A nova série da Netflix, Bandi, estreou na plataforma no último dia 9 de abril. Idealizada por Éric e Capucine Rochant, a produção francesa acompanha a trama de uma família de 11 irmãos, que se deparam com uma virada repentina em suas vidas após a morte de sua mãe e, subsequentemente, a orfandade.
Tomados pelo luto, os irmãos Lafleur recorrem aos diferentes caminhos do crime para sobreviver e superar o trauma. Porém, apesar de seguirem decisões diferentes em suas trajetórias — tomadas por tensão e violência — o destino e os interesses da família acabam, inevitavelmente, em rota de colisão. Cabe aos irmãos, então, uma última decisão: a escolha entre o amor pela família e o sucesso no submundo criminal.
Bandi: entre a família e o crime
Bandi se insere em um delicado contexto sociopolítico: a manutenção dos laços familiares e o apoio emocional em meio a um cenário extremo de crime e violência. A morte da mãe dos Lafleur, Evelyn, é o fenômeno catalisador de toda a tragédia, que perpassa a história da ilha francesa de Martinica pelos olhos dos 11 irmãos.
Conforme relembra o portal Moviedelic, a série (embora não seja diretamente inspirada em eventos reais) ecoa a narrativa da produção inglesa Top Boy, a qual retrata o cotidiano de traficantes de drogas em Londres. Ao portal Broadcast Now, o showrunner Éric Rochant afirmou que pretendia criar uma “possível versão francesa de Top Boy, uma série sobre tráfico de drogas com um elenco jovem”. Na mesma ocasião, Rochant também apontou inspirações em outras séries criminais de sucesso, como Peaky Blinders e Shameless.
Segundo os próprios criadores, a mistura entre suspense, drama familiar e elementos de comédia foi um dos grandes desafios que Bandi enfrentou, mas isso parece não ter interferido no realismo e na crueza da série, que aborda o crime como uma questão política e estrutural, reflexo da própria história de Martinica.
Um contexto histórico real
A ilha de Martinica tornou-se uma colônia francesa em 1635 e, nas décadas seguintes, testemunhou o surgimento de várias plantações de açúcar, onde os africanos escravizados eram forçados a trabalhar. Embora a escravidão tenha sido abolida na região em 1848, seu impacto geracional ainda pode ser entre os habitantes de Martinica, questão que influencia diretamente o contexto dramático da série.
Em 2025, um levantamento feito pelo Instituto Francês de Estatística e Estudos Econômicos (INSEE) indicou que 13,9% da população de Martinica enfrentava o desemprego no segundo trimestre do ano, aproximadamente o dobro da média nacional. Em meio a um cenário de instabilidade profissional, fragilidade econômica e potenciais crises familiares, histórias como a de Bandi não se tornam tão dramáticas e absurdas quanto parecem. Do contrário: a série passa a expor uma ferida social real, que se mantém aberta e presente no cotidiano da ilha.

Para que a série se mantesse fiel à realidade local, os showrunners priorizaram a escalação dos próprios habitantes de Martinica para compor o elenco de Bandi. Sendo assim, boa parte dos personagens principais e secundários é composta por atores locais — profissionais ou não. Diante deste desafio, a equipe técnica passou a “ensinar” o roteiro do zero para o elenco, garantindo uma adaptação adequada às reações reais diante do cenário social da ilha.
Com uma produção única e inovadora, a trama de Bandi nasceu, literalmente, das trocas entre direção, roteiristas e elenco, fruto das discussões realizadas nas oficinas criativas com os habitantes de Martinica. A prática também tornou possível que vários dos artistas envolvidos incluíssem suas próprias experiências pessoais como inspiração para a série.
Bandi, por fim, se revela um caso de sucesso em um projeto experimental, o qual se propõe a construir uma narrativa fictícia a partir de uma realidade cercada por violências, angústias e incertezas. Todos os 8 episódios da série estão disponíveis na Netflix.
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