Ministra da Saúde angolana anunciou em Luanda a intensificação da vigilância e a compra de equipamentos, num momento em que o vizinho Congo lida com um surto do vírus Bundibugyo
A ministra da Saúde de Angola, Sílvia Lutucuta, declarou hoje que o país elevou o nível de preparação para uma eventual entrada do vírus do Ébola, acompanhando com “elevada atenção” aquilo que se passa na vizinha República Democrática do Congo. A afirmação ocorreu durante a abertura do Encontro Nacional de Preparação e Resposta à Doença pelo Vírus Ébola, um evento que juntou perto de 350 pessoas – entre as quais especialistas em saúde pública, gestores sanitários, equipas de vigilância epidemiológica, representantes das Forças Armadas Angolanas, da Polícia Nacional, do Serviço de Proteção Civil e Bombeiros, para além de membros do setor privado e parceiros internacionais.
A governante explicou que o Plano Nacional de Contingência Multissetorial e Multidisciplinar sobre esta doença foi actualizado com base nas recomendações internacionais mais recentes, uma vez que o surto já afecta a RDCongo e o Uganda. Foram revistos os protocolos técnicos e os procedimentos operacionais, tudo para fortalecer a vigilância epidemiológica, a investigação de casos, a gestão laboratorial, a prevenção e controlo de infecções, a gestão clínica e até a comunicação de risco. Não ficaram de fora a aquisição de equipamentos de protecção individual, ‘kits’ para recolha e transporte de amostras e outros materiais laboratoriais – um esforço que a ministra fez questão de sublinhar.
“Angola acompanha com elevada atenção a evolução do actual surto de doença por vírus Ébola na República Democrática do Congo e no Uganda”, afirmou Lutucuta, lembrando a extensa fronteira terrestre com a RDCongo. As populações dos dois países mantêm fortes relações sociais, familiares e comerciais, o que integra importantes corredores de mobilidade populacional. Esta realidade, na sua opinião, coloca Angola entre os países que devem manter níveis altos de vigilância e preparação. O epicentro do surto, detalhou, está nas províncias congolesas de Ituri, Kivu do Norte e Kivu do Sul, no leste do território, uma região marcada por deslocações populacionais, desafios humanitários e problemas de segurança que dificultam as acções de vigilância e controlo – um caldo de cultura para a propagação do vírus.
A ministra mostrou-se particularmente preocupada com os profissionais de saúde, um dos grupos mais expostos em epidemias desta natureza. Para ela, é fundamental investir na formação, garantir a disponibilidade de equipamentos de protecção individual, assegurar condições de trabalho minimamente dignas e reforçar continuamente as medidas de biossegurança. Tem sido dada atenção redobrada ao fortalecimento da vigilância epidemiológica e das medidas sanitárias nos pontos de entrada do país, incluindo aeroportos, portos e postos fronteiriços terrestres – tudo para reforçar a capacidade de detecção precoce e resposta imediata perante qualquer alerta.
De acordo com o mais recente relatório das autoridades da RDCongo, dos 550 casos da doença confirmados, há 101 mortes e 19 recuperações. A epidemia, declarada primeiro como surto em 15 de Maio, é provocada pelo raro vírus Bundibugyo, que não tem vacina ou tratamento aprovado – ao contrário do vírus Zaire, responsável pela maioria dos 16 surtos anteriores da doença no Congo. A epidemia já se espalhou para o Uganda, onde foram detectados até ao momento 19 casos confirmados. Na segunda-feira, a Organização Mundial da Saúde reduziu o risco para a saúde decorrente da epidemia de Ébola no continente africano de “alto” para “baixo”, com excepção da República Democrática do Congo (onde permanece “muito alto”) e dos países vizinhos.
O vírus do Ébola, detectado pela primeira vez em 1976 junto ao rio com o mesmo nome na RDCongo, transmite-se através do contacto directo com sangue ou outros fluidos corporais de pessoas ou animais infectados. Provoca febre hemorrágica grave, dores musculares, fraqueza, dores de cabeça, irritação da garganta, febre, vómitos, diarreia e hemorragias internas. Apesar de mortal, o vírus é menos contagioso do que a covid-19 ou o sarampo, segundo a OMS. Sílvia Lutucuta aproveitou ainda para recordar que Angola também está a registar casos de mpox – a chamada varíola dos macacos -, estando igualmente a ser tomadas medidas de resposta numa abordagem multissetorial. A coisa não é para brincadeiras, e o país parece ter aprendido as lições de crises sanitárias anteriores.
NR/HN/Lusa
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