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Você já ouviu falar em carne de onça? Uma versão aprimorada do prato paranaense que chama atenção pelo nome foi assinada pela chef carioca Rafa Louzada como forma de homenagear Angélica Salvador, a anfitriã do primeiro Ladies Night Fest no Norte de Portugal em 2026, realizado no In Diferente, no Porto. Recentemente, a casa recebeu sua primeira estrela Michelin. O jantar também teve a presença das chefs Catarina Castro Correia e Ana Sofia Macedo, além da barmaid Inés Moreira e da sommelière Diana Peixoto.
À primeira vista, o snack de Rafa assusta pelo jogo de palavras, mas na verdade nada mais é do que uma versão abrasileirada do hackpeter, prato alemão feito com carne crua servida sobre uma broa de centeio, um pouco de mostarda preta e cebola e cebolinha, em quantidade suficiente para deixar quem come com um “bafo de onça”. Daí o nome do prato, que surgiu nos anos 1940 em Curitiba, ligado ao futebol amador.
“Foi uma homenagem a Angélica, que é paranaense, e também uma forma de trazer um pouquinho de Brasil à mesa. A diferença foi que troquei carne bovina por atum e a broa é de Avintes, muito tradicional no norte de Portugal”, diz Rafa, referindo-se ao prato que virou Patrimônio Imaterial Cultural de Curitiba em 2016 e, no ano passado, ganhou o selo de Indicação Geográfica.
As chefs Rafa Louzada, a anfitriã Angélica Salvador, Ana Sofia Macedo e Catarina Castro Correia
João Saramago
Ainda com um gostinho de Brasil, Rafa trouxe o dulçor do creme de milho combinado ao fígado de galinha como recheio de um ravióli com a massa bem fininha, um dos pratos mais comentados da noite. “Minha sub-chef, que acaba de ganhar neném, é goiana e “pamonheira”: trabalha muito bem o milho. Juntei ao ingrediente o meu gosto pelos miúdos (miudezas, em Portugal), muitas vezes desprezados na alta gastronomia”, diz. Na receita, ela fez uma pasta de fígado com conhaque e misturou ao creme de milho, um clássico na mesa brasileira no dia a dia.
Feijoada
Em um menu feito a oito mãos e metade delas brasileiras, não poderia faltar feijoada. Apesar de o prato ter raízes em Portugal e ter sido adaptado aos ingredientes brasileiros pelos portugueses que se mudaram para lá, a receita com feijão preto talvez seja um dos maiores símbolos gastronômicos do Brasil.
“Seja sábado ou domingo, a feijoada tem que estar presente. E sempre quis, de alguma forma, trazer o prato para o conceito do In Diferente”, diz Angélica Salvador, a anfitriã da noite.
Durante a pandemia, a casa teve feijoada como prato de conforto. Depois, vestiu-se de gala para entrar no menu degustação a uma certa altura. “Decidi trazer de volta nesta noite de mulheres como forma de homenagear o meu país e mostrar um pouquinho da versatilidade do prato”, diz a chef. Ela serviu a feijoada em forma de purê em uma tartelete com carpaccio de barriga de porco e couve mineira frita por cima e acompanhada de gel de laranja. “A ideia foi dar requinte ao prato, mas sem fugir das suas origens e de seus sabores”.
Como parte do menu, Angélica também apresentou vieiras com leitelho, yuzu e maçã verde e, fechando o menu de pratos salgados, codorna e galinha pintada (chamada de galinha-d’angola no Brasil) com cogumelos trompetas, ervilhas, salsa e vinagre tinto.
Catarina Castro Correia trouxe uma alta dose de criatividade ao converter a sobremesa lusa farófias, que nada tem a ver com nossa farofa, em um prato salgado. As claras em neve ganharam a companhia das gambas (um tipo de camarão) e do fricassê.
Aliás, aqui vai uma curiosidade: o fricassê em Portugal deriva diretamente do prato francês e consiste em um ensopado, geralmente de frango, com molho branco. Já no Brasil é feito com frango desfiado em uma base de creme de milho e requeijão, gratinado no forno com queijo muçarela. Catarina também fez peixe besugo com brócolis e lima kaffir.
Para a sobremesa, Ana Sofia Macedo, que brilha à frente da confeitaria do Vinha (Vila Nova de Gaia, uma estrela Michelin) fez maçã com curry verde com pistache, lima kaffir e matcha, como pré-sobremesa, e framboesa e lichia, com chocolate branco e rosa.
A sobremesa de framboesa e lichia com chocolate branco fechou o menu no In Diferente durante o Ladies Night Fest
Gisele Rech
Cachaça
Na noite dedicada a elas, as mulheres também se dedicaram às bebidas, com Diana Peixoto nos vinhos e Inés Moreira nos coquetéis. Para abrir o menu, Inés preparou um coquetel com cachaça com três anos de envelhecimento servida em uma base de lima kaffir e leite salgado.
“Foi um desafio, pois estou acostumada à base de bebidas mais frescas, como o gin ou vodca. E conhecer a diversidade da cachaça, com envelhecimento de tempos diferentes, em tantas madeiras diferentes é um desafio criativo”, diz Inés, que destaca, ainda, a versatilidade do destilado brasileiro. “Vai bem como aperitivo, digestivo e, é claro, em coquetéis”, garante a barmaid.
Programação
Depois da abertura do festival, que colocam as mulheres em protagonismo na alta gastronomia feita por Michele Marques na Casa do Gadanha, e do jantar comandado pela paranaense Angélica Salvador, o Ladies Night Fest terá mais sete jantares até o fim do ano.
Coquetel com cachaça abriu o menu no In Diferente
Gisele Rech
O próximo será no dia 3 de junho, no Bondlair Bistrô, no Porto, sob a batuta da chef trasmontana Lídia Brás. A próxima anfitrião brasileira é Carol Giandalia, do Gruta, que terá a carioca Lívia Orofino, do Canalha (Lisboa), e Mila Araújo, do Say Cheesecake and Co (Porto) entre as convidadas. O encontro no restaurante portuense será no dia 10 de outubro. No encerramento do festival, no dia 5 de dezembro, quem é convidada da chef Rafaela Ferreira, no Exuberante (Porto), é a pernambucana Mirna Corrêa.
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