Conexões Afro-Lusófonas #13: Angola vai incorporar línguas nativas em seu sistema de ensino formal – Jornal da USP
De acordo com especialistas, a Lei de Bases da Educação do país prevê a necessidade de massificação das línguas ancestrais nas escolas fortalecendo a identidade local
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Nesta edição do programa Conexões Afro-Lusófonas, o bate-papo foi sobre a educação e a cultura em Angola. Para aprofundar o tema, recebemos a professora Vanda Odete Afonso da Silva, chefe da área de desenvolvimento e gestão curricular do Instituto Nacional de Avaliação e Desenvolvimento (INAD) de Angola, e o professor Osvaldo Augusto Chissonde Mame, que realizou estágio pós-doutoral pela Faculdade de Educação (FE) da USP, onde analisou o currículo de matemática do sistema de ensino angolano.

Vanda descreve como funciona o sistema de ensino em seu país e aponta similaridades com o modelo brasileiro. “Em Angola, a nossa lei educacional estabelece cinco níveis de ensino, que constituem a progressão vertical que o estudante cumpre. Mas existe também o ‘modo horizontal’, no qual há subsistemas de ensino, como o destinado a jovens e adultos. Contudo, sempre existe entre os níveis uma relação de hierarquia”, destaca.
Em todos os níveis de ensino, o idioma oficial é o português. Como lembra Vanda, a legislação denomina os idiomas ancestrais como “línguas de Angola de origem africana”. “Até pouco tempo, estas línguas não estavam definidas, do ponto de vista institucional, como componentes do ensino”, aponta a professora. “Mas, de acordo com a Lei de Bases, deve haver a massificação das línguas de Angola, sendo necessário utilizar as línguas maternas — como chamamos as línguas ancestrais — no processo de ensino e aprendizagem”, afirma, destacando que este é “um caminho a ser percorrido”.
Hoje, Angola possui mais de 40 línguas maternas, a grande maioria de origem bantu. Entre as principais e mais faladas estão o umbundo (falado por cerca de 23% a 26% da população), o kimbundo, o kikongo e o tchokwe (ou ucôkwe), entre outras.
Preservando a cultura local

Outro aspecto da Lei de Bases do Sistema Educacional de Angola destacado pelos professores é o artigo 105, que determina a inserção de conteúdos da cultura local no currículo nacional. “O artigo estabelece que 20% do currículo nacional deve ser ligado aos conhecimentos culturais da zona em que se processa o ensino”, destaca o professor Mame.
A medida visa combater diretamente a herança colonial, marcada pelo apagamento da identidade angolana. Como descreve Mame, o processo de colonização criou divisões profundas na sociedade, onde parte da população adotava integralmente o modo de vida europeu. “Eram os chamados ‘assimilados’, pessoas que incorporavam a cultura do colonizador, e ganhavam, inclusive, o direito à identidade europeia”, conta o professor.
Conexões Afro-Lusófonas
Conexões Afro-Lusófonas têm o objetivo de fortalecer os laços culturais entre o Brasil e os países africanos de língua portuguesa. O programa apresenta entrevistas exclusivas explorando as culturas, músicas, diversidades e políticas desses países, promovendo um intercâmbio de conhecimentos. Conexões Afro-Lusófonas vai ao ar na primeira sexta-feira de cada mês na Rádio USP (93,7 MHz, em São Paulo, e 107,9 MHz, em Ribeirão Preto)
Apresentador: Antonio Carlos Quinto
Narradora: Tabita Said
Participação: Ricardo Alexino Ferreira
Edição e captação de áudio: Julio Cesar Bazanini
Identidade Sonora: Bruno Torres
Coordenadora de Programas Especiais: Magaly Prado
É possível também sintonizar a versão podcast pela internet em jornal.usp.br/podcasts/ Todos os episódios de Conexões Afro-Lusófonas estão disponíveis na página de seu arquivo neste link.
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