António Costa Silva partilha na Figueira da Foz um testemunho de vida marcado por Angola, pela liberdade e pelo poder transformador da literatura

O antigo Ministro da Economia e do Mar de Portugal foi o convidado da mais recente sessão das “5.as de Leitura”, onde revisitou a infância vivida em Angola, o período de prisão após a independência, o percurso académico e profissional e a importância da cultura e do conhecimento na construção de sociedades livres.

A Biblioteca Pública Municipal Pedro Fernandes Tomás, na Figueira da Foz, recebeu, no dia 16 de julho, mais uma edição das “5.as de Leitura”, iniciativa que voltou a reunir leitores, investigadores e amantes da cultura em torno de uma conversa dedicada à literatura, à memória e ao pensamento contemporâneo.

O convidado foi António Costa Silva, escritor, professor jubilado do Instituto Superior Técnico, autor da Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030 e antigo Ministro da Economia e do Mar, numa sessão que percorreu diferentes momentos da sua vida pessoal e profissional, cruzando história, ciência, literatura e reflexão sobre os desafios do mundo atual.

Perante uma sala repleta, o antigo governante partilhou um testemunho profundamente marcado pelas suas origens em Angola, pelo percurso académico internacional e pelas experiências que moldaram a sua visão sobre a liberdade, a dignidade humana e o papel do conhecimento.

Uma infância em Angola que permanece no centro da identidade

Nascido em 1952, em Catabola, na província do Bié, António Costa Silva recordou os primeiros anos de vida vividos em Angola, descrevendo uma infância marcada pelo contacto permanente com a natureza, pela diversidade cultural e pela convivência entre diferentes comunidades.

Ao longo da conversa, explicou que essas vivências continuam a ocupar um lugar central na sua identidade, afirmando considerar-se parte daquilo que descreveu como a “grande tribo luso-angolana”, expressão que sintetiza a ligação humana, cultural e histórica entre Angola e Portugal.

O testemunho constituiu também um momento de aproximação entre os dois países, recordando uma realidade partilhada por milhares de famílias cujas histórias atravessam ambos os lados do Atlântico.

A prisão, a resistência e a descoberta da escrita

A sessão abordou igualmente um dos períodos mais marcantes da vida de António Costa Silva.

Enquanto estudante universitário em Luanda, participou em movimentos estudantis e em organizações que defendiam uma sociedade mais livre e mais justa. Em 1977 foi preso, permanecendo cerca de três anos em cativeiro, sujeito a interrogatórios, isolamento e tortura física e psicológica.

Privado de livros, papel e qualquer possibilidade de escrever, encontrou na memória e na imaginação uma forma de preservar a liberdade interior.

Foi durante esse período que começou a construir mentalmente poemas, narrativas e reflexões, repetindo diariamente os textos para evitar que desaparecessem da memória. A escrita surgiu, assim, como um exercício de resistência e sobrevivência.

Entre os episódios recordados destacou-se o relato de um simulacro de fuzilamento, experiência que descreveu como determinante para a forma como passou a olhar para a vida. Desde então, afirmou, aprendeu a valorizar cada dia como um presente, resumindo essa convicção numa frase que continua a acompanhar o seu percurso:

“A vida é bela.” – António Costa Silva

Um percurso internacional entre a engenharia, a energia e o serviço público

Depois da libertação, António Costa Silva estabeleceu-se em Portugal, onde concluiu a licenciatura em Engenharia de Minas no Instituto Superior Técnico.

Prosseguiu os estudos no Imperial College de Londres, onde obteve o mestrado em Engenharia de Petróleos, doutorando-se posteriormente em Engenharia de Reservatórios Petrolíferos.

Ao longo das décadas seguintes desenvolveu uma carreira internacional ligada ao setor da energia, coordenando projetos em diversos continentes e colaborando com empresas e organizações de referência internacional.

Mais tarde assumiu funções como Ministro da Economia e do Mar no XXIII Governo Constitucional português, mantendo paralelamente uma forte atividade nas áreas da investigação, da estratégia e da reflexão sobre o desenvolvimento económico.

A literatura como espaço de liberdade

Os livros ocuparam também um lugar central na conversa com o público.

António Costa Silva explicou que a literatura representou, ao longo da sua vida, um espaço permanente de liberdade e de construção intelectual, identificando vários autores que influenciaram profundamente o seu pensamento.

Entre eles referiu Jorge Luis Borges, Fiódor Dostoiévski, Leão Tolstói, William Shakespeare e Homero, escritores que considera fundamentais para compreender a condição humana, a memória e a liberdade.

Destacou igualmente “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, obra que classificou como particularmente atual pela defesa da leitura, da liberdade de pensamento e da resistência perante qualquer forma de censura.

Para o antigo ministro, os livros continuam a desempenhar um papel insubstituível na formação de cidadãos críticos, conscientes e livres.

Geopolítica, ciência e os desafios do século XXI

Na parte final da sessão, a conversa centrou-se nas transformações que marcam a ordem internacional.

António Costa Silva analisou a evolução do equilíbrio geopolítico mundial, refletindo sobre o papel das grandes potências, os conflitos internacionais e a crescente relevância estratégica da região do Indo-Pacífico.

Ao abordar os desafios do futuro, defendeu que a ciência, a educação, a inovação, a cultura e o conhecimento deverão continuar a constituir pilares fundamentais para preservar os valores da liberdade, da democracia, da cooperação internacional e da paz.

Biblioteca figueirense reafirma o compromisso com a promoção da cultura

No encerramento da sessão, o presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, Pedro Santana Lopes, agradeceu a disponibilidade de António Costa Silva para integrar o ciclo “5.as de Leitura”, destacando o seu percurso académico, científico, profissional e cívico, bem como o contributo que tem dado ao pensamento estratégico e ao debate público em Portugal.

O encontro terminou sob um prolongado aplauso do público, encerrando mais uma edição de uma iniciativa que continua a afirmar a Biblioteca Pública Municipal Pedro Fernandes Tomás como espaço de encontro entre autores, leitores e comunidade.

As “5.as de Leitura” regressam em setembro, em data a anunciar, prosseguindo um ciclo dedicado à promoção da cultura, da leitura e do pensamento crítico.

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