longe da comunicação social. Essa é a razão.
DW ÁFRICA: Acha que, por ser uma missão militar, se a denúncia de alegada tentativa de suborno se confirmar, isso só aconteceu porque são militares? Se fosse uma missão política, passaria despercebido?
AS: Se fosse uma missão política, passava. Ninguém ia saber. É que os militares são formatados para obedecer ao comando, são formatados para serem patrióticos. Se fossem políticos nessa missão, ninguém ia saber que houve uma tentativa de suborno.
DW ÁFRICA: O Governo já reagiu e pretende processar a jornalista que denunciou este caso. Não é estranha essa resposta tão rápida do executivo?
AS: A reação do Governo dá mais confirmação à informação que está a ser veiculada. Porque se isso não fosse verdade, o conveniente seria o Governo escolher o silêncio. O que o Governo tem que fazer é investigar, apurar se houve ou não tentativa de suborno. O Governo não pode apressadamente dizer que vai entrar com uma queixa, sem antes criar uma comissão de inquérito e apurar a verdade.
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