Está no ar o 205º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, a poeta Ana Guadalupe é a convidada da coluna Lado Beber. Ela conversa com a colunista Bruna Beber sobre Ensino à distância (Companhia das Letras), sua nova coletânea de poemas. No livro, a autora escreve sobre seus anos vivendo como estrangeira em Buenos Aires, onde foi estudar e acabou permanecendo quatro anos.
Guadalupe brinca nos poemas com a própria miopia, transformada em metáfora para como percebemos a vida e as nuances da cidade, uma quase-personagem que atravessa a obra. Na conversa, ela ainda se diverte com Beber ao tentar encontrar o lugar da escrita entre suas atividades preferidas. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet.
Ana Guadalupe nasceu em Londrina, no Paraná, em 1985. Além de poeta, é tradutora com mais de quarenta livros traduzidos — entre os autores que verteu para o português estão Sylvia Plath, Denis Johnson e Kazuo Ishiguro. Ensino à distância é seu quarto livro. Ela estreou com Relógio de pulso (7Letras, 2011) e depois lançou Não conheço ninguém que não seja artista (Confeitaria, 2015, com fotografias de Camila Svenson) e Preocupações (Macondo, 2019).
No início da conversa, Guadalupe lembra que seu contato com a poesia começou ainda na infância. “Meus pais escreviam poesia. Acho que, também na minha família, tem tios, avós, algumas pessoas de várias gerações que escreveram poesia”, diz. A autora conta que conviveu desde pequena com “livrinhos” de poemas em casa.
“Lembro de um livro que chamava Volubilis, por exemplo. Essa palavra ficou na minha cabeça, mas eu não lembro mais o nome do autor” — rememora, referindo-se ao poeta Pedro Levitch, que publicou a coletânea em 1982.
Miopia e nitidez
Sobre Ensino à distância, a poeta recorda que o novo livro nasceu da sua relação com Buenos Aires. Segundo Guadalupe, sua ideia inicial era passar dois meses na cidade, mas esse tempo foi se prolongando depois que ela decidiu permanecer para conhecer melhor a capital argentina. Foi lá, já em meio à pandemia de covid-19, que Guadalupe diz ter encontrado na própria miopia um estímulo para escrever sobre sobre o que via e sentia.

“Eu saí da pandemia mais míope, com várias questões, com esse ponto de partida”, conta. Assim, nasceu a estrutura do livro, que progride de uma cidade “embaçada” e irrealista para uma mais nítida e real. Guadalupe explica que usou a ideia da distorção para outros aspectos da vida, como os relacionamentos amorosos e os sentimentos.
“Com esses temas, da cidade, da miopia, eu acho que eu poderia continuar escrevendo para sempre. Acho que, pela primeira vez, talvez eu tenha encontrado temas que me apaixonam e me interessam muito.”
Ler em voz alta
No programa, Guadalupe lê pela primeira vez em voz alta dois poemas de Ensino à distância:“descascar” e “a casca”. Neste, ela faz uma brincadeira com a palavra da língua espanhola cáscara, que na visão da poeta carrega uma “casca própria” dentro de si. Leia “a casca”:
a casca
la cáscara
uma casca dupla
que encalacra na fruta
como se a palavra casca
também tivesse a dela
como a casa-carapaça
do caranguejo
como o plátano
com sua esfera venenosa
própria
propia
a gagueira sem querer
se torna expressiva
a língua presa
mas pelo menos é sua
se quiser você passa
felina na ferida
minha dor
minha vida
a casca própria
la cáscara propia
Ao ler o poema anos depois de escrevê-lo, Guadalupe se admira como ele começou como uma simples brincadeira com a palavra cáscara. “Ela parece dupla, né? De onde veio isso?”, repete questionamentos que diz ter feito quando passou a conviver com o idioma espanhol, outro assunto que explora no livro. “São infinitas palavras que a gente pode usar só para essa imagem do estranhamento dessa língua”, diz.
O lugar da escrita
O episódio ainda tem um momento divertido. Questionada por Bruna Beber se gosta de escrever, Guadalupe surpreende ao dizer que “não tanto assim”. As duas, então, elencam outras atividades preferidas, como comer e ler. Para a autora de Ensino à distância, escrever é uma atividade ambígua. “Eu sinto que é muito fácil e muito difícil ao mesmo tempo.”

A poeta conta que costuma retrabalhar muito seus poemas, o que ela gosta de fazer, mas considera que a fixação pela perfeição pode fazer a poesia perder seu “frescor”. “Tem alguns [poemas] em que eu sinto que perco parte da confusão que me levou a escrever do primeiro jeito. Eu começo a ficar neurótica e eu acho também que o poema vai se enfraquecendo.”
“Tem várias imperfeições que eu gosto de manter”, diz.
Livro Marcador
O episódio ainda tem a editora Ana Lima Cecilio no novo quadro do 451 Mhz, o Livro Marcador. Nele, os ouvintes podem descobrir quais livros marcaram a vida de autores e outras personalidades da cultura e das artes. Cecilio lembra do impacto que foi ler Uma mulher singular, da americana Vivian Gornick, publicado no Brasil em 2023 pela Todavia, em tradução de Heloisa Jahn.

“Um livro que me marcou muito é Uma mulher singular, da Vivian Gornick, porque ela constrói a partir das caminhadas que ela faz na cidade de Nova York. Eu não ando em Nova York, eu ando em São Paulo. Mas, para mim, é muito importante isso que a gente pensa sobre a cidade, sobre o que a gente vê e o que isso reflete na gente. Então, eu sempre andei pensando. E depois que eu li esse livro, parece que ganha um significado maior”, diz.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
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