Cabo Verde surpreende, craques brilham e o calor sufoca: que Copa, hein!?

Ancelmo Gois (o Chefe, como aprendi a chamá-lo com meu compadre Aydano André Motta) é, entre muitas outras qualidades, um grande criador de bordões. Alguns, usa para fazer de sua coluna uma delícia de ler; outras ficam só na fala, e divertem amigos e colegas de equipe. Em 2006, esteve na Alemanha para uma cobertura que já começou animada, com a preparação da seleção marcada por cenas como Ronaldinho Gaúcho rolando no gramado abraçado a torcedoras. E puxava todas as conversas com um misto de afirmação e pergunta: “Que Copa, hein!?”

A sabedoria é atemporal, e a expressão está atualíssima vinte anos depois, na maior Copa de todos os tempos, do outro lado do Atlântico. A começar pela grande aposta da Fifa para esta edição, o aumento do número de seleções para 48. A expectativa de que o nível dos jogos caísse com estreantes como Curaçao parecia se justificar na primeira rodada, com os 7 a 1 da Alemanha. Mas aí veio Cabo Verde, que não só segurou a Espanha como passou de fase e levou a campeã Argentina à prorrogação. Vozinha vai embora como um dos grandes personagens, Sidny Lopes Cabral fez o gol mais bonito do evento até aqui e o mundo do futebol tem um novo xodó.

Mas é Messi quem continua, numa briga com Mbappé não só pela artilharia desta Copa, e sim de todas. Kane é outro que pode deixar Klose, o antigo recordista, para trás, se sua Inglaterra passar por um México que ainda não levou gol. Vini Jr. e Haaland, que se enfrentam hoje, também foram os protagonistas que se esperava. Até Cristiano Ronaldo, mais velho e um pouco mais apagado, atingiu sua marca pessoal, tornando-se o primeiro a marcar em seis edições. As estrelas chegaram para brilhar.

Já a arbitragem, com todas as novas recomendações e ainda mais ajuda da tecnologia (agora capaz de marcar um impedimento com um sensor na bola que detecta até o toque do cabelo, como aconteceu com a Croácia contra Portugal), parece ter uma determinação básica: deixar o jogo correr. A falta foi praticamente abolida nesta Copa. O VAR também passa a impressão de ter sido orientado a intervir pouco, mas nem sempre consegue.

Fatores que vão além do campo, como a política de imigração dos Estados Unidos, perderam espaço no noticiário quando a bola começou a rolar. A questão climática continua chamando atenção, com calor extremo em partidas como a de ontem, entre França e Paraguai — e a previsão para Brasil e Noruega não é muito diferente. Mas as discussões se voltaram para o tempo técnico, que recebe críticas por interferir no ritmo do jogo e ter mais interesses comerciais do que esportivos (não estou entre eles; preferia que a Fifa abolisse o excesso de imagens de crianças chorando após derrotas nas transmissões de TV, a saída de bola com chute para lateral, o jogador deitado atrás da barreira e a prorrogação — esta última transformada em crueldade debaixo do sol do século XXI).

As oitavas de final começaram ontem, com mais jogos realizados até então do que em todas as edições anteriores e a sensação de que já tinha acontecido de tudo. Mas os grandes confrontos começam agora. Que Copa, hein, Chefe!?

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