Análise: Organizações terroristas e o impacto financeiro no Brasil | Blogs | CNN Brasil

Hoje, dia 5 de junho de 2026, o CV (Comando Vermelho) e o PCC (Primeiro Comando da Capital) passam a integrar oficialmente a lista de Organizações Terroristas Estrangeiras dos Estados Unidos.

A decisão, anunciada em maio pelo secretário de Estado Marco Rubio, coloca duas facções brasileiras ao lado de Al-Qaeda, Estado Islâmico, Hezbollah e Hamas.

Para entender o tamanho do que está em jogo, é preciso voltar três décadas e olhar para os países que já receberam exatamente a mesma sentença.

A designação FTO (Foreign Terrorist Organization) não nasceu para o crime organizado. Ela foi criada em 1996, pela Lei Antiterrorismo e de Pena de Morte Efetiva, a famosa AEDPA, na sigla em inglês, sancionada nos Estados Unidos na esteira do Oklahoma City, em 1995.

O contexto da criação é revelador. A lei nasceu de uma percepção específica: cortar o financiamento dos grupos terroristas, mas atacar o dinheiro, algo que poderia ser tão eficaz quanto a ação militar.

 

 

A FTO surgiu, portanto, como um instrumento financeiro de combate ao terrorismo político e ideológico. Congelar ativos, criminalizar o “apoio material”, bloquear vistos e estender o alcance da lei americana para além das fronteiras: essa era a engenharia pensada para asfixiar organizações movidas por causas, não por lucro.

É essa origem que torna o caso brasileiro tão singular. AFTO foi desenhada para grupos como a Al-Qaeda. Agora, está sendo aplicada a organizações cuja motivação central é o dinheiro.

O caminho que levou CV e PCC a essa lista foi aberto no início de 2025. Logo no primeiro dia de seu novo mandato, o presidente Donald Trump assinou ordens executivas, as de número 14157 e 14175, determinando que cartéis e outras organizações criminosas passassem a ser designados como FTOs.

Aqui está um ponto que muda o enquadramento do debate: PCC e CV não são apenas narcotráfico.

O tráfico de drogas é a origem histórica das duas facções, mas hoje elas operam como aquilo que o próprio Ministério Público chama de “multinacionais do crime”.

Combustíveis, fintechs, fundos de investimento, bets, logística, transporte de carga são formas que o PCC busca se infiltrar em setores cruciais da economia formal. Reduzi-las a “narcotráfico” subestima o problema e, paradoxalmente, ajuda a justificar a etiqueta de “terrorismo”.

Os números dão a dimensão. As estimativas variam conforme a metodologia: um estudo da Esfera Brasil em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública calculou o faturamento anual mínimo do PCC em US$ 1,3 bilhão, cerca de R$ 6,7 bilhões.

Já uma investigação do Ministério Público e da Polícia Federal aponta que esse faturamento ultrapassa R$ 100 bilhões anuais em apenas dois ramos: tráfico de drogas e combustíveis, sendo aproximadamente R$ 80 bilhões só no setor de combustíveis, revelado pela Operação Carbono Oculto.

E não é estimativa abstrata: na Operação Fluxo Oculto, seis fintechs ligadas ao esquema movimentaram mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025, com mandados cumpridos inclusive em endereços da Faria Lima, o centro financeiro do país.

O que de fato atingiu a estrutura financeira do PCC foram as operações brasileiras: Carbono Oculto, Fluxo Oculto e Tank, conduzidas por Receita Federal, Ministério Público e Polícia Federal, com dezenas de mandados e bloqueio de ativos.

Foi a inteligência financeira nacional, e não a etiqueta americana, que abriu os esquemas das fintechs e do mercado de combustíveis.

Esse ponto se conecta a uma questão histórica de fundo. A FTO foi criada para grupos políticos e ideológicos, e quando o instrumento financeiro americano se deparou com dinheiro de cartel circulando dentro do sistema, o resultado foi outro.

No caso HSBC, em 2012, recursos do Cartel de Sinaloa passaram pelo banco; a punição foi uma multa de US$ 1,9 bilhão e um acordo, não a asfixia da organização. Tratar lucro como se fosse ideologia tende a errar o instrumento.

Em síntese: PCC e CV nasceram do narcotráfico, mas se transformaram em conglomerados criminosos enraizados na economia formal e quem começou a enfraquecê-los foram as operações brasileiras de inteligência financeira, não a FTO, que sequer entrou em vigor.

Os efeitos da designação se distribuem em camadas, do imediato ao estrutural. A própria definição de um país que “abriga terrorismo internacional” tende a gerar desinvestimento, freio à criação de empregos e perda em transferência de tecnologia, além de pressão reputacional.

  • Turismo (impacto imediato): rebaixamento de São Paulo e Rio como destinos confiáveis, atingindo sobretudo o turismo de negócios, hotelaria, restaurantes, transporte justamente nas cidades-sede das facções.
  • Investimento estrangeiro (médio prazo): elevação do risco-país nos questionários de compliance e segurança que empresas estrangeiras já aplicam ao Brasil, levando a menor fluxo de capital produtivo.
  • Exportações (longo prazo, mais profundo): produtos brasileiros passam a sofrer escrutínio reforçado dos EUA e de aliados europeus que aceitam as classificações de Washington, sob suspeita de servirem ao financiamento do crime.
  • Sistema financeiro e soberania: o governo brasileiro aponta que a medida pode atingir inovações nacionais como o Pix, já investigado pelos EUA por suposta “concorrência desleal” e servir de pretexto para pressão externa.

Para projetar o que vem pela frente, o caminho mais honesto não é especular, mas é olhar para os países que já passaram exatamente por essa designação. O Brasil entra numa fila que já tem precedentes concretos.

México (fevereiro de 2025)

Foi o primeiro grande alvo da nova doutrina. Em 20 de fevereiro de 2025, o Departamento de Estado designou oito grupos como FTOs, entre eles o Cartel de Sinaloa, o CJNG e o Cartel del Golfo.

No campo financeiro, o Tesouro americano passou a rastrear e bloquear operações suspeitas ligadas a essas organizações em bancos de vários países.

No campo operacional, fontes ouvidas pela CNN afirmaram que agentes da CIA participaram diretamente de ações letais contra membros de cartéis em território mexicano.

Venezuela (2025-2026)

Foi o caso em que a designação escalou ao extremo. Depois de classificar o Tren de Aragua e o Cartel de los Soles como terroristas, Washington lançou, em setembro de 2025, a Operação Southern Spear, conduzida pelo Comando Sul no Caribe e no Pacífico Oriental.

A ofensiva mobilizou o porta-aviões nuclear USS Gerald R. Ford, caças em Porto Rico, drones MQ-9 Reaper e mais de 10 mil militares.

Foram registrados ao menos 52 ataques contra embarcações suspeitas de tráfico, com 178 mortos, uma das maiores presença militar americana no Caribe desde a Crise dos Mísseis de 1962. A operação culminou, em janeiro de 2026, na captura de Nicolás Maduro em Caracas.

A região (El Salvador, Equador, Haiti, Colômbia)

A classificação das facções brasileiras as aproxima de organizações desses países, que já haviam recebido o mesmo enquadramento transformando o combate ao narcotráfico em uma política continental coordenada por Washington.

O padrão observado nesses casos é consistente: a designação raramente fica restrita ao campo financeiro. A sequência tem sido designação, sanção financeira e, em seguida, ação operacional ou militar. No México, houve participação de inteligência americana; na Venezuela, intervenção militar aberta.

Há, porém, uma diferença que separa o Brasil desses precedentes, e que os próprios especialistas em direito internacional sublinham: a soberania brasileira é plena, e não há base legal para os EUA enviarem tropas ou agentes ao país sem consentimento.

Geografia também pesa: México e Venezuela são vizinhos diretos dos EUA, com rotas migratórias e de tráfico que tocam o território americano; o Brasil, não.

O que os precedentes mostram, em termos factuais, é que o impacto financeiro imediato congelamento de ativos, desconexão do sistema do dólar, processo a quem transaciona com os grupos se materializou em todos os casos.

O impacto militar, esse sim, variou conforme a proximidade e o peso geopolítico de cada país.

O Brasil herda a primeira camada de forma quase automática a partir de 5 de junho. A segunda permanece, por ora, no terreno do precedente e da distância.

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