Câncer de próstata: por que uma nova tecnologia nova como o HIFU leva tempo para ser reconhecida?

O Conselho Federal de Medicina (CFM) reconheceu recentemente o Ultrassom Focalizado de Alta Intensidade (HIFU) como alternativa para o tratamento do câncer de próstata localizado. A tecnologia, que destrói o tumor por meio de ondas de ultrassom concentradas, já vinha sendo estudada e utilizada em centros especializados havia anos. Então, por que esse reconhecimento só aconteceu agora? A explicação está na forma como a ciência constrói evidências. Enquanto os medicamentos percorrem etapas bem conhecidas de desenvolvimento, a cirurgia e outras tecnologias seguem um desenho metodológico diferente, mas igualmente rigoroso.

O novo procedimento precisa demonstrar que funciona de forma consistente em diferentes hospitais, com diferentes equipes e em pacientes com características variadas. Também deve comprovar, ao longo dos anos, que controla a doença com segurança, preserva a qualidade de vida e oferece vantagens em relação aos tratamentos já disponíveis. Por isso, as evidências são construídas a partir de estudos realizados em diferentes centros e do acompanhamento dos pacientes por longos períodos.

Diferentemente do desenvolvimento de um medicamento, cuja formulação permanece essencialmente a mesma durante todas as etapas da pesquisa, uma nova técnica evolui continuamente. Equipamentos são aperfeiçoados, protocolos são padronizados e a própria experiência das equipes contribui para tornar o procedimento mais seguro e mais eficiente. A construção da evidência acompanha essa evolução, permitindo identificar quais pacientes realmente se beneficiam da técnica e quais resultados podem ser alcançados na prática clínica.

Foi exatamente esse o caminho percorrido pelo HIFU. Em 2020, o CFM concluiu que as evidências disponíveis ainda eram insuficientes para sua incorporação fora do contexto de pesquisa clínica. Desde então, estudos com mais pacientes e seguimento mais longo passaram a demonstrar resultados consistentes em homens criteriosamente selecionados, tanto em relação ao controle do câncer quanto à preservação da continência urinária e da função sexual. O reconhecimento recente da tecnologia representa, portanto, o amadurecimento dessa construção científica.

Essa evolução ganha ainda mais importância quando observamos o cenário do câncer de próstata no Brasil. Dados do Ministério da Saúde mostram que, entre 2020 e 2025, 43,4% dos pacientes tratados no SUS já iniciaram tratamento nos estágios III ou IV da doença. Entre aqueles submetidos à quimioterapia, esse percentual chega a 60,8%, evidenciando que as terapias sistêmicas costumam ser utilizadas principalmente quando o câncer já apresenta maior extensão. Em sentido oposto, 69,5% dos pacientes tratados com radioterapia encontravam-se nos estágios I e II, quando a doença ainda permanece localizada e os tratamentos focados no tumor oferecem maior potencial curativo.

Esses dados não significam que cirurgia, radioterapia e terapias sistêmicas sejam excludentes. A oncologia combina essas modalidades de acordo com as características de cada paciente. Ainda assim, reforçam um conceito importante. Quanto mais precoce é o diagnóstico, maiores são as oportunidades de utilizar tratamentos locais e menores tendem a ser as necessidades de terapias sistêmicas para controlar uma doença disseminada.

O HIFU não substitui a cirurgia convencional ou a radioterapia, tampouco é indicado para todos. Sua incorporação amplia as possibilidades terapêuticas para casos selecionados e demonstra que a inovação em cirurgia também depende de evidências sólidas. O reconhecimento não marca o início da história do HIFU, mas o momento em que décadas de pesquisa, aperfeiçoamento técnico e acompanhamento de pacientes sustentam sua utilização com segurança. É assim que a medicina avança.

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